Entrevista com o Superior Geral da Fraternidade São Pio X - “Suprema lex, salus animarum”
Nota: Após o anúncio, em 2 de
fevereiro, das futuras sagrações episcopais para a FSSPX, Sua Eminência o
Cardeal Fernandez, escreveu ao Superior Geral para propor um encontro em Roma.
o Superior Geral aceitou a proposta. A conversa terá lugar na quinta feira, 12
de fevereiro. Convidamos os membros e fiéis da Fraternidade a oferecerem suas
orações pelo bom desenvolvimento deste encontro.
“‘A lei suprema é a salvação das almas.’ É deste princípio superior que depende, em última instância, toda a legitimidade do nosso apostolado.”
1. FSSPX.News: Senhor
Superior-Geral, o senhor acaba de anunciar publicamente a sua intenção de
realizar as sagrações episcopais para a Fraternidade São Pio X no próximo dia
1° de julho. Por que fazer esse anúncio hoje, 2 de fevereiro?
Padre Davi Pagliarani: A festa da
Purificação da Santíssima Virgem é muito significativa dentro da Fraternidade.
É o dia em que os candidatos ao sacerdócio vestem a batina. A Apresentação de
Nosso Senhor no Templo, que hoje celebramos, lembra aos candidatos que a chave
da sua formação e da sua preparação para as ordens está no dom de si mesmo, que
passa pelas mãos de Maria. Trata-se de uma festa mariana de extrema
importância, pois, ao anunciar uma espada de dor a Nossa Senhora, Simeão
manifesta claramente o papel que ela tem de corredentora ao lado de seu divino
Filho. Vemo-la associar-se a Nosso Senhor desde o início da sua vida terrena
até a consumação do seu sacrifício no Calvário. Assim também, Nossa Senhora
acompanha o futuro sacerdote durante a sua formação e ao longo de toda a vida:
é ela quem continua a formar Nosso Senhor em sua alma.
2. Esse anúncio vinha sendo
objeto de vários rumores nos últimos meses, especialmente desde o falecimento
de Dom Tissier de Mallerais, em outubro de 2024. Por que o senhor esperou até
agora?
Assim como Dom Lefebvre em seu
tempo, a Fraternidade tem sempre o cuidado de não se antecipar à Providência,
mas segui-la, deixando-se guiar pelos seus sinais. Uma decisão tão importante
não pode ser tomada levianamente, nem com precipitação.
Em particular, visto tratar-se de
uma questão que evidentemente é do interesse da autoridade suprema da Igreja,
era necessário antes fazer gestões junto à Santa Sé – coisa que nós fizemos – e
aguardar um prazo razoável para que pudessem nos responder. Não é uma decisão
que poderíamos tomar sem manifestar concretamente o nosso reconhecimento da
autoridade do Santo Padre.
3. Na sua homilia, o senhor
disse que tinha de fato escrito ao Papa. Poderia contar-nos mais acerca disso?
No verão passado, escrevi ao
Santo Padre para lhe pedir uma audiência. Não tendo recebido resposta,
escrevi-lhe uma nova carta alguns meses mais tarde, de maneira simples e
filial, sem lhe esconder nada das nossas necessidades. Mencionei nossas
divergências doutrinais, mas também o nosso desejo sincero de servir
incansavelmente a Igreja católica, pois somos servidores da Igreja, apesar do
nosso estatuto canônico não reconhecido.
Em decorrência desta segunda
carta, chegou-nos, há alguns dias, uma resposta de Roma, da parte do Cardeal
Fernández. Infelizmente, ela não leva de modo algum em consideração a proposta
que formulamos, nem propõe nada que responda às nossas solicitações.
Esta proposta, tendo em conta as
circunstâncias de todo particulares em que se encontra a Fraternidade, consiste
concretamente em pedir que a Santa Sé aceite deixar-nos continuar
temporariamente em nossa situação de exceção, para bem das almas que recorrem a
nós. Prometemos ao Papa envidar todos os esforços para preservar a Tradição e
fazer dos nossos fiéis verdadeiros filhos da Igreja. Parece-me que tal proposta
é ao mesmo tempo realista e razoável, e que poderia, em si mesma, receber a
aprovação do Santo Padre.
4. Mas nesse caso, se o
senhor ainda não recebeu essa aprovação, por que razão considera que deve,
mesmo assim, realizar as consagrações episcopais?
