Crise entre Roma e Igreja Copta continua após Fiducia Supplicans

Papa Leão XIV conversando com o clero da Igreja Ortodoxa Copta ao final de uma Audiência Geral. Foto: Vatican Media

Vaticano tenta restaurar diálogo após ruptura histórica provocada pela declaração sobre bênçãos a casais do mesmo sexo

O Vaticano voltou a buscar aproximação com a Igreja Copta Ortodoxa após a grave crise desencadeada pela publicação de Fiducia Supplicans, documento divulgado em dezembro de 2023 pelo Dicastério para a Doutrina da Fé autorizando bênçãos pastorais a casais em situação irregular, incluindo uniões do mesmo sexo.

Em mensagem divulgada nesta sexta-feira (15), Papa Leão XIV manifestou desejo de restaurar plenamente o diálogo com os coptas durante comunicação dirigida ao patriarca Tawadros II, líder da Igreja Copta Ortodoxa de Alexandria.

Segundo o Vaticano, a conversa ocorreu em clima “cordial e fraterno”, com ambas as partes demonstrando disposição para superar obstáculos ao diálogo e fortalecer a cooperação entre católicos e coptas, especialmente no testemunho cristão no Oriente Médio.

No entanto, chamou atenção o silêncio oficial sobre o principal motivo da ruptura: Fiducia Supplicans.

O documento que abalou o diálogo com os ortodoxos

A crise começou logo após a publicação da declaração doutrinal assinada pelo cardeal Víctor Manuel Fernández. O texto permitia bênçãos não litúrgicas a casais em situação considerada irregular pela moral católica tradicional.

A reação no mundo ortodoxo foi imediata.

Três dias após a divulgação do documento, o metropolita Hilarion de Budapeste afirmou ter recebido a notícia com “choque”, advertindo que medidas desse tipo criariam novas divisões entre Roma e os cristãos orientais.

Pouco depois, o cardeal Kurt Koch, prefeito do Dicastério para a Promoção da Unidade dos Cristãos, reconheceu que o texto havia provocado fortes reações negativas entre os ortodoxos.

Em março de 2024, a Igreja Copta Ortodoxa anunciou oficialmente a suspensão do diálogo teológico com Roma.

Embora a declaração oficial não mencionasse diretamente Fiducia Supplicans, o Santo Sínodo copta reafirmou sua rejeição às relações homossexuais e declarou que qualquer bênção dessas uniões representaria “uma bênção para o pecado”.

Posteriormente, o porta-voz copta, padre Moussa Ibrahim, esclareceu sem ambiguidades que a decisão estava ligada à mudança de posição percebida em Roma sobre a questão da homossexualidade.

Décadas de aproximação colocadas em risco

A suspensão do diálogo representou um duro golpe no relacionamento entre católicos e coptas, desenvolvido lentamente desde os anos 1970.

Durante décadas, Roma e Alexandria construíram importantes gestos de aproximação:

  • encontros entre papas e patriarcas;
  • cooperação teológica;
  • reconhecimento mútuo do martírio cristão;
  • iniciativas de fraternidade pastoral.


Em 2023, por exemplo, o Vaticano autorizou a celebração da Liturgia Divina copta na Arquibasílica de São João de Latrão, em Roma. No mesmo ano, o Papa Francisco inseriu no Martirológio Romano os vinte e um mártires coptas assassinados pelo Estado Islâmico na Líbia.

Parecia um momento de forte aproximação.

Mas a publicação de Fiducia Supplicans mudou radicalmente o cenário.

No Oriente cristão, doutrina moral e comunhão eclesial caminham juntas. Para muitos ortodoxos, mudanças ambíguas na linguagem pastoral inevitavelmente afetam a credibilidade doutrinal da Igreja.

E é justamente aí que a tensão explodiu.

Leão XIV tenta reconstruir pontes

Agora, menos de um ano após o início de seu pontificado, Pope Leo XIV tenta reabrir canais de diálogo sem reacender publicamente a controvérsia.

Em carta enviada a Tawadros II por ocasião do Dia da Amizade entre coptas e católicos, o Papa afirmou desejar que a Comissão Internacional de Diálogo Teológico entre a Igreja Católica e as Igrejas Ortodoxas Orientais volte a funcionar “o mais rapidamente possível”.

O texto também expressa esperança de que o Espírito Santo conduza ambas as Igrejas “à plena comunhão”.

Ainda assim, o Vaticano evitou qualquer nova defesa explícita de Fiducia Supplicans.

O silêncio parece calculado.

Roma sabe que a questão continua extremamente delicada entre os cristãos orientais.

Novo relatório sinodal pode aumentar a tensão

Enquanto tenta restaurar o diálogo com os coptas, o Vaticano enfrenta nova controvérsia interna.

O relatório final do Grupo de Estudos nº 9 do Sínodo da Sinodalidade — dedicado a temas doutrinais, pastorais e éticos emergentes — vem provocando fortes críticas dentro do mundo católico.

Segundo informações divulgadas por veículos especializados, o documento propõe uma profunda mudança pastoral na abordagem da homossexualidade e reúne testemunhos de pessoas em relações homoafetivas civis que descrevem sua condição como um “dom de Deus”.

O relatório também critica o apostolado Courage, tradicional iniciativa católica voltada ao acompanhamento espiritual de pessoas com atração pelo mesmo sexo.

A controvérsia aumentou após notícias de que o jesuíta James Martin teria colaborado na coordenação dos testemunhos presentes no documento.

Diante da repercussão negativa, setores ligados ao Sínodo tentam agora minimizar o peso oficial do relatório.

Mesmo assim, cresce a percepção de que o pontificado de Pope Leo XIV poderá ser pressionado a definir com maior clareza os limites entre acolhimento pastoral e fidelidade doutrinal.

Sem clareza doutrinal não existe verdadeiro ecumenismo

A crise com os coptas revela um problema muito mais profundo que uma simples divergência diplomática.

O verdadeiro ecumenismo depende da clareza da fé.

Para as Igrejas orientais, a unidade cristã não pode ser construída sobre ambiguidades morais ou adaptações pastorais percebidas como rupturas com a tradição apostólica.

É justamente por isso que Fiducia Supplicans produziu tamanho abalo.

A questão já não gira apenas em torno de um documento específico, mas da confiança doutrinal entre Roma e os cristãos tradicionais do Oriente.

O pontificado de Papa Leão XIV talvez enfrente uma das perguntas mais delicadas da Igreja contemporânea:

É possível preservar a unidade cristã enquanto cresce a percepção de ambiguidades morais dentro do próprio catolicismo?

A resposta poderá definir não apenas o futuro do diálogo com os coptas, mas também a credibilidade doutrinal de Roma diante do mundo cristão tradicional.

Por Diane Montagna