Medianeira de Todas as Graças: A Distribuição da Graça por Maria segundo Garrigou-Lagrange
Resumo
O presente artigo analisa o pensamento do Padre Réginald
Garrigou-Lagrange, O.P., sobre a mediação universal de Maria Santíssima na Economia
da Graça. A partir da teologia tomista das causas, o autor distingue entre
causalidade moral e instrumental, defendendo a probabilidade de que Maria
exerça uma causalidade instrumental física subordinada à de Cristo. O texto
busca iluminar, à luz da Tradição e da teologia espiritual, o modo pelo qual
Maria é chamada “Medianeira de Todas as Graças”.
Introdução
Há temas na teologia católica que atravessam os séculos como
rios subterrâneos: silenciosos, persistentes, e de vez em quando irrompem à
superfície com força renovada. A mediação universal de Maria é um desses temas.
No coração do pensamento cristão, a figura da Mãe de Deus aparece não apenas
como o vaso eleito da Encarnação, mas como o canal constante pelo qual as
graças divinas fluem para o mundo. Essa intuição, que floresceu na piedade
popular, encontrou sólida reflexão teológica na pena de mestres como São Luís
Maria Grignion de Montfort e, no século XX, do dominicano Padre Réginald
Garrigou-Lagrange.
Em tempos recentes, contudo, o título de Mediadora de
Todas as Graças voltou ao centro das discussões eclesiais. Em 4 de novembro
de 2025, o Cardeal Víctor Manuel Fernández publicou uma nota doutrinal
advertindo que o uso desse título poderia “obscurecer a mediação única de
Cristo”¹. Tal posição gerou debate entre teólogos, especialmente entre os que
veem nesse título não um exagero devocional, mas uma consequência lógica da
missão maternal de Maria.
Garrigou-Lagrange situa-se entre os que defendem a
legitimidade teológica da mediação universal. Partindo da doutrina de São Tomás
de Aquino sobre as causas e os instrumentos, o autor procura demonstrar que a
participação de Maria na comunicação da graça é coerente com o modo como Deus
age na Economia Salvífica.
Sua reflexão desloca o tema do campo da piedade popular para
o da metafísica da graça. Ele pergunta se Maria age apenas por intercessão
(causa moral) ou também por um modo mais profundo, como instrumento físico da
graça, à semelhança da humanidade de Cristo e dos sacramentos.
Por fim, Garrigou-Lagrange não pretende resolver o mistério,
mas iluminá-lo. Mesmo quando o modo de sua ação permanece oculto, o fato de sua
mediação é certo: Maria continua, no céu, a exercer sua maternidade espiritual
sobre todos os fiéis.
A Questão Teológica: Como Maria Distribui a Graça
A questão fundamental levantada por Garrigou-Lagrange é se
Maria participa da distribuição da graça apenas por causalidade moral —
intercedendo e merecendo — ou também de modo instrumental. Assim como a
humanidade de Cristo é instrumento unido da graça e os Sacramentos instrumentos
separados, Maria poderia ser considerada instrumento subordinado através do
qual Deus age.
A Tradição designa Maria como o collo mystici corporis,
“pescoço do Corpo Místico”, imagem que expressa a função de unir a Cabeça
(Cristo) aos membros (os fiéis) e de transmitir-lhes o influxo vital². Essa
metáfora, longe de ser apenas simbólica, indica a profundidade do papel
maternal e mediador de Maria na vida sobrenatural da Igreja.
As Distinções de Causalidade
Garrigou-Lagrange retoma, com fidelidade ao método tomista,
as distinções entre os tipos de causalidade para situar o papel de Maria:
- Causa
principal: somente Deus, fonte absoluta da graça.
- Causa
instrumental física: instrumento real pelo qual Deus age — como a
humanidade de Cristo ou os Sacramentos.
- Causa
moral: agente que obtém a graça por mérito ou intercessão.
- Causa
eficaz: cuja oração está infalivelmente unida à vontade divina.
- Causa
afetiva: presença espiritual e amorosa que comunica vida interior.
Essa tipologia serve para demonstrar que Maria jamais atua
independentemente de Deus, mas em total dependência e subordinação à Causa
principal, refletindo a harmonia entre natureza e graça.