Trata-se de um expediente
extremo, proporcional a uma necessidade real e igualmente extrema. É certo que
a simples existência de uma necessidade para o bem das almas não significa que,
para responder a ela, toda e qualquer iniciativa esteja automaticamente
justificada. Mas no nosso caso, depois de um longo período de espera, de
observação e de oração, parece-nos que podemos hoje afirmar que o estado
objetivo de grave necessidade em que se encontram as almas, a Fraternidade e a
Igreja, exige uma decisão dessa ordem.
Com o legado que nos foi deixado
pelo Papa Francisco, as razões de fundo que já haviam justificado as sagrações
de 1988 subsistem plenamente e parecem mesmo, sob muitos aspectos, ter ganhado
uma nova premência. O Concílio Vaticano II mais do que nunca segue sendo a
bússola que orienta os homens da Igreja, e estes, ao que parece, não irão mudar
de rumo no futuro próximo. As principais diretrizes que já se delineiam para o
novo pontificado, em particular por meio do último consistório, só fazem
confirmar isso: percebe-se nelas uma determinação explícita de conservar a
linha de Francisco como um caminho irreversível para toda a Igreja.
“Prometemos ao Papa envidar todos os esforços para preservar a Tradição e fazer dos nossos fiéis verdadeiros filhos da Igreja.”
É algo triste de constatar, mas é
um fato: numa paróquia comum, os fiéis já não encontram os meios necessários
para assegurar a sua salvação eterna. Isso diz respeito, em particular, à
pregação integral da verdade e da moral católicas, bem como à administração dos
sacramentos tal como a Igreja desde sempre o tem feito. Temos aí um resumo do
que é o estado de necessidade. E nesse contexto crítico, os nossos bispos estão
envelhecendo, e com o crescimento contínuo do apostolado, já não são
suficientes para responder às demandas dos fiéis no mundo inteiro.
5. Em que sentido o senhor
considera que o consistório do mês passado confirma a direção tomada pelo Papa
Francisco?
Naquela ocasião, o cardeal
Fernández, em nome do papa Leão, convidou a Igreja a retornar à intuição
fundamental de Francisco, expressa em Evangelii gaudium, sua
encíclica-chave: trata-se, de um modo geral, de reduzir o anúncio do Evangelho
à sua expressão primitiva essencial, valendo-se de fórmulas muito concisas e
impactantes – o “querigma” –, tendo em vista uma
“experiência”, um encontro imediato com Cristo, deixando de lado todo o resto,
por mais precioso que seja – em termos concretos, o conjunto dos elementos da
Tradição, tidos por acessórios e secundários. É esse método de nova evangelização
que produziu o vazio doutrinal característico do pontificado de Francisco,
fortemente sentido por todo um setor da Igreja.
É evidente que, numa perspectiva
como essa, é sempre necessário preocupar-se em oferecer respostas novas e
adequadas às questões que vão surgindo: essa tarefa, porém, deve ser realizada
por meio da reforma sinodal, e não pela redescoberta das respostas clássicas e
sempre válidas fornecidas pela Tradição da Igreja. Foi assim, no “sopro do
Espírito” dessa reforma sinodal, que Francisco conseguiu impor a toda a Igreja
decisões catastróficas, como a que autoriza a comunhão dos divorciados que se
casaram de novo ou a bênção de casais do mesmo sexo.
Em síntese: de um lado,
pelo “querigma”, isola-se o anúncio do Evangelho de todo o corpus da
doutrina e da moral tradicionais; de outro, pela sinodalidade, substituem-se as
respostas tradicionais por decisões aleatórias, frequentemente absurdas e
doutrinalmente injustificáveis. O próprio Cardeal Zen considera esse método
manipulador e julga blasfemo atribuí-lo ao Espírito Santo. E receio que
infelizmente ele tenha razão.
6. O senhor fala em servir
à Igreja, mas, na prática, a Fraternidade pode dar a impressão de desafiar a
Igreja, sobretudo no caso de sagrações episcopais. Como o senhor explica isso
ao Papa?
Servimos à Igreja, antes de tudo,
servindo às almas. Trata-se de um fato objetivo, independentemente de qualquer
outra consideração. A Igreja, em sua essência, existe para as almas: tem por
finalidade sua santificação e salvação. Todos os belos discursos, os mais
diversos debates, os grandes temas sobre os quais se discute ou se poderia
discutir, não têm sentido nenhum se não tiverem como objetivo a salvação das
almas. É importante lembrar isso, pois hoje existe o perigo de a Igreja
ocupar-se de tudo e de nada ao mesmo tempo. A preocupação ecológica, por
exemplo, ou a defesa dos direitos das minorias, das mulheres ou dos imigrantes,
trazem o risco de nos fazer perder de vista a missão essencial da Igreja. Se a
Fraternidade São Pio X luta por manter a Tradição, com tudo o que isso
acarreta, é unicamente porque esses tesouros são indispensáveis para a salvação
das almas, e porque nada mais busca além disto: o bem das almas e o do
sacerdócio ordenado à sua santificação.
