Cardeal Müller alerta contra consagrações ilícitas e aponta saída canônica para a Fraternidade São Pio X

ROMA — O cardeal alemão Gerhard Ludwig Müller publicou uma declaração firme a respeito da situação da Fraternidade São Pio X (FSSPX), advertindo contra a possibilidade de novas consagrações episcopais sem mandato pontifício e, ao mesmo tempo, indicando um caminho concreto para a plena regularização canônica da Sociedade.

A manifestação ocorre em meio a rumores de que a Fraternidade poderia avançar com novas consagrações para garantir sua continuidade episcopal. Müller recorda que a ordenação de bispos sem autorização do Romano Pontífice constitui um grave atentado à unidade visível da Igreja e fere diretamente a constituição sacramental e hierárquica estabelecida por Cristo.

Unidade com o Papa é condição essencial

Em sua análise, o cardeal reafirma o ensinamento clássico definido pelo Concílio Vaticano I na constituição Pastor aeternus: a primazia de jurisdição do Papa não é mera formalidade administrativa, mas princípio constitutivo da Igreja. A comunhão com o sucessor de Pedro é elemento essencial da catolicidade.

Segundo Müller, nenhuma justificativa de “estado de necessidade” pode legitimar uma ruptura prática com Roma. Ele observa que, ao longo da história, crises doutrinais profundas — do arianismo às controvérsias modernas — foram superadas por aqueles que permaneceram dentro da comunhão eclesial, jamais por iniciativas paralelas.

Vaticano II não é ruptura

Outro ponto central da declaração é a defesa do Concílio Vaticano II. Müller sustenta que o Concílio não introduziu novos dogmas nem rompeu com a Tradição, mas apresentou a mesma fé em novo contexto histórico. Por isso, rejeitá-lo globalmente significaria contradizer o próprio princípio de continuidade que a Fraternidade afirma defender.

Ele reconhece que houve abusos litúrgicos e confusões pastorais no período pós-conciliar, mas distingue tais desvios da autoridade legítima da Igreja para reformar a disciplina litúrgica. Abusos, afirma, não invalidam o rito nem o magistério.

Advertência contra novas consagrações

O alerta mais contundente diz respeito às possíveis consagrações episcopais sem mandato pontifício. Müller recorda que tal ato configuraria desobediência grave e aprofundaria a situação irregular da Fraternidade, com consequências canônicas sérias.

A história recente pesa nesse contexto: as consagrações realizadas em 1988 pelo arcebispo Marcel Lefebvre marcaram um ponto crítico na relação entre Roma e a FSSPX. Para o cardeal, repetir tal gesto significaria consolidar uma separação prática que poderia evoluir para um cisma formal.

Proposta de solução canônica

Apesar do tom de advertência, Müller também apresenta uma via positiva. Ele afirma que a solução é possível e está ao alcance: reconhecimento pleno e efetivo do Papa — mencionado na declaração como Leão XIV — não apenas teórico, mas concreto, com submissão à sua autoridade magisterial e jurisdicional.

Uma vez restabelecida essa comunhão, poderia ser concedido à Fraternidade um estatuto jurídico adequado, eventualmente com jurisdição ordinária própria e dependência direta do Papa, sem mediações burocráticas desnecessárias. A regularização canônica, contudo, seria consequência de uma concordância doutrinal e eclesiológica prévia.

Um chamado à responsabilidade histórica

Müller conclui ressaltando que a defesa da tradição não pode ser feita “à distância” da Igreja visível. Para ele, a credibilidade do testemunho tradicional depende da permanência dentro da estrutura apostólica da Igreja.

O cardeal reconhece as tensões atuais e as críticas legítimas a certos desenvolvimentos pastorais contemporâneos, mas sustenta que a fidelidade à fé católica exige unidade concreta com o sucessor de Pedro.

Com sua declaração, Müller combina advertência e abertura: alerta contra passos que agravariam a divisão e, ao mesmo tempo, oferece uma solução que preserva tanto a identidade da Fraternidade quanto a unidade da Igreja.

Com informações do Portal Católico Kath.net