Francisco e a revolução da misericórdia: um balanço teológico de doze anos de pontificado
Dom Jorge Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, em 28 de março de 2011.
Ao fim de doze anos de pontificado, o Papa Francisco deixa
atrás de si uma trilha que ainda divide corações e mentes dentro da Igreja.
Admirado por uns como o pastor que devolveu à fé o rosto humano do Evangelho, e
criticado por outros como o pontífice que relativizou a tradição, Francisco
tornou-se inevitável. Nenhum fiel, teólogo ou bispo pôde permanecer neutro
diante do estilo e das escolhas desse Papa “vindo do fim do mundo”, que colocou
o centro da Igreja nas margens do planeta e, sobretudo, nas margens da
experiência humana.
A pergunta que se impõe, então, é teológica: que lógica
sustenta o pontificado de Francisco? Que imagem de Deus, de Igreja e de
humanidade o inspira? Reduzir seu legado a uma agenda política ou a uma postura
pastoral seria superficial. É preciso compreender a trama espiritual e
intelectual que o moveu — uma teologia do encontro, da escuta e da
misericórdia, tecida na tensão entre tradição e inovação, ortodoxia e profecia.
Este estudo busca traçar um balanço interpretativo do
pontificado de Francisco, explorando suas grandes linhas de força. São seis
eixos que ajudam a decifrar sua visão: o caráter tenso e contrastante de seu
governo espiritual; a matriz latino-americana que moldou sua sensibilidade; a
“teologia do povo” que dá fundamento à sua pastoral; o mito do povo como
sujeito da história; sua crítica profética à globalização e, finalmente, a
misericórdia como chave hermenêutica da fé e da Igreja.
Não se trata de um elogio nem de uma condenação, mas de uma
leitura de conjunto. Francisco, como todo reformador, move-se no fio da
contradição: entre o desejo de renovar e o dever de preservar, entre o impulso
profético e a prudência institucional. O que emerge desse equilíbrio precário é
uma teologia viva, feita de gestos antes de conceitos, de feridas antes de
certezas.
Ao final, o que este balanço busca evidenciar é que a
herança de Francisco não está apenas em documentos ou reformas, mas num modo de
ver o mundo — um olhar que recoloca o Evangelho no concreto da história,
fazendo da misericórdia não um adorno moral, mas a própria estrutura da fé
cristã.
1. Um pontificado de tensões e contrastes
O pontificado do Papa Francisco foi, desde o início, um
campo de forças em permanente atrito. Nenhum outro pontífice recente conseguiu
dividir a Igreja de modo tão profundo — e, paradoxalmente, tão fecundo. De um
lado, bispos e cardeais o acusaram de ambiguidade doutrinal, de relativizar a
moral e de diluir a clareza teológica da tradição. Do outro, leigos, religiosos
e teólogos progressistas o acolheram como o arauto de uma nova era, um Papa que
ousou abrir portas antes seladas. Essa tensão tornou-se, de fato, uma das
marcas mais visíveis de seu governo espiritual.
As “Dubia” enviadas por cardeais conservadores tornaram-se
símbolo dessa crise de confiança: questionavam se Francisco não estaria, na
prática, minando a autoridade da doutrina moral católica ao privilegiar a
misericórdia sobre a norma. A resposta do Papa foi o silêncio deliberado, o que
alimentou ainda mais a polarização. Francisco parecia preferir a ambiguidade
pastoral à rigidez doutrinal — uma escolha que, para muitos, significava
coragem evangélica; para outros, confusão perigosa.
Contudo, essa tensão interna não é mero acaso, mas reflexo
da própria natureza de seu pontificado: uma Igreja que busca reencontrar o
mundo, mesmo correndo o risco de se ferir nesse contato. Francisco não quis
preservar a estabilidade institucional; quis provocar movimento. Sua liderança
é mais profética do que administrativa, mais pastoral do que sistemática, mais
preocupada com o testemunho do Evangelho no concreto da vida do que com a
coesão de categorias teológicas.
Esse estilo provocou um novo tipo de unidade: não a
uniformidade de pensamento, mas o diálogo no conflito. Francisco não teme o
debate; ele o considera o sinal de uma Igreja viva. O dissenso, para ele, não é
escândalo, mas laboratório. Assim, o contraste entre aplausos e resistências é
o próprio método de purificação e discernimento que ele propõe.
Ao cabo de doze anos, o resultado é ambíguo: a Igreja está
mais dividida, mas também mais consciente de sua complexidade. O pontificado de
Francisco será lembrado não como um tempo de consenso, mas como um tempo de
revelação — onde as correntes internas da Igreja foram trazidas à luz, forçando
cada uma a confrontar-se com a outra diante da misericórdia de Cristo.
