Cardeal Robert Sarah adverte a SSPX: “Não se defende a Tradição rompendo com Pedro”
Uma nova declaração de Robert Sarah reacendeu um tema delicado na vida da Igreja: a relação da Fraternidade Sacerdotal São Pio X com Roma.
O cardeal manifesta “profunda preocupação e tristeza” diante do anúncio de possíveis sagrações episcopais sem mandato pontifício. Para quem acompanha a história recente, o tema é inevitável: trata-se de um cenário que remete às ordenações realizadas por Marcel Lefebvre em 1988, em oposição à vontade de João Paulo II — episódio que marcou gravemente a unidade visível da Igreja.
O centro do argumento: Cristo, a Igreja e Pedro
O cardeal parte da profissão de fé de São Pedro: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16). A partir daí, reafirma um princípio clássico da eclesiologia católica: Cristo se encontra na Igreja, e a Igreja tem um centro visível de unidade — o sucessor de Pedro.
A citação de Santo Agostinho é direta: “Onde está a Igreja, ali está Cristo.” Para o cardeal, isso significa que a salvação das almas — frequentemente invocada como justificativa para ações extraordinárias — não pode ser buscada fora da comunhão eclesial.
Tradição não é projeto paralelo
O texto reconhece algo que muitos católicos sentem: há crise, confusão doutrinária e enfraquecimento da transmissão da fé em diversos ambientes eclesiais. O cardeal não ignora isso.
Mas insiste num ponto decisivo: a Tradição não é propriedade privada nem projeto autônomo. Ela é a vida contínua da Igreja ao longo dos séculos — doutrina, sacramentos e sucessão apostólica inseparáveis.
Sem vínculo canônico com o sucessor de Pedro, pergunta ele, quem garante que a defesa da fé não se transforme em subjetivismo?
Obediência como garantia sobrenatural
Para sustentar seu argumento, o cardeal recorre a exemplos fortes.
Cita Catarina de Siena, que corrigia pastores, mas nunca rompeu com a autoridade da Igreja.
Recorda também Padre Pio, que sofreu restrições severas e injustas, inclusive a proibição de confessar por anos — e ainda assim permaneceu obediente.
A conclusão é clara: sofrer dentro da Igreja não autoriza sair dela.
“Abandonar a barca de Pedro”
Talvez a imagem mais forte do texto seja esta: abandonar a barca de Pedro é entregar-se às ondas da tempestade.
Para o cardeal, a unidade com o Papa não é questão de preferência pessoal nem de simpatia por estilos de governo. Trata-se de um princípio teológico: a obediência canônica é o sinal objetivo que preserva a Igreja do risco de se fragmentar em iniciativas autônomas, ainda que bem-intencionadas.
Ele insiste que a fidelidade ao Magistério anterior não pode ser garantida por juízo próprio, mas somente na comunhão com o sucessor de Pedro.
Um alerta à consciência católica
A declaração de Robert Sarah não é um ataque à liturgia tradicional nem à legítima preocupação com a integridade da fé. É, antes, um chamado à coerência eclesial: não se pode defender a Tradição rompendo com o princípio de unidade instituído por Cristo.
A questão que permanece é profunda e exige discernimento: como manter a fidelidade à herança recebida sem comprometer a comunhão visível da Igreja?
Num momento de tensões internas e debates acalorados, o cardeal aponta para uma resposta antiga e exigente: permanecer com Pedro, mesmo em meio à tempestade.
Tradução da declaração em PTBR
“Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16)
Com essas palavras, Pedro, ao ser interrogado pelo Mestre sobre a fé que tinha n’Ele, expressa em síntese o patrimônio que a Igreja, por meio da sucessão apostólica, guardou, aprofundou e transmitiu ao longo de dois mil anos: Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo, isto é, o único Salvador.
“Essas palavras tão claras do Papa Leão XIV sobre a fé de Pedro, no dia seguinte à sua eleição, ainda ressoam em minha alma.”
O Santo Padre resume assim o mistério da fé que os bispos, sucessores dos apóstolos, nunca devem deixar de proclamar.
Ora, onde podemos encontrar Jesus Cristo, o único Redentor? Santo Agostinho nos responde com clareza: “Onde está a Igreja, aí está Cristo.”
Portanto, nossa preocupação com a salvação das almas se traduz no compromisso de conduzi-las à única fonte, que é Cristo, que Se doa em Sua Igreja. Somente a Igreja é o caminho ordinário da salvação; é, portanto, o único lugar onde a fé é transmitida em sua integridade. É o único lugar onde a vida da graça nos é plenamente concedida por meio dos sacramentos.
Na Igreja há um centro, um ponto de referência obrigatório: a Igreja de Roma, governada pelo Sucessor de Pedro, o Papa.
“E eu te digo: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16,18).
Abandonar a barca de Pedro equivale a entregar-se às ondas da tempestade.
Desejo expressar minha profunda preocupação e grande tristeza ao saber do anúncio da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, fundada por Dom Marcel Lefebvre, de proceder a ordenações episcopais sem mandato pontifício.
Dizem-nos que essa decisão, que desobedeceria à lei da Igreja, é motivada pela lei suprema da salvação das almas: suprema lex, salus animarum.
Mas a salvação é Cristo, e Ele é dado somente na Igreja. Como se pode pretender conduzir as almas à salvação por outros caminhos que não aqueles que Ele mesmo indicou? Querer a salvação das almas significa rasgar o Corpo Místico de Cristo de maneira talvez irreversível? Quantas almas correm o risco de se perder por causa dessa nova ruptura?
