Prudência no falar: a Quaresma que passa pela língua

Introdução

A cada ano, a Quaresma nos chama ao essencial. Não é um teatro de penitências exteriores, mas um retorno ao coração. Entre jejum, esmola e oração, existe uma prática esquecida — e, no entanto, decisiva: o governo da própria língua. Num mundo em que todos opinam sobre tudo, reaprender a calar pode ser o maior ato de coragem espiritual.

Vivemos na era da reação imediata. Comentários apressados, debates inflamados, palavras que ferem antes mesmo que o pensamento amadureça. A língua se tornou rápida; o discernimento, lento. E é justamente nesse cenário que a Igreja nos recorda algo antigo como o Evangelho: o silêncio é força, não fraqueza.

O convite atribuído a Papa Leão XIV para esta Quaresma — abstinência de palavras que atingem e ferem — recoloca a disciplina da fala no centro da vida espiritual. Não se trata apenas de evitar ofensas explícitas, mas de purificar a intenção, domar impulsos e aprender a falar apenas o que edifica.

Essa proposta ecoa profundamente a espiritualidade carmelitana. O Carmelo sempre compreendeu que o silêncio não é ausência de vida, mas ambiente de encontro. Deus fala no recolhimento, e a alma só O escuta quando aprende a refrear ruídos — inclusive os que saem da própria boca.

Portanto, refletir sobre a prudência no falar não é algo secundário. É tocar o ponto onde caridade, justiça e humildade se encontram. A Quaresma passa pela língua, porque o coração transborda por ela.

A disciplina da língua na escola do Carmelo

A Regra do Carmelo é direta. No número 18, ela orienta: cada um deve ponderar suas palavras e refrear a própria língua para não cair. Não há floreios, não há sentimentalismo. É disciplina. É vigilância. É consciência de que uma palavra mal colocada pode destruir o que anos de convivência construíram.

A tradição cristã sempre soube que a língua é pequena, mas poderosa. Não são apenas grandes pecados que ferem a vida fraterna; são as ironias constantes, as críticas desnecessárias, as conversas inúteis que corroem silenciosamente a comunhão. A prudência no falar é, portanto, uma forma concreta de caridade.

No Carmelo, o silêncio tem função ascética e fraterna. Trabalhar sem conversas vazias, evitar murmurações, guardar o recolhimento — tudo isso não é rigidez, mas proteção do coração. O silêncio cria espaço para a oração e preserva a unidade. Ele impede que a convivência se transforme em campo de batalha de egos.

Mais ainda: a prudência na fala exige exame interior. Antes de falar, perguntar-se: isso é verdadeiro? É necessário? É caridoso? Se faltar um desses elementos, talvez o silêncio seja o melhor caminho. O silêncio favorece a justiça porque impede julgamentos precipitados e palavras que condenam sem misericórdia.

A Quaresma, então, torna-se treino. Treino de domínio próprio. Treino de escuta. Treino de esperança. Como recorda o profeta Isaías (30,15), “no silêncio e na esperança está a vossa força”. O silêncio não é passividade; é firmeza interior. É decisão de não permitir que a língua governe a alma.

Conclusão

Se quisermos uma Quaresma autêntica, precisamos incluir a língua no altar do sacrifício. Jejuar de alimentos é importante; jejuar de palavras desnecessárias é transformador. A prudência no falar é uma penitência que atinge diretamente o coração, porque obriga a enfrentar impulsos e vaidades.

Essa prática nos reconcilia com a vida fraterna. Muitas divisões seriam evitadas se houvesse mais ponderação e menos precipitação. A prudência cria pontes onde a imprudência ergue muros. Ela restaura ambientes, cura relações e preserva a paz.

No horizonte carmelitano, o silêncio não é vazio, mas presença. É o espaço onde Deus trabalha a alma. Ao reduzir o ruído das palavras inúteis, ampliamos a escuta da Palavra que salva. A prudência no falar, portanto, não empobrece; enriquece.

Que esta Quaresma seja marcada por uma vigilância concreta: menos comentários impensados, menos críticas automáticas, menos palavras que ferem. E mais escuta, mais ponderação, mais caridade. O mundo precisa de cristãos que saibam falar — mas, sobretudo, que saibam calar.

No fim das contas, governar a língua é sinal de maturidade espiritual. E quem aprende a guardar silêncio por amor aprende também a falar com verdade e justiça. A prudência no falar é caminho de santidade — simples, exigente e profundamente libertador.

Por Ir. Alan Lucas de Lima, OTC
Carmelita Secular da Antiga Observância