A música encomendada pela Morte

Uma crônica sobre o limite entre o humano e o eterno

Dizem que a Morte é uma senhora educada.

Não chega com estrondo nem grita — apenas manda um mensageiro.

E naquela Viena enevoada de 1791, um homem de casaca cinza bateu à porta de Mozart.

Entregou uma carta, falou pouco, e foi embora.

O bilhete continha uma encomenda: um Réquiem.

Nenhum nome, nenhum rosto, apenas o pagamento em adiantado e a promessa de sigilo absoluto.

Mozart, que já andava febril e fatigado, sentiu o sangue gelar.

Disse a Constanze, sua esposa:

“É a Morte quem me escreve. Está me pedindo uma missa para mim mesmo.”

E, de certo modo, estava.

Enquanto Viena festejava bailes e óperas, o gênio compunha como se cavasse a própria sepultura — uma nota de cada vez.

De dia, a cidade ria. À noite, Mozart tossia sangue e compunha entre delírios.

O som das penas riscando o papel misturava-se ao ranger dos sinos e ao bater dos relógios — lembrando-lhe que o tempo se esgotava.

Réquiem em Ré menor não é só uma missa fúnebre. É uma confissão.

Cada compasso é o peso de uma alma que pressente o fim.

Introitus se ergue em vozes distantes, quase angelicais, pedindo descanso eterno.

Depois vem o Kýrie”, uma súplica quase desesperada, como se Mozart implorasse piedade a um Deus que ele via cada vez mais de perto.

E então o “Dies Iræ” — o Dia da Ira — rompe como um trovão.

Ali não há consolo: há fogo, juízo e desespero.

O coro parece um tribunal celestial, e os violinos — como línguas de chamas — anunciam o caos final.

Mozart transforma a Morte em espetáculo divino, como se o apocalipse pudesse ser belo.

Mas é no “Lacrimosa” que o coração se parte.

As vozes se levantam devagar, chorando a queda humana com uma ternura que nenhum vivo conseguiria conceber.

Mozart já quase não respirava quando escreveu seus compassos finais.

Interrompeu-se no oitavo verso, murmurando:

“Aqui termina o que pude dar ao mundo.”

Foi levado para a cama, delirando, ditando fragmentos ao aluno Süssmayr.

Na manhã seguinte, já não havia mais som.

A pena descansava sobre a mesa, e o silêncio era o resto do Réquiem.

Constanze, desesperada, pediu a Süssmayr que completasse a obra.

Ele o fez — com respeito, mas também com medo.

Como se a sombra do mestre o observasse por cima do ombro, ainda corrigindo acordes do além.

Séculos depois, a obra continua viva — poderosa, sombria, transcendental.

Não se sabe onde Mozart foi enterrado, mas o Réquiem é seu túmulo sonoro, erguido em cada nota, em cada lágrima.

E quando o coro sussurra “Lux Æterna”, dá pra sentir que ele conseguiu o que tanto buscava: um descanso que não é o fim, mas o retorno ao Todo.

Porque o Réquiem é isso — o diálogo entre o homem e o mistério.

A confissão de que até o gênio teme a sombra.

Mas Mozart, em vez de fugir, a transformou em música.

E assim, a Morte teve sua missa.

Uma missa que ainda ecoa, lembrando a todos nós que morrer — talvez — seja apenas mudar de tom.

Por seu Irmão Carmelita Secular da Antiga Observância, B.