A Igreja das bandeiras e o silêncio do sacrário
Notas de Resistência em Tempos de Sinodalidade Fluida – Parte 4
Abro os jornais católicos europeus pela manhã — esse ritual meio monástico, meio arqueológico — e encontro mais uma dessas cenas que resumem uma época inteira: um jovem afastado da preparação para a Confirmação porque considerou “nonsense” uma campanha ideológica promovida dentro do ambiente paroquial. Não negou o Credo. Não insultou Nosso Senhor. Não rejeitou os sacramentos. Apenas recusou a liturgia sentimental da nova ortodoxia terapêutica.
E eis o detalhe quase literário da história: a paróquia se apresentava como “inclusiva”.
Vivemos tempos fascinantes. A Igreja que outrora suportava imperadores pagãos parece agora emocionalmente incapaz de sobreviver sem a aprovação de departamentos universitários de sociologia afetiva.
O mais curioso não é sequer a presença das bandeiras. O cristianismo sempre conviveu com símbolos hostis ao Evangelho. Roma inteira era um desfile de ídolos quando São Pedro chegou à cidade. O espanto verdadeiro está na velocidade com que certos ambientes eclesiásticos passaram a tratar qualquer hesitação diante do espírito do tempo como uma espécie de blasfêmia prática.
A nova severidade moral não gira mais em torno dos mandamentos, mas da sensibilidade.
Não se exige penitência. Exige-se alinhamento emocional.
O problema é que a Igreja nunca foi fundada sobre estados afetivos coletivos. Ela foi fundada sobre uma Pedra. E pedras possuem o defeito inconveniente de não se dobrarem facilmente às correntes culturais do momento.
Enquanto isso, na Alemanha sinodal — essa espécie de laboratório teológico onde frequentemente se tenta descobrir quantos dogmas cabem dentro de uma assembleia sociológica — multiplicam-se congressos, oficinas e liturgias cujo vocabulário já não parece brotar da tradição apostólica, mas de departamentos contemporâneos de gestão identitária.
Tudo isso apresentado com o tom burocraticamente sereno de quem organiza um simpósio sobre jardinagem comunitária.
O modernismo sempre teve essa característica curiosa: ele raramente se anuncia como ruptura. Prefere apresentar-se como atualização misericordiosa, adaptação pastoral, amadurecimento histórico. São Pio X percebeu isso com clareza quase profética quando descreveu o modernismo não como uma heresia isolada, mas como a síntese corrosiva de todas elas. O modernista não destrói frontalmente; ele dissolve. Não nega imediatamente; ele relativiza lentamente. Não remove o altar de uma vez; apenas desloca o centro de gravidade até que o altar pareça decorativo.
No fundo, a grande disputa contemporânea talvez seja antropológica antes de ser litúrgica.
A antiga civilização católica partia da ideia de que o homem precisava ser redimido. A nova religião sentimental sugere que o homem precisa apenas ser validado.
A diferença é colossal.
Naturalmente, tudo isso produz efeitos visíveis. Igrejas vazias. Seminários silenciosos. Liturgias horizontalizadas. Homilias terapêuticas que evaporam da memória antes mesmo da bênção final. Uma Igreja cada vez mais especialista em acolher o mundo e cada vez menos capaz de convertê-lo.
E no entanto — aqui reside o paradoxo que impede o desespero — a própria crise começa lentamente a revelar a fome espiritual que tentou esconder.
Há algo de profundamente irônico nisso.
Enquanto parte da estrutura eclesiástica corre desesperadamente atrás do mundo moderno, muitos jovens cansados do vazio moderno começam justamente a procurar aquilo que o mundo não consegue oferecer: transcendência, sacrifício, beleza, verdade objetiva, silêncio, hierarquia, eternidade.
O homem contemporâneo foi cercado por telas, slogans e terapias, mas continua faminto de absolvição.
Nenhuma revolução antropológica abolirá isso.
Às vezes penso nos antigos monges copiando manuscritos enquanto o Império Romano desmoronava ao redor. Não salvaram a civilização através de campanhas publicitárias. Salvaram-na permanecendo fiéis. Rezando os salmos. Conservando o latim. Mantendo acesa uma pequena chama em meio às ruínas.
Talvez nossa época peça algo semelhante.
A Igreja atravessou arianos, cismas, renascimentos decadentes, cortes corruptas, perseguições e guerras ideológicas. Sobreviverá também às burocracias sinodais e às catequeses líquidas do século XXI.
Cristo não prometeu relevância cultural. Prometeu permanência.
E isso basta.
Por um Vaticanista residente em Roma.