Quando os corredores pastorais começam a soar mais como assembleias terapêuticas do que como antecâmaras do Céu
Notas de Resistência em Tempos de Sinodalidade Fluida – Parte 2
Roma amanheceu úmida hoje.
Havia uma névoa fina sobre as cúpulas, dessas que fazem a
cidade parecer uma lembrança antiga de si mesma. Os sinos tocaram cedo. E por
um instante — breve, quase cruel — tudo parecia intacto: a pedra, a liturgia
das horas, os sacerdotes atravessando as praças em silêncio, as velhas senhoras
rezando o rosário como quem sustenta discretamente o eixo do mundo.
Mas bastou abrir os relatórios, entrevistas e
pronunciamentos dos novos laboratórios sinodais para que o contraste surgisse
outra vez, brutal como luz fria de hospital.
A Igreja de dois mil anos agora fala frequentemente como uma
ONG em crise de identidade tentando atualizar sua linguagem institucional para
sobreviver ao próximo ciclo cultural. O vocabulário mudou. Já não se fala tanto
de conversão, penitência, combate espiritual ou salvação das almas. A nova
gramática prefere “processos”, “escuta”, “experiências”, “narrativas”,
“acolhimento das diferenças”, “reestruturações pastorais”. Tudo muito delicado.
Tudo muito fluido. Tudo cuidadosamente incapaz de ferir a sensibilidade do
homem moderno — esse deus hipersensível que exige incenso existencial
diariamente.
Há algo de profundamente melancólico nisso.
Não porque a Igreja deva ser rude. Nunca foi. Os santos não
eram burocratas de pedra. São Francisco de Sales convertia almas com doçura. São
Filipe Néri evangelizava sorrindo. São João Maria Vianney chorava pelos
pecadores. A caridade sempre foi o perfume legítimo da verdade.
Mas perfume não substitui substância.
O problema começa quando a pastoral deixa de conduzir ao
altar do sacrifício e passa a funcionar como administração terapêutica de
desconfortos emocionais. A cruz torna-se constrangedora. O pecado vira
“fragilidade”. A doutrina transforma-se em “ponto de partida para diálogo”. E o
inferno — outrora pregado até por crianças em Fátima — desaparece com a
discrição elegante de um parente inconveniente retirado das fotografias da
família.
Os novos documentos eclesiais têm frequentemente um curioso
talento: conseguem produzir milhares de palavras sem mencionar claramente
aquilo que durante séculos sustentou civilizações inteiras. Fala-se
abundantemente de inclusão; pouco da necessidade de santidade. Muito de escuta;
quase nada de arrependimento. Muito de estruturas; pouco de transcendência.
Eis o paradoxo moderno: quanto mais certos sectores
eclesiásticos tentam aproximar a Igreja do mundo, menos o mundo se interessa
por ela.
Afinal, ninguém atravessa oceanos para ouvir eco.
O homem contemporâneo já possui relativismo em abundância.
Tem terapeutas, coaches, influenciadores espirituais, gurus motivacionais e
aplicativos de mindfulness suficientes para dez civilizações decadentes. O que
ele já não encontra quase em lugar algum é o senso do eterno. A fome
metafísica. O tremor diante do sagrado.
Talvez por isso tantos jovens estejam redescobrindo a
liturgia tradicional enquanto departamentos pastorais tentam transformá-la em
peça arqueológica embaraçosa.
Ironia das ironias.
Enquanto especialistas produzem intermináveis relatórios
sobre “novos paradigmas eclesiais”, rapazes de vinte anos aprendem latim pela
internet e dirigem horas para assistir a uma Missa silenciosa onde finalmente
percebem que Deus não é um animador de auditório comunitário.
Existe algo que o homem moderno talvez não consiga explicar
sociologicamente: a alma reconhece quando entrou em território sagrado.
Uma igreja escura iluminada por velas ainda fala mais
profundamente ao coração humano do que muitos congressos eclesiais repletos de
PowerPoints pastorais e linguagem corporativa reciclada. A fumaça do incenso
continua mais eloquente que certos documentos redigidos por comissões
intoxicadas de terminologia sociológica.
E aqui está a tragédia silenciosa do nosso tempo: muitos
homens da Igreja parecem acreditar mais na capacidade regeneradora da
modernidade do que na potência sobrenatural da graça.
O velho modernismo condenado por Papa São Pio X não morreu;
apenas trocou de roupa. Antes escrevia tratados densos tentando dissolver
dogmas em simbolismos históricos. Hoje prefere entrevistas suaves, ambiguidades
pastorais calculadas e comunicados cuidadosamente nebulosos. O método mudou. O
objetivo permanece curiosamente semelhante: adaptar o catolicismo à consciência
moderna.
Mas a consciência moderna é areia movediça.
Cada concessão gera outra exigência. Cada silêncio produz
nova pressão. Cada ambiguidade torna-se trincheira ocupada pelo espírito do
século. O mundo jamais aplaude a Igreja por ser fiel; apenas exige que ela ceda
mais um pouco.
Primeiro pedem linguagem mais acolhedora. Depois revisão
moral. Depois reinterpretação sacramental. Depois alteração antropológica.
Depois redefinição do próprio homem.
E então percebe-se que a batalha nunca foi apenas pastoral.
Era metafísica desde o início.
No fundo, discute-se se a realidade possui natureza objetiva
ou se tudo pode ser reconstruído segundo desejos subjetivos. A Igreja sempre
ensinou que a verdade liberta o homem. O espírito moderno responde que o homem
deve libertar-se da própria verdade.
Não surpreende que tantos discursos eclesiais contemporâneos
pareçam suspensos numa névoa semântica permanente. Definições claras incomodam
culturas líquidas. O dogma é uma pedra num mundo que deseja tornar-se vapor.
Contudo, apesar de tudo, a Igreja permanece.
Permanece cansada, ferida, atravessada por confusões
internas e por um estranho complexo de inferioridade diante da modernidade
decadente. Mas permanece.
Cristo continua presente no Santíssimo Sacramento mesmo
quando alguns dos Seus administradores parecem fascinados demais pelas últimas
modas antropológicas vindas das universidades ocidentais em decomposição
espiritual acelerada.
E talvez esta seja precisamente a tarefa da nossa geração:
permanecer sem amargura.
Resistir sem perder a caridade.
Guardar a fé sem transformar o coração em pedra.
Porque o perigo não está apenas nos excessos progressistas;
também existe o risco de que a reação à crise produza homens espiritualmente
endurecidos, incapazes de esperança, viciados em indignação permanente. O
demônio aprecia extremos. Ele tanto pode dissolver a verdade na relativização
sentimental quanto corroer a alma pela acidez do desespero.
Por isso os santos permanecem indispensáveis.
Santa Teresa de Jesus reformou um Carmelo decadente sem
romper com a Igreja. Santo Atanásio resistiu ao colapso doutrinal do seu século
sem abandonar a barca de Pedro. Santa Catarina de Sena falou duramente aos
prelados e ainda assim beijava a Igreja como filha obediente.
Eles compreenderam algo essencial: a Igreja não pertence aos
seus administradores temporários. Ela pertence a Cristo.
E Cristo não perde.
Roma continua úmida esta noite.
Os sinos voltarão a tocar amanhã. Haverá novos documentos,
novas entrevistas, novos slogans pastorais cuidadosamente ambíguos. Haverá
também pequenas capelas silenciosas onde um velho padre elevará a Hóstia com
mãos cansadas enquanto meia dúzia de fiéis ajoelhados sustentarão
invisivelmente o mundo.
É suficiente.
Sempre foi.
Por um Vaticanista residente em Roma.