“Numa paróquia comum, os fiéis já não encontram os meios necessários para assegurar a sua salvação eterna. Temos aí um resumo do que é o estado de necessidade.”
Ao agir assim, pomos a serviço da
própria Igreja aquilo que nós mantemos. Oferecemos à Igreja não um museu de
coisas antigas e empoeiradas, mas a Tradição em sua plenitude e fecundidade; a
Tradição que santifica as almas, que as transforma, que suscita vocações e
famílias autenticamente católicas. Noutras palavras, é para o próprio Papa,
enquanto tal, que mantemos esse tesouro, até o dia em que o seu valor seja
novamente compreendido e o Papa queira usar desse tesouro para o bem de toda a
Igreja. Pois é a Ela que pertence a Tradição.
7. O senhor fala do bem das
almas, mas a Fraternidade não tem missão sobre as almas. Pelo contrário, foi
canonicamente suprimida há mais de cinquenta anos. Com base em quê se pode
justificar uma missão da Fraternidade junto às almas?
Trata-se simplesmente de uma
questão de caridade. Não queremos atribuir-nos uma missão que não temos. Mas,
ao mesmo tempo, não podemos ficar de braços cruzados diante da aflição
espiritual das almas que estão, cada vez mais, perplexas, desorientadas e perdidas.
Elas clamam por socorro. E, depois de terem procurado por muito tempo, é
natural que seja nas riquezas da Tradição da Igreja integralmente vivida onde
irão encontrar, com profunda alegria, a luz e o consolo. Em relação a essas
almas, temos uma verdadeira responsabilidade, ainda que não tenhamos nenhuma
missão oficial: se alguém vê na rua uma pessoa em perigo, tem o dever de lhe
prestar socorro de acordo com as suas possibilidades, ainda que não seja
bombeiro nem policial.
Dessa forma, o número de almas
que nos têm procurado vem crescendo sem parar com o passar dos anos, e
inclusive aumentou consideravelmente na última década. Ignorar as suas
necessidades e abandoná-las seria o mesmo que traí-las e, assim, trair a
própria Igreja, pois, não custa repetir: a Igreja existe para as almas e não
para alimentar discursos vãos e fúteis.
Essa caridade é um dever que
preside a todos os demais. É o próprio direito da Igreja que prescreve que seja
assim. No espírito do direito da Igreja, que é a expressão jurídica dessa
caridade, o bem das almas vem antes de tudo. Representa verdadeiramente a lei
das leis, à qual todas as demais estão subordinadas e contra a qual nenhuma lei
eclesiástica pode prevalecer. O axioma suprema lex, salus
animarum – a salvação das almas é a lei suprema – é uma máxima
clássica da tradição canônica, retomada explicitamente pelo cânon final do
Código de 1983; no atual estado de necessidade, é desse princípio superior que
depende, em última instância, toda a legitimidade do nosso apostolado e da
nossa missão junto às almas que vêm nos procurar. Trata-se, para nós, de um
papel de suplência, em nome dessa mesma caridade.
8. O senhor está ciente de
que, ao considerar novas sagrações episcopais, poderia colocar os fiéis que
recorrem à Fraternidade diante de um dilema: ou a escolha da Tradição integral,
com tudo o que isso implica, ou a “plena” comunhão com a hierarquia da Igreja?
Esse dilema é, na realidade,
apenas aparente. É evidente que um católico deve manter, ao mesmo tempo, a
Tradição integral e a comunhão com a hierarquia. Não pode escolher entre esses
bens, que são ambos necessários.
Porém o que com demasiada
frequência se esquece é que a comunhão está fundada essencialmente na fé
católica, com tudo o que isso implica: a começar por uma verdadeira vida
sacramental e pelo exercício de um governo que prega essa mesma fé e faz com
que ela seja posta em prática, usando de sua autoridade não de modo arbitrário,
mas realmente em vista do bem espiritual das almas que lhe foram confiadas.