2. A matriz latino-americana
A eleição de Jorge Mario Bergoglio representou o
deslocamento simbólico mais radical do papado em séculos. Ao autodefinir-se
como alguém vindo “do fim do mundo”, Francisco anunciava o nascimento de uma
nova geografia espiritual. A Igreja deixava de ser unicamente europeia para
respirar o ar das periferias. Esse gesto, longe de ser mera retórica,
condensava toda uma visão de mundo: a fé cristã devia ser repensada a partir do
Sul global, onde a pobreza, a mistura cultural e a religiosidade popular são a
norma.
A biografia de Bergoglio é inseparável dessa virada. Filho
de imigrantes italianos, viveu a tensão entre o velho e o novo continente. Essa
experiência moldou sua sensibilidade: aprendeu a valorizar o migrante, o
excluído, o que está em trânsito. Daí deriva seu olhar crítico para a Europa —
que ele percebe como fatigada, saturada de racionalismo e autocentrada — e seu
fascínio pela vitalidade espiritual dos povos latino-americanos.
Na formação jesuíta, Bergoglio aprendeu o discernimento: a
capacidade de escutar os movimentos do Espírito em meio às ambiguidades da
história. Essa atitude, que na espiritualidade inaciana é individual, ele
transformou em atitude eclesial. Para Francisco, a Igreja deve discernir com o
mundo, e não contra o mundo. O pastor deve sujar os pés com o pó do caminho, e
não governar do alto de um trono doutrinal.
A turbulência política da Argentina, especialmente nas
décadas de 1970 e 1980, reforçou sua intuição de que a fé cristã precisa
dialogar com as dores sociais. O contato com as comunidades pobres e as crises
econômicas o convenceu de que o Evangelho é mais compreendido no sofrimento do
que na abstração. Essa espiritualidade da proximidade se tornaria sua marca:
ele é o Papa do encontro, do abraço, do gesto que vale mais que mil palavras.
Assim, o olhar latino-americano de Francisco não é apenas um
detalhe geográfico; é um paradigma teológico. Ele desloca o centro da reflexão
cristã da universidade europeia para a rua de Buenos Aires, da cátedra para a
vila miséria. É a teologia da encarnação aplicada à própria instituição
eclesial.
3. A “teologia do povo” como chave de leitura
Francisco encontrou na “teologia do povo” a lente teológica
que orienta todo o seu pensamento. Essa corrente, nascida na Argentina, é uma
prima-irmã da teologia da libertação, mas sem seu tom revolucionário marxista.
O foco não está na luta de classes, mas na cultura popular como espaço onde
Deus fala e age. É uma teologia que parte de baixo, não das elites
intelectuais.
Para Bergoglio, o povo não é uma massa amorfa, mas um
sujeito histórico dotado de sabedoria espiritual. Há no “senso de fé” do povo —
sua religiosidade, suas festas, sua devoção — uma intuição teológica genuína. O
teólogo e o pastor, portanto, não devem corrigir o povo, mas escutá-lo. A fé
não nasce da academia, mas do chão da vida cotidiana.
Essa visão rompe com séculos de clericalismo. Francisco
propõe uma Igreja que aprende de seu próprio povo. Isso implica reconhecer que
a cultura popular contém sementes do Evangelho: símbolos, orações e práticas
que, embora imperfeitas, expressam o desejo de Deus. O papel da teologia,
então, não é purificar essa fé, mas ajudá-la a florescer.
Esse modelo dá origem a três eixos pastorais recorrentes em
seu magistério: inculturação, acolhimento e escuta. Inculturação significa
traduzir o Evangelho em linguagem local sem diluir sua essência; acolhimento é
reconhecer a religiosidade popular como legítima expressão de fé; escuta é
discernir o que o Espírito diz às Igrejas através das periferias.
No fundo, a “teologia do povo” redefine a própria natureza
da Igreja: ela deixa de ser o lugar que ensina e passa a ser o lugar que
aprende. É o magistério que se descentra para reencontrar a sabedoria perdida
no coração do povo simples.
4. O povo como mito e ator da história
Bergoglio vai além da pastoral e confere ao povo um estatuto
teológico e até mítico. Inspirado em Rodolfo Kusch, vê o povo como uma
“categoria mítica”, dotada de alma coletiva. O “santo povo fiel de Deus” não é
apenas sociologia: é sacramento da presença de Deus na história. Essa concepção
confere à comunidade humana um papel salvífico — quase messiânico — na
construção do Reino.
Nesse quadro, o povo é inocente. Ele sofre, mas não é
culpado; é o portador da esperança, vítima de sistemas que o oprimem. A tríade
“terra, teto e trabalho” simboliza os direitos fundamentais que refletem o
sonho divino para a humanidade. Essa visão está na base dos encontros com os
“movimentos populares”, que Francisco enxerga como a nova voz profética do
mundo globalizado.
