Sob a Cruz: a Mulher que Co-Redimiu
Há palavras que o tempo
não consegue apagar, por mais que as eras tentem reduzi-las ao silêncio.
“Co-Redentora” é uma delas.
Um título que muitos
temem pronunciar, como se fosse uma ousadia tocar o mistério da Mãe. Mas o amor
autêntico, quando contempla, não teme; ajoelha-se e pensa.
No Calvário, o Redentor
não estava só. Ao pé da Cruz, erguia-se uma mulher silenciosa, mas inteira —
Maria.
Não uma espectadora
inerte do drama divino, mas uma participante consciente do sacrifício.
Ali, entre o sangue e a
escuridão, o “fiat” de Nazaré ecoava outra vez: “Faça-se em mim segundo a
tua palavra.”
Mas agora essa palavra
atravessava a espada profetizada por Simeão, rasgando-lhe o coração, e unindo-o
ao Coração do Filho.
Cristo oferecia-Se ao Pai
em justiça divina; Maria, em amor humano levado à perfeição, oferecia o que de
mais puro podia dar — o próprio Filho.
Ele redimia “de
condigno”; ela, “de congruo”, como dizem os mestres.
Palavras difíceis para
expressar algo simples: Ele pagou a dívida infinita; ela uniu-se à oferta,
cooperando, como criatura, no drama da salvação.
E por isso os santos
ousaram chamá-la Co-Redentora — não igual ao Redentor, mas unida a Ele como
nenhuma criatura jamais foi.
Leão XIII viu nela aquela
que, com o coração traspassado, ofereceu generosamente o Filho à Justiça
divina.
Pio X chamou-a Reparadora
do mundo perdido, Dispensadora das graças conquistadas pelo Sangue.
Bento XV afirmou sem
rodeios que ela “com Cristo redimiu o gênero humano”.
E Pio XII, na
profundidade de Mystici Corporis, contemplou-a oferecendo o Filho no Gólgota,
tornando-se, no Espírito, Mãe de todos os membros do Corpo Místico.
Não é poesia piedosa, é
teologia encarnada.
Maria não apenas gerou o
Redentor — ela O acompanhou passo a passo, até o extremo da oblação.
E o “fiat” que abriu o
Céu em Nazaré foi o mesmo que sustentou o Céu na Cruz.
Chamá-la Co-Redentora não
é exagero devocional. É reconhecer que Deus, no Seu estilo de amor, quis
precisar do “sim” de uma mulher.
A salvação não foi um
monólogo divino, mas um diálogo eterno entre o Criador e a criatura.
E Maria é o “amém”
perfeito desse diálogo — a resposta humana mais pura ao amor de Deus.
Hoje, muitos temem esse
título. Dizem que confunde, que exagera, que pode ofuscar o Cristo.
Mas negar a participação
da Mãe é como querer um Cristo sem carne, um Redentor sem humanidade.
Maria não toma o lugar do
Filho — ela o oferece.
Não divide a glória —
reflete-a.
E nisso consiste o
mistério da Co-Redentora: estar unida a Ele, sem roubar nada Dele, porque tudo
o que tem vem Dele.
Ali, sob a Cruz, Maria
não disse palavra.
Mas o silêncio dela
gritava mais alto que o clamor da multidão: “Pai, eis o Teu Filho. Faço-Te a
entrega que fizeste a mim.”
E o Céu se abriu.
Cristo consumou a
Redenção; Maria consumou o consentimento.
E desse encontro entre o
sangue do Filho e as lágrimas da Mãe nasceu a Igreja — nascida não apenas da
lança, mas também do amor que permaneceu de pé.
Hoje, quando o mundo fala
de libertação e poder, vale lembrar que a maior cooperação com a Redenção se
deu por meio da humildade, da dor e do amor obediente.
Maria, a mulher que não
pregou, mas sofreu. Que não reclamou, mas ofereceu. Que não reivindicou, mas
amou.
Talvez o século precise
novamente ouvi-la — não como figura de piedade, mas como mestra de redenção.
Pois quem aprende com
Maria a sofrer junto com Cristo, aprende também a redimir com Ele — em pequena
escala, no silêncio do cotidiano, oferecendo o próprio coração ao Pai.
E assim se cumpre o
mistério da Co-Redentora: a mulher que, sem espada na mão, venceu com o
consentimento.
A Mãe que, oferecendo o
Filho, se tornou mãe de todos os filhos perdidos.
A serva que, dizendo
“sim” uma última vez ao pé da Cruz, ajudou o mundo a dizer “amém” à salvação.
Por seu Irmão Carmelita Secular da Antiga Observância, B.