É justamente para garantir esses
fundamentos, essas condições necessárias à própria existência da comunhão na
Igreja, que a Fraternidade não pode aceitar aquilo que se opõe a essa comunhão
e a desvirtua, ainda quando, paradoxalmente, isso vem daqueles mesmos que
exercem a autoridade na Igreja.
9. Poderia dar-nos um
exemplo concreto daquilo que a Fraternidade não pode aceitar?
O primeiro exemplo que me vem em
mente remonta ao ano de 2019, quando o Papa Francisco, por ocasião da sua
visita à península arábica, assinou junto com um imã a famosa declaração de Abu
Dhabi. Nela ele afirmava, juntamente com o chefe muçulmano, que a pluralidade
das religiões como tal era algo desejado pela Sabedoria divina.
É evidente que uma comunhão que
se fundasse na aceitação de tal afirmação, ou que a incluísse, simplesmente não
seria católica, pois implicaria um pecado contra o primeiro mandamento e a
negação do primeiro artigo do Credo. Considero que uma afirmação como aquela é
mais do que um simples erro. É algo simplesmente inconcebível. Não pode ser o
fundamento de uma comunhão católica, mas antes a causa da sua dissolução. Creio
que um católico deveria preferir o martírio antes que aceitar semelhante
afirmação.
10. Em todo o mundo, a
percepção dos erros denunciados desde há muito tempo pela Fraternidade vem
crescendo, especialmente na internet. Não seria conveniente deixar que esse
movimento se desenvolvesse, confiando na Providência, em vez de intervir por
meio de um gesto público tão impactante como o são as sagrações episcopais?
Trata-se de um movimento
certamente positivo, e não podemos deixar de nos alegrar por ele. Decerto vem
ilustrar a legitimidade daquilo que a Fraternidade defende, e cabe encorajar
essa difusão da verdade por todos os meios disponíveis. Dito isso, trata-se de
um movimento que tem limites, pois o combate da fé não pode restringir-se nem
esgotar-se em discussões e posicionamentos que têm por arena a internet ou as
redes sociais.
É claro que a santificação de uma
alma depende de uma profissão de fé autêntica, mas esta deve levar afinal a uma
verdadeira vida cristã. Ora, no domingo as almas não precisam consultar uma
plataforma da internet; precisam de um sacerdote que as confesse e instrua, que
celebre para elas a Santa Missa, que as santifique verdadeiramente e as conduza
a Deus. As almas precisam de sacerdotes. E, para que haja sacerdotes, é preciso
haver bispos, e não “influencers”. Noutras palavras, é preciso voltar à
realidade, isto é, à realidade das almas e das suas necessidades objetivas
concretas. As sagrações episcopais não têm outra finalidade a não ser esta:
garantir, para os fiéis ligados à Tradição, a administração do sacramento da
Confirmação, da Ordem e de tudo o que deles decorre.
11. O senhor não teme que,
apesar das suas boas intenções, a Fraternidade possa, de algum modo, acabar por
se achar a Igreja, ou atribuir-se um papel insubstituível?
De modo algum a Fraternidade
deseja colocar-se no lugar da Igreja ou assumir a missão dela; pelo contrário,
conserva uma profunda consciência de existir unicamente para servi-la,
apoiando-se exclusivamente naquilo que a própria Igreja sempre e universalmente
pregou, acreditou e realizou.
A Fraternidade, além disso, tem
plena consciência de que não é ela que salva a Igreja, pois somente Nosso
Senhor guarda e salva a sua Esposa – Ele que nunca deixa de velar por ela.
A Fraternidade é tão somente, em
circunstâncias que não foram escolhidas por ela, um meio privilegiado para se
permanecer fiel à Igreja. Atenta à missão da sua Mãe, que durante vinte séculos
alimentou os seus filhos pela doutrina e pelos sacramentos, a Fraternidade
consagra-se filialmente à preservação e à defesa da Tradição integral, usando
de uma liberdade sem paralelo, a fim de poder permanecer fiel a esse legado.
Segundo a expressão de Dom Lefebvre, a Fraternidade é somente uma obra “da
Igreja católica, que continua a transmitir a doutrina”; o seu papel é como o de
um “carteiro que leva uma carta”. E o seu maior desejo é que todos os pastores
católicos se juntem a ela no cumprimento desse dever.
12. Voltemos ao Papa. O
senhor considera realista pensar que o Santo Padre possa aceitar, ou sequer
tolerar, que a Fraternidade consagre bispos sem mandato pontifício?