Dizem-nos que esse ato visa defender a Tradição e a fé.
Sei o quanto o depósito da fé é, às vezes, desprezado hoje até mesmo por aqueles que têm a missão de defendê-lo. Sei que alguns esquecem que somente a cadeia ininterrupta da vida da Igreja, a proclamação da fé e a celebração dos sacramentos — aquilo que chamamos Tradição — nos dá a garantia de que o que cremos é a mensagem original de Cristo transmitida pelos apóstolos.
Mas também sei, e creio firmemente, que no coração da fé católica está nossa missão de seguir Cristo, que Se fez obediente até a morte. Podemos realmente dispensar-nos de seguir Cristo em Sua humildade até a Cruz? Não é trair a Tradição refugiar-se em meios humanos para preservar nossas obras, ainda que sejam boas?
Nossa fé sobrenatural na indefectibilidade da Igreja pode nos levar a dizer com Cristo: “Minha alma está triste até a morte” (Mt 26,38), ao ver a covardia de cristãos e até mesmo de prelados que renunciam a ensinar o depósito da fé e preferem suas opiniões pessoais em matéria de doutrina e moral.
Mas a fé jamais pode nos levar a renunciar à obediência à Igreja.
Santa Catarina de Sena, que não hesitou em admoestar cardeais e até o próprio Papa, exclamava: “Obedecei sempre ao pastor da Igreja, pois ele é o guia que Cristo estabeleceu para conduzir as almas a Ele.”
O bem das almas jamais pode passar por uma desobediência deliberada, porque o bem das almas é uma realidade sobrenatural. Não reduzamos a salvação a um jogo mundano de pressão midiática.
Quem nos dará a certeza de estarmos verdadeiramente em contato com a fonte da salvação? Quem nos garantirá que não tomamos nossa opinião pela verdade? Quem nos preservará do subjetivismo? Quem nos garantirá que continuamos a ser irrigados pela única Tradição que nos vem de Cristo? Quem nos assegurará que não estamos nos adiantando à Providência, mas seguindo-a, deixando-nos guiar por suas indicações?
A essas perguntas angustiadas há apenas uma resposta, dada por Cristo aos apóstolos:
“Quem vos ouve, a mim ouve. Se perdoardes os pecados de alguém, serão perdoados; se os retiverdes, serão retidos” (Lc 10,16; Jo 20,23).
Como poderíamos assumir a responsabilidade de nos afastar dessa única certeza?
Dizem-nos que isso é feito por fidelidade ao Magistério anterior; mas quem pode garantir isso, senão o próprio Sucessor de Pedro? Aqui trata-se de uma questão de fé.
“Quem desobedece ao Papa, representante de Cristo na terra, não participará do sangue do Filho de Deus”, dizia também Santa Catarina de Sena.
Não se trata de uma fidelidade mundana a um homem e às suas ideias pessoais. Não se trata de um culto à personalidade do Papa. Não se trata de obedecer ao Papa quando ele expressa suas próprias ideias ou opiniões pessoais.
Trata-se de obedecer ao Papa quando ele diz, como Jesus: “Minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou” (Jo 7,16).
É uma visão sobrenatural da obediência canônica, que garante nosso vínculo com o próprio Cristo. É a única garantia de que nossa luta pela fé, pela moral católica e pela Tradição litúrgica não se desvie para a ideologia.
Cristo não nos deu outro sinal seguro.
Abandonar a barca de Pedro e organizar-se de modo autônomo e fechado em si mesmo equivale a entregar-se às ondas da tempestade.
Sei bem que, muitas vezes, mesmo dentro da Igreja, há lobos disfarçados de cordeiros. O próprio Cristo não nos advertiu disso? Mas a melhor proteção contra o erro continua sendo nosso vínculo canônico com o Sucessor de Pedro.
“É o próprio Cristo que quer que permaneçamos na unidade e que, mesmo feridos pelos escândalos de maus pastores, não abandonemos a Igreja”, ensina Santo Agostinho.
Como permanecer insensíveis à oração angustiada de Jesus:
“Pai, que sejam um, como nós somos um” (Jo 17,22)?
Como continuar a dilacerar o Seu Corpo sob o pretexto de salvar as almas? Não é Ele, Jesus, quem salva? Somos nós e nossas estruturas que salvamos as almas? Não é por meio de nossa unidade que o mundo crerá e será salvo?
Essa unidade é, antes de tudo, a da fé católica; é também a da caridade; e, por fim, a da obediência.
Gostaria de recordar que São Padre Pio de Pietrelcina foi injustamente condenado por homens da Igreja durante sua vida. Quando Deus lhe concedeu uma graça especial para ajudar as almas dos pecadores, ele foi proibido de ouvir confissões por doze anos.
O que fez ele? Desobedeceu em nome da salvação das almas? Rebelou-se em nome da fidelidade a Deus? Não; ele guardou silêncio. Entrou numa obediência crucificante, certo de que sua humildade seria mais fecunda que sua rebelião.
Ele escreveu: “O bom Deus me fez compreender que a obediência é a única coisa que Lhe agrada; é para mim o único meio de esperar a salvação e cantar a vitória.”
Podemos afirmar que o melhor meio de defender a fé, a Tradição e a liturgia autêntica será sempre seguir Cristo obediente.
Cristo jamais nos ordenará romper a unidade da Igreja.
Cardeal Robert Sarah
Com informações extraídas do perfil do Catholic Frequency no X.