A Hipótese da Causalidade Instrumental Física
Os teólogos, em geral, concordam sobre a causalidade moral
de Maria; a controvérsia gira em torno da possibilidade de uma causalidade
física. Garrigou-Lagrange considera teologicamente provável que Maria
exerça também uma causalidade instrumental física, ainda que subordinada.
Ele argumenta que, se Deus utiliza instrumentos visíveis
para comunicar a graça — a carne de Cristo, as palavras da Consagração, os Sacramentos
— não seria absurdo admitir que Ele também se sirva de Maria, a mais perfeita
das criaturas, para esse mesmo fim³.
Tal mediação não supõe que Maria produza a graça por si, mas
que Deus a utilize como canal da vida divina. Assim, toda graça que atinge os
fiéis traz, por assim dizer, o selo materno da Virgem, “impregnada daquela
doçura especial que ela transmite a tudo o que toca e a tudo o que faz”⁴.
Argumentos Teológicos e Tradição Espiritual
A defesa da mediação instrumental de Maria encontra apoio em
diversos fundamentos teológicos:
- Tradição
Patrística: Padres e Doutores da Igreja descrevem Maria como pescoço
do Corpo Místico, metáfora que implica uma verdadeira função vital.
- Analogia
com os Santos e Anjos: estes são frequentemente instrumentos físicos
de milagres; Maria, Rainha de todos, o seria em grau superior⁵.
- União
com Cristo: Maria recebeu, sob um título participativo, tudo o que
Cristo recebeu sob título pleno — méritos, satisfação, intercessão e,
portanto, instrumentalidade.
São Luís Maria Grignion de Montfort reforça essa visão ao
afirmar que “o Espírito Santo tornou-se fecundo na terra por meio de Maria, Sua
esposa”⁶.
Para Garrigou-Lagrange e o Pe. Hugon, essa fecundidade do Espírito é física, não meramente moral: o Espírito produz a graça nas almas por meio da cooperação livre de Maria⁷.
A Presença Afetiva e o Mistério da Influência Materna
Mesmo quando a causalidade física não pode ser provada, a
presença afetiva de Maria é indiscutível. Ela age nas almas em estado de graça
como presença amorosa, modelo e impulso interior. Assim como uma mãe imprime
nos filhos a semelhança de seu rosto e caráter, Maria modela interiormente os
fiéis à imagem de Cristo.
Essa presença é discreta, mas constante. Ela acalma, educa e
orienta, conduzindo o fiel à submissão total ao Espírito de Cristo. Em
linguagem mística, Maria prolonga a maternidade do Calvário e do Pentecostes,
transmitindo às almas a vida que recebeu do Filho.
Conclusão
A teologia não pretende esgotar o mistério da mediação
mariana. O pensamento de Garrigou-Lagrange recorda que a economia da salvação é
essencialmente relacional: Deus quis que o dom supremo da graça passasse por
uma mulher. A mediação de Maria não concorre com Cristo, mas O manifesta de
modo mais humano, terno e próximo.
Negar a mediação universal de Maria seria empobrecer a
compreensão da graça e amputar a harmonia entre natureza e sobrenatural. Por
isso, Garrigou-Lagrange pode afirmar que Maria é realmente Medianeira de
Todas as Graças — não por direito próprio, mas por eleição divina,
participando da única mediação do Verbo Encarnado.
Referências
¹ FERNÁNDEZ, Víctor Manuel. Nota sobre a piedade mariana
e os títulos de Maria. Vaticano: Dicasterium pro Doctrina Fidei, 2025.
² GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. La Mère du Sauveur et
notre vie intérieure. Paris: Desclée de Brouwer, 1948, p. 195-197.
³ HUGON, Édouard. Marie pleine de grâce. Paris:
Beauchesne, 1929, p. 212-215.
⁴ BERNARD, Raymond. Marie, Mère de Dieu et Mère des
hommes. Paris: Cerf, 1936, p. 244.
⁵ HUGON, Édouard. Cursus theologicus ad mentem S.
Thomae, t. IV. Paris: Desclée, 1930, p. 310.
⁶ MONTFORT, Luís Maria Grignion de. Tratado da
Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. São Paulo: Paulus, 2017, n. 20.
⁷ GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. La Mère du Sauveur et notre vie intérieure. Paris: Desclée de Brouwer, 1948, p. 230-233.