O Papa é, antes de tudo, um pai.
Como tal, é capaz de discernir uma intenção reta, uma vontade sincera de servir
a Igreja e, sobretudo, um verdadeiro caso de consciência numa situação
excepcional. Esses elementos são objetivos, como todos os que conhecem a
Fraternidade podem reconhecer, mesmo sem necessariamente partilhar das suas
posições.
13. Isso é compreensível em
teoria. Mas o senhor pensa que, concretamente, Roma possa tolerar uma decisão
desse tipo por parte da Fraternidade?
O futuro permanece nas mãos do
Santo Padre e, evidentemente, nas da Providência. No entanto, é preciso
reconhecer que a Santa Sé é por vezes capaz de dar mostras de um certo
pragmatismo, e mesmo de uma flexibilidade surpreendente, quando está convencida
de agir para o bem das almas.
Tomemos o caso muito atual das
relações com o governo chinês. Apesar de um verdadeiro cisma da Igreja
patriótica chinesa; apesar de uma perseguição ininterrupta contra a Igreja do
Silêncio, fiel a Roma; apesar de acordos repetidamente renovados e em seguida
violados pelo governo chinês: apesar de tudo isso, em 2023 o Papa Francisco
aprovou a posteriori a nomeação do bispo de Xangai pelas
autoridades chinesas. Mais recentemente, o Papa Leão XIV acabou aceitando a
posteriori a nomeação do bispo de Xinxiang, designado do mesmo modo
durante a vacância da Sé Apostólica, enquanto o bispo fiel a Roma, várias vezes
encarcerado, ainda estava encarregado da diocese. Em ambos os casos, trata-se
evidentemente de prelados favoráveis ao governo, impostos unilateralmente por
Pequim com o objetivo de controlar a Igreja Católica na China. Convém notar que
não se trata aqui de meros bispos auxiliares, mas sim de bispos residenciais,
isto é, os pastores ordinários da sua respectiva diocese (ou prefeitura), com
jurisdição sobre os sacerdotes e os fiéis locais. Em Roma, sabe-se muito bem
com que finalidade esses pastores foram escolhidos e impostos unilateralmente.
“A Fraternidade São Pio X nada mais busca além disto: o bem das almas e o do sacerdócio ordenado à sua santificação.”
O caso da Fraternidade é bem
diferente: é evidente que não estamos aí para favorecer um poder comunista ou
anticatólico, mas apenas para salvaguardar os direitos de Cristo Rei e da
Tradição da Igreja, num momento de crise e de confusão generalizadas em que
estes direitos se encontram gravemente comprometidos. As intenções e as
finalidades evidentemente não são as mesmas. O Papa sabe disso. Além do quê, o
Santo Padre sabe muito bem que a Fraternidade de modo nenhum pretende conferir
aos seus bispos qualquer jurisdição que seja, o que equivaleria a criar uma
Igreja paralela.
Francamente, não vejo como o Papa
poderia recear um perigo maior para as almas da parte da Fraternidade que da
parte do governo de Pequim.
14. O senhor acha que, no
que diz respeito à missa tradicional, a necessidade das almas é hoje tão grave
quanto em 1988? Após as vicissitudes por que passou o rito de São Pio V, sua
liberação por Bento XVI em 2007, as restrições impostas por Francisco em
2021... em que direção estamos indo com o novo Papa?
Até onde me é dado saber, o Papa
Leão XIV guardou certa discrição sobre esse tema, que tem suscitado grande
expectativa no mundo conservador. Mas há bem pouco tempo um texto do Cardeal
Roche sobre a liturgia, inicialmente destinado aos cardeais que participavam do
consistório do mês passado, veio a público. Não há razão para duvidar que esse
texto corresponde, em suas linhas gerais, à orientação desejada pelo Papa.
Trata-se de um texto muito claro e, sobretudo, lógico e coerente. Infelizmente,
apoia- se numa premissa falsa.
Concretamente, esse texto, em
perfeita continuidade com Traditionis custodes, condena o projeto
litúrgico do Papa Bento XVI. Segundo este, o rito antigo e o novo seriam duas
formas mais ou menos equivalentes, e que em todo caso expressariam a mesma fé e
a mesma eclesiologia, sendo, portanto, capazes de se enriquecerem mutuamente.
Preocupado com a unidade da Igreja, Bento XVI quis promover a coexistência dos
dois ritos e publicou em 2007 o Motu proprio Summorum Pontificum.
