Entre tronos e altares: a rocha que não se dobra
Há um tipo de barulho que não vem das ruas, mas das palavras. Ele não quebra vidraças, mas tenta rachar consciências. É o barulho da política quando se mete onde não é senhora — naquilo que é sagrado.
Vivemos um tempo curioso. Reis sem coroa opinam sobre pastores com báculo. Governantes temporais, com mandatos contados em anos, ousam medir aquele que carrega um peso que não se mede em votos, mas em séculos. O Romano Pontífice não é gerente de nação. Ele é guardião de almas. E isso muda tudo.
A Igreja Católica não nasceu de estratégia, nem de conveniência histórica. Ela nasceu do lado aberto de Cristo. Quem esquece isso, já perdeu o fio da história. E quem tenta enquadrá-la como mais um ator político, desses que sobem e descem conforme o humor popular, simplesmente não entendeu o jogo — ou entendeu bem demais e quer distorcer.
O Papa Leão XIV, como sucessor de Pedro, não governa com base em pesquisas de opinião. Ele responde a algo mais alto, mais antigo, mais exigente: a Verdade. E a Verdade não faz campanha, não negocia princípios, não muda de posição para agradar plateias. Ela permanece. Firme. Incômoda, às vezes. Mas firme.
Há uma tentação moderna — quase irresistível — de reduzir tudo à lógica do poder: quem ganha, quem perde, quem domina a narrativa. Só que a Igreja não joga esse jogo. Nunca jogou. Quando tentou, tropeçou. Quando foi fiel à sua missão, mudou o mundo.
Criticar um Papa por não alinhar com agendas políticas específicas é como criticar um farol por não seguir os navios. O farol não se move. Ele aponta. Ele ilumina. Ele resiste à tempestade enquanto os outros lutam para não naufragar.
E aqui entra o ponto teológico, que muita gente ignora: o Papa não é apenas uma figura institucional. Ele é sinal visível de unidade. Quando se ataca o Pontífice de forma leviana, não se está apenas discordando de uma pessoa — está-se tocando na própria estrutura da comunhão da Igreja. E isso não é pouca coisa.
A Igreja atravessou impérios, guerras, revoluções, pandemias, heresias e escândalos. Sobreviveu a todos. Não porque fosse politicamente esperta, mas porque sua raiz não está na terra — está no Céu. Quem olha só para o momento presente, acha que uma crítica mais dura, um discurso mais inflamado, pode abalar essa estrutura. Não pode.
Há também uma ironia nisso tudo. Muitos que exigem que a Igreja “não se meta em política” são os primeiros a querer moldá-la conforme seus interesses quando lhes convém. Querem uma Igreja silenciosa quando fala de moral, mas barulhenta quando confirma suas ideias. Querem um Papa que ecoe suas convicções — não um que as confronte.
Mas um Papa verdadeiro não é eco. É rocha.
Defender o Romano Pontífice, portanto, não é idolatria de homem. É fidelidade a uma missão. É reconhecer que, mesmo com limitações humanas, existe ali um ofício que nos ultrapassa. Um serviço que não pode ser reduzido a manchetes ou ataques de ocasião.
No fim das contas, tudo isso revela mais sobre o nosso tempo do que sobre a Igreja. Um tempo apressado, ruidoso, sedento por poder e influência. E, no meio disso, uma voz antiga continua dizendo: “Tu és Pedro”.
E essa voz não pede aprovação. Ela pede fidelidade.
Que não nos falte lucidez para discernir. E, mais ainda, que não nos falte coragem para permanecer.
Por seu Irmão Carmelita Secular da Antiga Observância, B