Quaresma: o deserto, a tentação e a paz que vence
A cada início de Quaresma, a
Igreja nos conduz ao deserto. Não é uma escolha acidental. É pedagógica. O
primeiro domingo nos coloca diante do relato da tentação de Cristo — narrado,
entre outros, no Evangelho segundo Mateus 4,1-11.
Antes de qualquer ação pública,
antes de qualquer milagre, antes de qualquer aplauso, Cristo vai para o
deserto. E vai conduzido pelo Espírito.
Isso muda tudo.
O deserto não é ausência de Deus.
É lugar de prova. É o espaço onde a filiação é purificada. Ali, o tentador não
questiona apenas ações; ele questiona identidade: “Se és Filho de Deus…”
A tentação é sempre assim. Ela
insinua dúvida sobre quem somos diante do Pai.
No retiro quaresmal do Papa Leão
XIV, foi proposto um texto de Erik Varden que nos obriga a voltar a esse
núcleo. A Quaresma não é performance penitencial. É reencontro com a verdade da
nossa filiação.
Cristo responde às tentações com
a Escritura. Ele cita o Deuteronômio. Ele se coloca na história de Israel. O
deserto de Jesus recapitula o deserto do Êxodo. Onde Israel murmurou, Cristo
permanece fiel. Onde Israel cedeu à prova, Cristo obedece.
A primeira tentação — transformar pedras em pão — é a tentação de reduzir a vida à necessidade material.
A segunda — lançar-se do alto do templo — é a tentação de manipular Deus.
A terceira — adorar para receber poder — é a tentação da dominação.
Nada disso é ultrapassado. São as
tentações permanentes da humanidade.
É aqui que a reflexão de Varden
toca nosso tempo: podemos combater “em nome de Deus” e, ao mesmo tempo, estar
cedendo à tentação do poder. Podemos usar a linguagem da fé para buscar domínio
cultural. Mas Cristo rejeita essa via.
Ele escolhe a obediência. Ele
escolhe a cruz.
A Igreja, ao iniciar a Quaresma,
canta o Qui habitat, o cântico do Salmo 90: “Aquele que habita sob a
proteção do Altíssimo…” Não é um detalhe estético. É a chave hermenêutica do
deserto.
Habitar sob Deus é confiar sem
exigir provas.
É permanecer sem dramatizar a
aridez.
É lutar sem perder a paz.
São João Clímaco advertia que a
ira é o maior obstáculo à presença do Espírito. Isso ilumina o Evangelho:
Cristo é tentado, mas não reage com cólera. Ele não dialoga com ressentimento.
Ele responde com verdade e serenidade.
A paz de Cristo no deserto não é
fraqueza. É soberania interior.
São Bernardo de Claraval,
meditando o Salmo 90, via na vida cristã uma travessia contínua. O fiel caminha
entre perigos, mas sob os “braços eternos”. Essa imagem é profundamente
bíblica: não caminhamos sozinhos na aridez.
A Quaresma, então, é mais do que
ascese moral.
É participação no combate de
Cristo.
É aprendizado da verdadeira
liberdade.
Liberdade não é fazer o que se
quer.
É não ser governado pelas
paixões.
É não ser manipulado pelo
tentador.
O deserto revela o que nos
domina.
A tentação revela onde estamos
frágeis.
A resposta de Cristo revela o
caminho.
E o caminho passa pela paz.
Não pela paz superficial que
evita conflitos, mas pela paz que nasce da união com o Pai. A mesma paz que
permite enfrentar a cruz sem desespero.
A pergunta da Quaresma não é se estamos engajados nas disputas do nosso tempo.
É se estamos enraizados na filiação de Cristo.
Se habitamos sob a proteção do
Altíssimo, podemos atravessar o deserto.
Se sabemos quem somos diante do
Pai, as tentações perdem força.
Se guardamos a paz, o Espírito
encontra morada.
Entrar na Quaresma é entrar no
combate certo.
E o combate certo começa dentro.
Texto traduzido para o PTBR
Entrando na Quaresma
Da primeira conferência do retiro quaresmal desta semana.
A Quaresma nos coloca diante do essencial. Leva-nos, de modo concreto e simbólico, a um espaço despojado de excessos. Coisas que costumam nos distrair — até mesmo coisas boas em si mesmas — são afastadas por um tempo. Abraçamos uma abstinência dos sentidos.
A fidelidade ao exemplo e aos mandamentos de Cristo é a marca da sinceridade cristã. A medida da paz que encarnamos — aquela paz-sinal “que o mundo não pode dar” — indica a presença permanente de Jesus em nós. Precisamos insistir nisso agora, quando o Evangelho às vezes é usado como arma em guerras culturais.
As instrumentalizações da linguagem e dos símbolos cristãos devem ser contestadas, não apenas com indignação, mas ensinando o que significa o autêntico combate espiritual. Pois a paz cristã não é promessa de facilidade; é condição para uma sociedade transformada.
É oportuno explicitar a radicalidade da “paz” cristã enquanto recordamos, para nós mesmos e para os outros, a verdade nas palavras de São João Clímaco: “Não há obstáculo maior à presença do Espírito em nós do que a ira.”
A Igreja impregna o nosso programa quaresmal de paz. Ela nada diminui de seu chamado a combater os vícios e as paixões nocivas — sua linguagem é “sim, sim”, “não, não”, não “às vezes isto”, “às vezes aquilo”.
Em vez disso, ao iniciarmos o combate de cada Quaresma, ela nos oferece uma melodia pacífica como trilha sonora do tempo: um trato de grande beleza que, há mais de mil anos, a Igreja canta no Primeiro Domingo da Quaresma, para introduzir o relato da tentação de Cristo no deserto.
O trato põe em música o texto do Salmo 90, o Qui habitat. Essa obra de exegese melódica merece atenção. Não é apenas uma relíquia de estética antiga. Carrega uma mensagem vital.
São Bernardo de Claraval esteve atento a essa mensagem. Na Quaresma de 1139, ele pregou um ciclo de 17 sermões sobre o Qui habitat, refletindo sobre o que significa viver pela graça enquanto combatemos o mal, cultivamos o bem, sustentamos a verdade e seguimos o caminho do êxodo da escravidão rumo à terra da promessa, sem nos desviarmos nem para a direita nem para a esquerda, permanecendo em paz, conscientes de que, sob aquilo que às vezes nos parece uma caminhada sobre corda bamba, “estão os braços eternos”.
Ele nos convoca a um discipulado amoroso e lúcido.
Erik Varden é um monge e bispo, nascido na Noruega em 1974. Em 2002, após dez anos na Universidade de Cambridge, ingressou na Abadia de Mount Saint Bernard, na Floresta de Charnwood. O Papa Francisco o nomeou bispo de Trondheim em 2019.
Carmelita Secular da Antiga Observância