Para muitos, providencialmente, isso permitiu a redescoberta da Missa de
sempre; mas, com o tempo, também fez surgir um movimento de questionamento do
novo rito, movimento que foi visto como problemático e que Traditionis
custodes em 2021 procurou conter.
Fiel a Francisco, o Cardeal Roche
por sua vez apregoa a unidade da Igreja, mas segundo uma ideia e por meios
diametralmente opostos aos de Bento XVI: ao mesmo tempo em que mantém a
afirmação de uma continuidade entre um rito e outro através da reforma, opõe-se
firmemente à sua coexistência. Enxerga nela uma fonte de divisão, uma ameaça
para a unidade, que deve ser superada pelo retorno a uma autêntica comunhão
litúrgica: “O bem primordial da unidade da Igreja não se obtém ‘congelando’ a
divisão, mas ao encontrarmo-nos todos na partilha daquilo que não pode deixar
de ser partilhado”. A Igreja “deve ter um único rito”, em plena harmonia com o
verdadeiro sentido da Tradição.
Como princípio, é justo e
coerente, pois a Igreja, tendo uma só fé e uma só eclesiologia, não pode deixar
de ter uma só liturgia capaz de expressá-las adequadamente… Mas o princípio foi
mal aplicado, pois, seguindo a lógica da nova eclesiologia pós-conciliar, o
Cardeal Roche concebe a Tradição como algo evolutivo, e o novo rito como a sua
única expressão viva para o nosso tempo; o valor do rito tridentino não pode,
portanto, ser considerado senão como algo que ficou para trás, e o seu uso,
quando muito, uma “concessão”, “de modo algum uma promoção”.
Agora, portanto, ficou mais claro
que existe uma “divisão” e uma incompatibilidade atual entre os dois ritos. Mas
não nos enganemos: a única liturgia que expressa adequadamente, de modo
imutável e não evolutivo, a concepção tradicional da Igreja, da vida cristã, do
sacerdócio católico, é aquela de sempre. Quanto a este ponto, a oposição da
Santa Sé parece, mais do que nunca, irrevogável.
15. O Cardeal Roche, não
obstante, reconhece que existem ainda alguns problemas na aplicação da reforma
litúrgica. O senhor pensa que isso possa conduzir a uma tomada de consciência
quanto aos limites dessa reforma?
É interessante ver que, passados
sessenta anos, ainda se reconhece a existência de uma dificuldade real na
aplicação da reforma litúrgica, cuja riqueza ainda estaria por descobrir: é um
refrão que vimos ouvindo desde sempre, sempre que se aborda esse tema, e que o
texto do Cardeal Roche não deixa de mencionar. Porém, em vez de se perguntar
sinceramente sobre as deficiências intrínsecas da nova missa, e portanto sobre
o fracasso geral dessa reforma, em vez de encarar o fato de que as igrejas se
esvaziam e as vocações diminuem; em vez de se perguntar por que razão o rito
tridentino continua a atrair tantas almas… a única solução que o Cardeal Roche
consegue vislumbrar é uma urgente formação prévia dos fiéis e dos seminaristas.
Sem se dar conta, ele entra num
círculo vicioso: na verdade é a própria liturgia que deveria formar as almas.
Durante quase dois mil anos, as almas, muitas vezes analfabetas, foram
edificadas e santificadas pela própria liturgia, sem necessidade de nenhuma
formação prévia. Não reconhecer a incapacidade intrínseca do Novus
Ordo para edificar as almas, exigindo ademais uma melhor formação,
parece-me ser um sinal de cegueira incurável. Chegamos, assim, a paradoxos
chocantes: a reforma foi desejada para favorecer a participação dos fiéis; ora,
estes abandonaram a Igreja em massa, porque essa liturgia insossa não foi capaz
de alimentá-los; e isso supostamente não teria nada a ver com a própria
reforma!
16. Hoje, em muitos países,
ainda existem grupos não ligados à Fraternidade e que no entanto se beneficiam
do uso do missal de 1962. Tais possibilidades quase não existiam em 1988. Não
constituiriam eles uma alternativa suficiente para o momento, tornando assim
prematuras novas sagrações episcopais?
A pergunta que devemos fazer é a
seguinte: tais possibilidades correspondem àquilo de que a Igreja e as almas
têm necessidade? Respondem de maneira suficiente à necessidade das almas?