A consequência política dessa teologia é imensa. Francisco
propõe uma superação da democracia representativa tradicional, que ele julga
capturada pelas elites econômicas, em direção a uma democracia participativa
onde os pobres sejam sujeitos e não objetos das decisões. É uma visão
radicalmente comunitária e solidária, com fortes ecos bíblicos.
Mas há uma ambiguidade inevitável: ao transformar o povo em
categoria teológica, corre-se o risco de mitificá-lo, de atribuir-lhe pureza
moral inexistente. O pecado original desaparece da análise social, e o
discernimento se torna idealização. É o ponto frágil dessa espiritualidade
popular, mas também sua força simbólica — ela restitui ao povo um protagonismo
há muito perdido.
No fim, o “mito do povo” é o coração da eclesiologia de
Francisco. A Igreja é povo de Deus em caminho, não instituição perfeita. E como
povo, ela aprende, erra, sofre e se corrige, guiada por uma esperança que nasce
da terra e das mãos calejadas dos pobres.
5. A globalização como guerra mundial em pedaços
Na leitura franciscana da história, o mundo moderno vive uma
crise espiritual profunda. A globalização, longe de unificar os povos,
transformou-se numa “terceira guerra mundial por partes”. Guerras econômicas,
culturais e ambientais fragmentam o planeta, e o lucro tornou-se o novo ídolo.
Francisco chama isso de “economia que mata” — expressão dura, mas que resume
seu diagnóstico: o sistema global destrói o humano.
Para ele, essa guerra é invisível porque é cotidiana. Ela se
manifesta na desigualdade, no descarte de migrantes, na exploração dos pobres e
na indiferença ambiental. Cada exclusão é um pequeno campo de batalha onde a
dignidade humana é sacrificada em nome da eficiência. Sua encíclica Laudato
si’ é, nesse sentido, um grito contra a idolatria do progresso e uma
convocação à conversão ecológica.
A crítica de Francisco não é marxista nem antiocidental por
princípio; é evangélica. Ele não propõe uma revolução de classes, mas uma
“revolução da ternura”, que comece pelo coração e se traduza em novas
estruturas econômicas e políticas. A fraternidade universal (Fratelli tutti)
é seu antídoto para a globalização da indiferença.
Essa leitura apocalíptica do presente tem uma função
teológica: despertar a consciência moral da Igreja. Francisco quer que o
cristianismo volte a ser voz profética num mundo anestesiado. Por isso,
denuncia o tecnocratismo e defende um humanismo integral, em que a economia
sirva à pessoa, e não o contrário.
No fundo, sua crítica à globalização é um chamado à
conversão cultural. Ele quer recuperar o sentido comunitário da existência,
perdido entre algoritmos e mercados. É um diagnóstico sóbrio, mas atravessado
pela fé de que, no meio das ruínas, o Espírito continua soprando onde quer.
6. A misericórdia como chave teológica e pastoral
Todos os fios anteriores convergem para um ponto único: a
misericórdia. Francisco a apresenta não como virtude entre outras, mas como o
próprio nome de Deus. É o eixo de seu pontificado e o critério com que julga a
Igreja e o mundo. Em suas palavras, “o nome de Deus é misericórdia”. Essa
convicção traduz-se em gestos — abraçar os leprosos modernos, visitar prisões,
perdoar pecadores — mais do que em tratados teológicos.
A misericórdia, em sua teologia, é o princípio hermenêutico
da fé. Tudo deve ser reinterpretado à sua luz: a moral, a doutrina, a
disciplina. Por isso, Francisco prefere uma Igreja que “corra o risco de se
sujar” a uma Igreja pura, mas estéril. O cristianismo não é código moral; é
encontro com a graça. O perdão antecede a conversão, e não o contrário.
Essa opção pastoral gera tensões com a tradição,
especialmente nas áreas de moral sexual e sacramental. Críticos o acusam de
relativismo; defensores, de fidelidade radical ao Evangelho. O fato é que, ao
colocar a misericórdia como critério supremo, Francisco redefine a própria
autoridade da Igreja: o poder não é o de condenar, mas o de curar.
Teologicamente, isso significa que a unidade da Igreja não
vem da uniformidade doutrinal, mas da comunhão na fragilidade. Todos necessitam
de perdão, e é nesse reconhecimento que se funda a fraternidade. A sinodalidade
— outro conceito-chave — é expressão dessa teologia: caminhar juntos,
escutando-se mutuamente, é exercício de misericórdia institucionalizada.
Ao final, a herança teológica de Francisco pode ser resumida
assim: um cristianismo do encontro, da escuta e da compaixão. Sua Igreja não se
ergue como fortaleza, mas se ajoelha como serva. É uma revolução silenciosa,
que não muda apenas estruturas, mas o olhar com que a fé vê o mundo. Nessa
chave, a misericórdia não é concessão, mas revolução espiritual — talvez o
gesto mais radical de todo o seu pontificado.