Entre a Mitra e a Consciência
Diário de um Católico na Contrarrevolução — Parte 44
Introdução — O dia em que entendi que nem toda paz vem de Deus
Escrevo estas linhas com um peso sereno no peito. Não é
revolta de um católico nem nostalgia mal resolvida. É lucidez adquirida a duras
penas. Chega um momento da vida católica em que a gente percebe que nem toda
paz anunciada vem do Céu — algumas vêm de acordos mal feitos, assinados longe
do altar e perto demais do poder.
Durante muito tempo, confesso, quis acreditar que tudo podia
ser resolvido com boa vontade, paciência e “interpretação correta”. Que as
tensões eram exageros, que as rupturas eram apenas aparentes. Mas a realidade,
teimosa como a verdade, foi se impondo. E ela não pede licença.
Quando a continuidade vira discurso vazio
Aprendi cedo, lendo os santos e os concílios, que a fé
católica não se sustenta em slogans, mas em continuidade real: a mesma
doutrina, o mesmo sacrifício, a mesma visão sobrenatural do mundo.
Por isso, sempre me soou estranho esse discurso moderno de
continuidade que precisa ser explicado demais. Quando algo é realmente
contínuo, não exige ginástica mental. Basta mostrar. Comparar. Ler.
Os concílios antigos falavam com clareza cortante. O erro
era erro. A verdade era verdade. Fora da Igreja não havia salvação — não como
arrogância, mas como consequência lógica de Cristo ser o único Salvador. A
Missa era o Santo Sacrifício, não uma reunião pedagógica.
De repente, tudo passou a ser “complexo”, “contextual”,
“aberto”. Não se nega frontalmente — apenas se esvazia. E chamam isso de
amadurecimento. Eu chamo de ruptura envernizada.
O preço cobrado aos que fazem acordos
Foi o caminho assumido por um bispo muito conhecido no
Brasil que me empurrou a escrever hoje. Não por curiosidade, mas por
necessidade de consciência. Ali ficou dolorosamente evidente: quando um grupo
tradicional do Brasil aceita um acordo nesses termos, a fatura chega rápido — e
quase nunca é barata.
Primeiro, pede-se um gesto de adesão — não explícito à
heresia, claro, mas à ambiguidade. Depois, pede-se discrição. Por fim, exige-se
algo mais grave: romper com quem permaneceu firme.
Já vi isso acontecer mais de uma vez. Quem ontem denunciava
os abusos hoje os justifica. Quem defendia a Missa de sempre agora a tolera
como exceção. E, para provar lealdade ao novo centro, passa a atacar os antigos
companheiros de trincheira.
Não é sempre má-fé. Às vezes é medo. Às vezes cansaço. Às
vezes vaidade espiritual. A mitra — real ou simbólica — pesa mais do que se
admite.
A questão decisiva — Pode a hierarquia errar?
Aqui fui obrigado a amadurecer minha fé. Não aquela fé
açucarada de catecismo infantil, mas a fé adulta da Tradição.
Sim, a Igreja é indefectível. Mas não, isso não significa
que todos os seus pastores, em todos os tempos, ajam corretamente. A história é
clara demais para permitir ingenuidade.
São Pedro caiu. Um Papa vacilou diante do arianismo. Santos
falaram de tempos em que a confusão viria de dentro, não de fora. Ignorar isso
não é confiança sobrenatural — é cegueira voluntária.
Quando ouço dizer que é “absurdo” pensar que a hierarquia
possa errar gravemente por um período, sei que não estou diante de teologia,
mas de medo de encarar a realidade.
Considerações: por que continuo aqui, resistindo?
Não escrevo para atacar pessoas. Escrevo para não trair a
consciência. Continuo na Contrarrevolução porque não sei viver de outra
forma sendo católico.
A Missa no Rito Romano Antigo não é para mim um refúgio
estético, mas uma âncora. Ali a fé não pede desculpas, não se adapta, não
negocia. Ela simplesmente é.
Minha esperança não está em reconhecimentos apressados nem
em acordos que pedem silêncio em troca de sobrevivência institucional. Está em
Cristo, que nunca prometeu sucesso, mas prometeu fidelidade recompensada.