É inegável que, onde quer que a
missa tradicional seja celebrada, é o verdadeiro rito da Igreja que
resplandece, com esse profundo senso do sagrado que não se encontra no novo
rito. Contudo, não se pode deixar de lado o contexto em que essas celebrações ocorrem.
Ora, independentemente da boa vontade desta ou daquela pessoa, o contexto
parece claro, sobretudo desde o Traditionis Custodes, confirmado
aliás pelo Cardeal Roche: trata-se de uma Igreja onde o único rito oficial
“normal” é o de Paulo VI. A celebração do rito de sempre se dá, portanto, num
regime que podemos chamar de exceção: os adeptos desse rito recebem, por
benevolência gratuita, dispensas que lhes permitem celebrá-lo, mas estas se
inserem na lógica da nova eclesiologia e supõem, por isso, que a nova liturgia
continua a ser o critério da piedade dos fiéis e a expressão autêntica da vida
da Igreja.
17. Por que o senhor diz
que não é possível deixar de lado esse contexto de exceção? Não há algum bem
nisso, apesar de tudo? Quais as consequências concretas que deveríamos
lamentar?
Dessa situação resultam pelo
menos três consequências nefastas. A mais imediata é uma profunda fragilidade
estrutural. Os sacerdotes e os fiéis que gozam de certos privilégios que lhes
permitem fazer uso da liturgia tridentina vivem angustiados pelo que o dia de
amanhã pode trazer: afinal, privilégio não é direito. Enquanto a autoridade os
tolerar, podem dedicar-se à sua prática religiosa sem serem incomodados. Mas,
tão logo a autoridade formule certas exigências, imponha certas condições ou
revogue de uma hora para outra, por uma razão qualquer, as permissões
outorgadas, tanto sacerdotes como fiéis se veem numa situação conflituosa, sem
meio de se defenderem e com isso garantirem de modo eficaz os auxílios
tradicionais com os quais as almas têm o direito de contar. Ora, como evitar de
modo duradouro tais casos de consciência quando, entre duas concepções
inconciliáveis da vida da Igreja, encarnadas em duas liturgias incompatíveis,
uma tem direito de cidadania, ao passo que a outra é apenas tolerada?
Para além do quê – e isso me
parece mais grave – já não se entende a razão por que esses grupos querem a
liturgia tridentina, o que compromete gravemente os direitos públicos da
Tradição da Igreja e, com isso, o bem das almas. Com efeito, se a Missa de sempre
pode aceitar que a missa moderna seja celebrada em toda a Igreja, e se se
contenta em gozar de um privilégio particular, ligado a uma preferência ou a um
carisma próprio, como entender que essa Missa de sempre se opõe
irremediavelmente à missa nova, e que continua a ser a única liturgia
verdadeiramente católica de toda a Igreja, e que ninguém pode ser impedido de a
celebrar? Como ter consciência de que a missa de Paulo VI não pode ser
reconhecida, porque constitui um afastamento considerável da teologia católica
da Santa Missa, e que ninguém pode ser obrigado a celebrá-la? E como afastar de
modo eficaz as almas dessa liturgia envenenada, para que venham beber nas
fontes puras da liturgia católica?
“A Fraternidade é tão somente, em circunstâncias que não foram escolhidas por ela, um meio privilegiado para se permanecer fiel à Igreja.”
Por fim temos uma consequência
mais remota decorrente das duas anteriores, a saber, que a necessidade de
evitar comportamentos que causem incômodo, a fim de não comprometer uma
estabilidade frágil, reduz numerosos pastores a um silêncio forçado, quando seria
preciso levantar a voz contra este ou aquele ensinamento escandaloso que
corrompe a fé ou a moral. A necessária denúncia dos erros que destroem a
Igreja, exigida pelo próprio bem das almas ameaçadas por esse alimento
envenenado, fica assim paralisada. Esclarece-se em privado uma que outra
pessoa, quando ainda se consegue discernir a nocividade de tal ou qual erro,
mas já não passa de um tímido cochicho, em que a verdade mal consegue ser dita
com a liberdade que requer… sobretudo em se tratando de combater princípios
tacitamente aceitos. Mais uma vez, são as almas que deixam de ser iluminadas e
que são privadas do pão da doutrina, do qual, não obstante, continuam famintas:
com o tempo, isso vai modificando progressivamente as mentalidades e conduzindo
pouco a pouco à aceitação geral e inconsciente das diversas reformas que afetam
a vida da Igreja. Também em relação a essas almas, a Fraternidade sente a
responsabilidade de esclarecê-las e de não as abandonar.
