A vida contemplativa, segundo São Bernardo.


“Ser útil aos outros”.

Compreendemos agora em que sentido Bernardo fala da caridade como alguma coisa de ‘útil’. A utilidade tem certamente o sentido espiritual de agir no que se refere a Deus: amar o próximo é aproximá-lo de Deus. Mas não é indigno de o Espírito ser muito prático. É nesse duplo sentido que devemos compreender a famosa frase, na Carta 11: ‘A caridade não procura jamais o que é útil para si, mas a utilidade de um grande número’ [Ep 11,4] [3].

Já em São Paulo, que Bernardo citava aqui muito livremente, a caridade é concreta e prática:

‘Em suma : quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus. Não sejais motivo de tropeço para ninguém – judeus, gregos ou a Igreja de Deus -, como também eu me esforço por agradar em tudo a todos, buscando não o que é vantajoso para mim, mas o que é vantajoso para o maior número de pessoas, a fim de que sejam salvas’ [1Cor 10,31-33].Eu diria: não somente prático, mas francamente diplomático; a caridade se esforça por reencontrar o outro em seu próprio terreno e por isso está pronta a concessões. A importância da caridade em ato bem prova que a ‘vida ativa’ é sempre necessária em uma comunidade. Bernardo aplica a imagem de duas irmãs, Marta e Maria. Tanto a contemplação [Maria] como as obras [Marta], são formas da luz. Ambas luminosas, na medida em que são bem vividas. ‘Marta é mesmo a irmã de Maria. Ainda que a alma caia da luz da contemplação [...], ela se mantém na luz de uma atividade louvável’ [SCt 51,2].


Bernardo jamais admitiu que os Abades renunciassem a seu cargo abacial para levar uma vida mais contemplativa. A seu amigo Oger, escreveu severamente : ‘Confessa sinceramente : julgaste que tua própria tranquilidade é mais importante que a utilidade da comunidade’ [Ep 87,3]. E em uma outra carta: ‘Se é lícito a alguém preferir ao bem comum [utilitati communi] sua própria tranquilidade, quem pois poderá proclamar em verdade : Para mim, de fato, o viver é Cristo e o morrer, lucro?’ [Fl 1,21] [Ep 82,1].

Mais conhecidas ainda são as advertências muito severas, dirigidas a um outro amigo, Guilherme de Saint-Thierry: ‘Infeliz de ti, se és superior sem ser útil, mas bem maior tua infelicidade se, por temor de ser superior, foges da ocasião de ser útil’ [Ep 86,2].

É sempre por causa dessa estima da vida comunitária que Bernardo tem apreensões a respeito da vida eremítica: ‘Aquele que é fraco tem necessidade da comunidade. Mas aquele que é forte, é a comunidade que tem necessidade dele’ [cf. Ep 115,2]. Sempre fico impressionado com esta definição que Bernardo dá do degrau mais elevado do amor espiritual. Ela toma toda sua força nos lábios de um místico:

‘Afinal, nós amamos espiritualmente nosso espírito quando, por amor, consideramos aquilo que é útil a nossos irmãos como sendo mais importante até que nossas ocupações espirituais’ [Div 101].

Por Pe. Lo de Van Hecke