A Tragédia da Democracia e a Esperança da Liberdade Interior

Introdução

A experiência política do Ocidente moderno parece caminhar, de maneira inexorável, para sua dissolução. Não se trata de mero pessimismo, mas da constatação de um diagnóstico que remonta a Platão, o filósofo que enxergou no seio da democracia a semente de sua própria ruína. Ao conceder ao desejo e à paixão o lugar do critério, a democracia se torna terreno fértil para a tirania, conduzida não mais pela razão, mas pelo apelo das massas e pelas seduções da desordem.

Esse processo, que já era visível em gérmen na Antiguidade, atinge hoje seu clímax. As democracias contemporâneas, construídas sobre princípios frágeis e muitas vezes ilusórios, mostram-se incapazes de resistir à corrosão moral, espiritual e institucional. O resultado é a anomia generalizada, a violência dantesca, a dissolução de laços comunitários e a substituição da verdade por narrativas de ocasião.

Estamos diante de uma crise de proporções bíblicas. O homem contemporâneo, submerso até o pescoço em águas turbulentas, busca desesperadamente uma saída. Mas, sufocado pela velocidade dos acontecimentos, não se volta ao ideal ou à verdade; agarra-se, antes, ao “mal menor” político, como quem busca apenas sobreviver.

Esse fenômeno revela um aspecto humano essencial: quando a sobrevivência imediata está em jogo, valores superiores são relegados a segundo plano. A democracia, corrompida por dentro, empurra os povos para escolhas pragmáticas, mas nunca para soluções verdadeiras. O caos avança, e com ele a sensação de impotência.

Contudo, há algo que escapa a essa lógica fatalista. Mesmo em meio à ruína das instituições, o homem conserva uma liberdade que nada nem ninguém pode corromper: a liberdade interior. É nela que reside a esperança de recomeço, quando tudo o mais se tiver perdido.

O Diagnóstico de Platão e a Autodestruição Democrática

Platão advertiu, em sua obra “A República”, que a democracia, ao se orientar pela liberdade ilimitada e pelo desejo desordenado, inevitavelmente degenera em tirania. O excesso de liberdade transforma-se em anarquia, e esta abre as portas para que um líder autoritário assuma o controle, prometendo restaurar a ordem. É a tragédia escrita no DNA do regime.

Na democracia moderna, o que se vê não é muito diferente. As promessas de liberdade e igualdade, desprovidas de fundamentos sólidos, abriram caminho para o relativismo ético, a manipulação midiática e a corrosão das instituições. O povo, em vez de exercer sua autonomia com responsabilidade, torna-se massa amorfa, manipulada por discursos emocionais e ideologias superficiais.

A corrupção que ameaça as democracias atuais não surgiu de repente. Estava presente em germe nos falsos princípios sobre os quais foram erguidas: o culto ao indivíduo desvinculado do bem comum, a redução da liberdade a mera escolha sem responsabilidade e a transformação da política em espetáculo.

A consequência é clara: dissolução. Violência urbana, polarização política, banalização da vida, perda de sentido. Tudo se soma num caldo cultural que já não suporta valores universais. A democracia não morre por ataques externos, mas pela implosão interna.

Platão, em sua clareza cirúrgica, previu exatamente essa dinâmica. E o que vemos hoje é a confirmação dramática de sua advertência.

A Tragédia da História e a Inércia Humana

O homem contemporâneo sente-se inerte diante da rapidez dos acontecimentos. É como estar fechado numa caixa d’água, com o nível subindo até o pescoço: não há tempo para contemplar o ideal, mas apenas para tentar respirar. Daí a tendência de recorrer ao “mal menor”, que se apresenta como uma tábua de salvação.

Essa escolha pragmática, embora compreensível, não resolve o problema de fundo. Apenas adia o colapso. O “mal menor” continua sendo mal, e suas consequências somam-se ao processo histórico que já está em curso. A humanidade passa, assim, a viver num estado de eterna emergência, sem jamais tocar o cerne da corrupção.

Em tal contexto, a política deixa de ser o espaço da busca pelo bem comum. Torna-se a gestão do caos, a administração da decadência, o remendo sobre um tecido que já se rasgou por inteiro. E quando a política não tem princípios, o povo perde a confiança, abrindo espaço para soluções autoritárias.

Essa é a angústia contemporânea: a sensação de que não há saída. Mas a história ensina que as civilizações, quando perdem seus fundamentos, desmoronam. O que estamos vendo não é novidade, mas repetição. A diferença é que agora o processo é acelerado por tecnologias que tornam tudo mais rápido, mais ruidoso e mais devastador.

A tragédia histórica, por mais devastadora que seja, não é absoluta. Sempre resta algo que não pode ser destruído. E é isso que abre espaço para o próximo ponto: a liberdade interior.

A Liberdade Interior como Última Fortaleza

Mesmo diante da decadência política, social e cultural, o homem permanece livre em seu núcleo mais íntimo. Nada pode tocar a consciência que escolhe o bem, nada pode apagar a luz que busca a verdade. Essa é a única liberdade inviolável, mesmo quando todas as outras são esmagadas.

Os regimes podem corromper as instituições, podem destruir a ordem social, podem até aniquilar comunidades inteiras. Mas não podem aprisionar a alma que se mantém fiel ao que é eterno. Essa liberdade interior foi o que sustentou mártires diante da perseguição, profetas diante da idolatria, monges diante do colapso do mundo antigo.

A história é testemunha de que, quando tudo parecia perdido, sempre houve homens e mulheres que permaneceram fiéis aos valores universais. Foram eles que, depois das ruínas, prepararam o recomeço. Não por força política, mas pela fidelidade interior ao bem.

Essa fidelidade não depende de circunstâncias externas. Depende apenas da vontade livre, da adesão ao que é verdadeiro, belo e justo. É esse tesouro invisível que torna possível reconstruir quando tudo se desfez.

Por isso, o colapso histórico não é o fim. É apenas o cenário em que se prova a força da liberdade interior.

Considerações Finais

Estamos, sem dúvida, diante de uma crise sem precedentes na história moderna. O diagnóstico de Platão sobre a autodestruição da democracia encontra sua realização plena em nossos dias. A corrupção moral, espiritual, estética e política atingiu o grau de metástase.

No entanto, a história não se encerra com a tragédia. Sempre haverá escombros, mas também sempre haverá o recomeço. E este só será possível se for conduzido por aqueles que preservaram, na escuridão, a centelha da verdade.

A tarefa que se coloca, portanto, não é apenas resistir ao mal político imediato, mas cultivar em si mesmo a fidelidade ao eterno. É essa fidelidade que garante a sobrevivência daquilo que nos assemelha a Deus, mesmo quando tudo o mais parece condenado.

Se a democracia ocidental está em ruínas, a humanidade não precisa ruir com ela. Pois a liberdade interior do homem é indestrutível, e dela pode nascer uma nova ordem, mais verdadeira, mais justa, mais fiel ao bem.

Roguemos, enfim, a Deus, que proteja em nós aquilo que é divino. Porque é daí, e somente daí, que poderá brotar a esperança de um recomeço verdadeiro.

Ir. Alan Lucas de Lima, OTC
Carmelita Secular da Antiga Observância