Vaticano adverte a FSSPX sobre a possibilidade de suspensão das ordenações de bispos e oferece diálogo

Cardeal Víctor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, com o Pe. Davide Pagliarani, superior da FSSPX. Crédito da foto: Dicastério para Doutrina da Fé

Cidade do Vaticano, 12 de fevereiro de 2026 — A Santa Sé emitiu um alerta formal à Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) quanto à possibilidade de novas consagrações episcopais sem mandato pontifício. Segundo comunicado divulgado pelo Dicastério para a Doutrina da Fé (DDF), tal ato “constituiria uma ruptura decisiva da comunhão eclesial (cisma)”.

A declaração foi publicada após reunião realizada na sede do dicastério entre o Superior Geral da FSSPX, Padre Davide Pagliarani, e o Prefeito do DDF, Cardeal Victor Manuel Fernández.

Proposta de diálogo estruturado

Durante o encontro, o cardeal Fernández propôs a abertura de um diálogo teológico formal e estruturado com o objetivo de esclarecer questões doutrinárias ainda pendentes entre a Santa Sé e a Fraternidade. Entre os temas citados está o grau de adesão exigido aos documentos do Concílio Vaticano II.

De acordo com o comunicado, o propósito do diálogo é “destacar os requisitos mínimos para a plena comunhão com a Igreja Católica” e, a partir disso, “delinear um estatuto canônico para a Fraternidade”, além de outros pontos que ainda demandam estudo.

O Vaticano, porém, estabeleceu uma condição clara: as discussões só poderão avançar caso a FSSPX suspenda as consagrações episcopais planejadas para 1º de julho de 2026.

A questão das ordenações episcopais

A ordenação de bispos sem mandato papal é um ponto extremamente sensível na disciplina da Igreja. O Código de Direito Canônico prevê sanções automáticas para tal ato, por considerá-lo atentatório à unidade visível da Igreja. O precedente de 1988, quando Dom Marcel Lefebvre consagrou quatro bispos sem autorização de Roma, ainda pesa na memória eclesial.

O alerta atual indica que a Santa Sé considera que uma nova consagração nessas circunstâncias representaria uma ruptura formal da comunhão.

Debate doutrinário e Documento de Abu Dhabi

A reunião também tratou de questões levantadas pela FSSPX em correspondências anteriores, entre elas a controvérsia em torno da afirmação presente no chamado “Documento de Abu Dhabi” (2019), que menciona a “vontade divina na pluralidade de religiões”.

O texto, assinado pelo Papa Francisco e pelo Grande Imã de Al-Azhar, gerou debates teológicos sobre a distinção entre vontade permissiva e vontade positiva de Deus, tema que continua sendo objeto de discussão em setores tradicionais da Igreja.

Próximos passos

Segundo o comunicado, o Padre Pagliarani apresentará a proposta do Vaticano ao conselho geral da Fraternidade e posteriormente comunicará ao Dicastério a decisão oficial.

O momento é decisivo. De um lado, a Santa Sé oferece diálogo e a possibilidade de um estatuto canônico estável. De outro, reafirma que a comunhão com o Sucessor de Pedro é condição indispensável para a unidade da Igreja.

Os próximos meses dirão se prevalecerá o caminho da negociação ou se a tensão evoluirá para uma ruptura formal.

Segue abaixo uma tradução em português da declaração da DDF, juntamente com o original em italiano.

DICASTÉRIO PARA A DOUTRINA DA FÉ

COMUNICADO sobre o encontro entre o Prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé e o Superior Geral da FSSPX

No dia 12 de fevereiro de 2026, realizou-se no Dicastério para a Doutrina da Fé um encontro cordial e sincero entre o Prefeito, Sua Eminência o Cardeal Víctor Manuel Fernández, e o Superior Geral da FSSPX, o Rev.mo Pe. Davide Pagliarani, com o beneplácito do Santo Padre Leão XIV.

Após terem sido esclarecidos alguns pontos apresentados pela FSSPX em diversas cartas, enviadas particularmente nos anos de 2017-2019 — entre outros, discutiu-se a questão da vontade divina em relação à pluralidade das religiões — o Prefeito propôs um percurso de diálogo especificamente teológico, com metodologia bem definida, a respeito de temas que ainda não receberam suficiente precisão, como: a diferença entre ato de fé e “religioso obséquio da mente e da vontade”, ou os diferentes graus de adesão requeridos pelos diversos textos do Concílio Ecumênico Vaticano II e sua interpretação. Ao mesmo tempo, propôs tratar uma série de temas elencados pela FSSPX em carta de 17 de janeiro de 2019.

Esse percurso teria como finalidade evidenciar, nos temas debatidos, os mínimos necessários para a plena comunhão com a Igreja Católica e, consequentemente, delinear um estatuto canônico para a Fraternidade, juntamente com outros aspectos que necessitam de ulterior aprofundamento.

Foi reiterado por parte da Santa Sé que a ordenação de Bispos sem mandato do Santo Padre, o qual detém um poder ordinário supremo, pleno, universal, imediato e direto (cf. CDC, cân. 331; Const. Dogm. Pastor aeternus, cap. I e III), implicaria uma ruptura decisiva da comunhão eclesial (cisma), com graves consequências para a Fraternidade em seu conjunto (João Paulo II, Carta Ap. Ecclesia Dei, 2 de julho de 1988, nn. 3 e 5c; Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, Nota explicativa, 24 de agosto de 1996, n. 1).

Portanto, a possibilidade de realizar esse diálogo pressupõe que a Fraternidade suspenda a decisão das ordenações episcopais anunciadas.

O Superior Geral da FSSPX apresentará a proposta ao seu Conselho e dará sua resposta ao Dicastério para a Doutrina da Fé.

No caso de resposta positiva, serão estabelecidos de comum acordo os passos, as etapas e os procedimentos a seguir.

Pede-se a toda a Igreja que acompanhe este caminho, especialmente nos próximos tempos, com oração ao Espírito Santo. Ele é o principal artífice da verdadeira comunhão eclesial querida por Cristo.

Víctor Fernández