O ocaso de um cardeal? Ou o teste da Igreja?


Há horas em que a história da Igreja parece respirar fundo, como quem atravessa um vale antes de subir outra montanha. O debate litúrgico que voltou à tona nestes dias não é apenas sobre rubricas, latim ou incenso. Isso é a superfície. O que está em jogo é algo mais antigo, mais fundo, quase tectônico: a relação da Igreja com a própria memória.

A liturgia nunca foi um acessório. Ela é a fé ajoelhada, é a doutrina cantada, é o Evangelho que ganha corpo no tempo. Quando a tradição é tratada como um problema a ser resolvido, e não como um tesouro a ser guardado, algo se desloca por dentro. Não explode, não faz barulho imediato, mas racha. E rachaduras espirituais sempre cobram seu preço.

O caso do Cardeal Roche, com seu zelo administrativo e sua leitura estreita da tradição litúrgica, ilustra bem uma tentação recorrente na história eclesial: a de governar o mistério como se fosse um departamento, e a herança como se fosse um obstáculo. A ironia é cruel. Quanto mais se tentou conter o rito tradicional romano, mais ele ganhou fôlego, mais despertou jovens, mais produziu vocações, mais revelou que não se trata de nostalgia, mas de raiz. Árvore sem raiz cai no primeiro vento ideológico.

Há algo de profundamente teológico nisso tudo. A Igreja não inventa a liturgia; ela a recebe. Não a possui; a serve. Quando um pastor esquece isso, ainda que com boas intenções, acaba trocando o báculo pela prancheta. E a Igreja não é uma ONG do sagrado, nem um laboratório de experimentos pastorais. Ela é Corpo Místico, atravessando os séculos com cicatrizes, sim, mas também com uma fidelidade que não pode ser reescrita a cada geração.

Este novo momento do pontificado abre uma fresta interessante. Não para revanche, não para triunfalismo, mas para realismo. A paz litúrgica não virá da supressão, mas do reconhecimento humilde de que a tradição nunca foi o problema. O problema sempre foi a incapacidade de alguns em conviver com ela. Leão XIV, se quiser mesmo pacificar, terá de ouvir mais os séculos do que os dossiês, mais os santos do que os estrategistas.

Talvez não seja o ocaso de um cardeal. Talvez seja apenas o fim de uma ilusão: a de que se pode amputar a tradição sem ferir o corpo inteiro. A liturgia tradicional permanece porque responde a algo que o mundo moderno não consegue oferecer: transcendência sem desculpas, silêncio que fala, beleza que converte. Isso não se decreta. Isso se contempla.

No fim das contas, a pergunta que fica não é quem vence essa disputa, mas se teremos coragem de aprender com ela. A Igreja sobreviveu a impérios, revoluções e modas teológicas bem mais agressivas. Vai sobreviver também a burocratas do sagrado. A tradição tem paciência. Ela espera. Sempre esperou.

Por seu Irmão Carmelita Secular da Antiga Observância, B