Não se trata de apontar o dedo
nem de julgar quem quer que seja, mas de abrir os olhos e constatar os fatos.
Ora, somos obrigados a reconhecer que, na medida em que o uso da liturgia
tradicional fica condicionado à aceitação pelo menos implícita das reformas
conciliares, os grupos que disso se beneficiam não podem constituir uma
resposta adequada às necessidades profundas por que passam a Igreja e as almas.
É, para retomar uma ideia já antes expressa, preciso, pelo contrário, estar em
condições de oferecer aos católicos de hoje a verdade sem concessões,
ministrada incondicionalmente, junto com os meios de viver dela integralmente,
para a salvação das almas e o bem de toda a Igreja.
18. De todo modo, o senhor
não acha que Roma poderia mostrar-se mais generosa no futuro, em relação à
Missa tradicional?
Não é impossível que Roma venha a
adotar no futuro uma atitude mais aberta, como já ocorreu em 1988, em
circunstâncias análogas, quando o uso do missal antigo foi outorgado a alguns
grupos, numa tentativa de afastar os fiéis da Fraternidade. Caso isso viesse de
novo a acontecer, seria algo muito político e muito pouco doutrinal: o missal
tridentino destina-se exclusivamente a adorar a majestade divina e a alimentar
a fé; não poderia ser instrumentalizado como uma ferramenta de ajustamento
pastoral ou como uma variável de apaziguamento.
Mas ainda assim, uma benevolência
maior ou menor nada mudaria quanto à nocividade do contexto descrito acima e
portanto não mudaria substancialmente a situação.
Além disso, o cenário é na
verdade mais complexo: em Roma, o Papa Francisco e o Cardeal Roche se deram
conta de que, ao estender o uso do missal de São Pio V, desencadeia-se
inevitavelmente um questionamento da reforma litúrgica e do Concílio, em
proporções incômodas e sobretudo incontroláveis. É, portanto, difícil prever o
que irá acontecer, mas o perigo de encerrar-se dentro de lógicas mais políticas
do que doutrinárias é real.
19. O que o senhor gostaria
de dizer em especial aos fiéis e aos membros da Fraternidade?
Gostaria de lhes dizer que o
momento presente é, antes de tudo, um tempo de oração, de preparação dos
corações, das almas e também das inteligências, a fim de nos dispormos à graça
que essas sagrações representam para toda a Igreja. Isso deve ser vivido no
recolhimento, na paz e na confiança na Providência, que nunca abandonou a
Fraternidade, nem irá abandoná-la desta vez
20. O senhor ainda espera
poder encontrar-se com o Papa?
Sim, sem dúvida. Parece-me
extremamente importante poder conversar com o Santo Padre, e há muitas coisas
que eu gostaria de partilhar com ele, e que não pude lhe expor por escrito.
Infelizmente, a resposta recebida da parte do Cardeal Fernández não fala em
nenhum lugar de uma possível audiência com o Papa. Pelo contrário, evoca a
ameaça de novas sanções.
21. Que fará a Fraternidade
se a Santa Sé decidir condená-la?
Em primeiro lugar tenhamos em
mente que, em tais circunstâncias, eventuais penas canônicas não teriam nenhum
efeito real.
No entanto, caso viessem a ser
pronunciadas, não há dúvida de que a Fraternidade, sem amargura, aceitaria esse
novo sofrimento, assim como aceitou os sofrimentos passados, oferecendo-os
sinceramente para o bem da própria Igreja. É pela Igreja que a Fraternidade
trabalha. E ela tem a certeza de que, se tal situação viesse a ocorrer, seria
necessariamente temporária, pois a Igreja é divina e Nosso Senhor não a
abandona.
A Fraternidade continuará, pois,
a fazer o melhor que pode, na fidelidade à Tradição católica e a servir
humildemente a Igreja, respondendo às necessidades das almas. E continuará a
rezar filialmente pelo Papa, como sempre tem feito, na espera de poder ver-se
um dia livre dessas eventuais sanções injustas, como se deu em 2009. Estamos
certos de que um dia as autoridades romanas reconhecerão com gratidão que essas
sagrações episcopais contribuíram providencialmente para mantermos a fé, para a
maior glória de Deus e a salvação das almas.
Entrevista concedida em Flavigny-sur-Ozerain em 2 de fevereiro de 2026, na festa da Purificação da Santíssima Virgem.
Entrevista extraída integralmente do sítio da FSSPX Fraternidade Sacerdotal São Pio X