Feridas da Alma — e os Remédios de Cristo: Gula

Gula: Quando o Desejo Assume o Volante do Coração

Introdução

A gula é um pecado meio subestimado hoje em dia, né? Parece “bobinho”, como se fosse só comer demais. Mas os Padres da Igreja não brincavam com isso. Para eles, a gula é o vício que começa no estômago, mas termina no coração. É o desejo que cresce tanto que acaba mandando em você.

São Gregório Magno já dizia: quem não domina o paladar raramente domina qualquer outro desejo. A alma se acostuma a obedecer ao corpo, e não o contrário. A gula é esse treino fuleiro da vontade: ela vai cedendo, cedendo… até que cansa de lutar.

Santo Agostinho era realista: a gula enfraquece a vigilância espiritual. A pessoa fica pesada, não só fisicamente, mas interiormente. O excesso embota o espírito, o olhar perde brilho, o coração fica sonolento para as coisas de Deus. A gula baixa a guarda.

São Tomás de Aquino lembra que o problema não é só quantidade — é desordem. A gula aparece quando usamos comida, bebida ou prazeres materiais para tapar buracos espirituais. É a alma pedindo Deus e a pessoa respondendo com sobremesa.

E Cristo não quer te tirar a comida — Ele quer te devolver a liberdade. Ele te criou para ser dono de si, não servo do apetite. A mesa é lugar de comunhão, não de escravidão. O que Ele deseja é que o coração coma do pão certo: aquele que dá vida eterna.

O vício que abre portas para todos os outros

A gula nasce muitas vezes da acídia: quando a alma não quer enfrentar o próprio vazio, busca compensação rápida. O prato vira abraço; o exagero vira fuga. Comer para não pensar, beber para não sentir.

Ela se alia à luxúria: ambos são vícios da busca por prazer imediato. Quem não controla o apetite do corpo geralmente tropeça no apetite sexual também. A lógica é a mesma: “eu quero, então eu tenho direito.”

A gula enfraquece a luta contra a soberba e a ira. A alma indisciplinada vira alvo fácil da irritação e do orgulho ferido. Quando o corpo manda, o coração vira refém do humor: fome vira explosão, saciedade vira preguiça.

Alimenta a avareza: sim, parece estranho, mas o avarento e o guloso têm algo em comum — ambos querem consumir. O guloso não divide, não reparte, não oferece. Ele pega e guarda para si, só que em outro formato.

E nutrindo tudo isso está a inveja: “Por que o outro tem aquele prazer, aquela comida, aquela experiência, e eu não?” A gula transforma necessidades naturais em competição emocional.

Conclusão: O Remédio: Temperança, Jejum e Fome de Deus

Cristo sempre usou a mesa como lugar de cura. A última ceia, os banquetes com pecadores, o pão que Ele multiplica… tudo aponta para a verdade: comer não é só biologia, é espiritualidade. E por isso o remédio da gula é santo.

A temperança devolve o controle à alma. Não é dieta — é liberdade. Quando você aprende a dizer “não” ao prato, aprende a dizer “não” ao pecado. Uma vontade treinada é uma vontade viva.

O jejum é arma antiga e poderosa. Ele corta o laço entre o desejo e o descontrole. Ele purifica a intenção, afina o coração. Quem jejua aprende a sentir fome de Deus. Aprende a perceber que o pão do céu sustenta mais do que qualquer gordura da terra.

A Confissão quebra ciclos de compulsão e traz ordem para o caos. A Eucaristia, então, é o grande golpe final contra a gula: é o único alimento que não domina quem o recebe — pelo contrário, é Ele que liberta.

E lembra: cada vez que você come com gratidão, você transforma algo simples em oração. E cada vez que você recusa um excesso por amor, você vira mais forte, mais leve, mais capaz de amar.

Deus te quer livre. Livre até mesmo do teu estômago. Porque quem aprende a dominar o corpo… descobre como é doce ser guiado pelo Espírito.

Por Ir. Alan Lucas de Lima, OTC
Carmelita Secular da Antiga Observância