Gaudete no Deserto: a alegria que o modernismo não consegue confiscar
Diário de um Católico na Contrarrevolução – Parte 34
A alegria que não pede licença
Há dias em que a vida católica parece um exercício de
resistência. Não resistência barulhenta, de megafone na mão, mas aquela mais
difícil: continuar fiel quando tudo conspira para o cansaço. Gaudete cai
exatamente aí. Não como açúcar litúrgico para adoçar tempos amargos, mas como
desafio frontal. Regozijai-vos — não quando o mundo sorrir para a Igreja, mas
quando ela parece sitiada por dentro.
Gaudete não é intervalo terapêutico no Advento, é ato de insubordinação
sobrenatural. É a Igreja dizendo, com a serenidade de quem sabe o fim da
história, que a alegria cristã não depende de decretos, conferências episcopais
ou estratégias de sobrevivência institucional.
Quando a alegria vira protesto
O modernismo e seus herdeiros sempre desconfiaram da alegria
que não controlam. Preferem entusiasmos gerenciáveis, emoções pedagógicas,
celebrações “contextualizadas”. A alegria da Tradição é outra coisa: nasce do
altar, não da assembleia; brota do sacrifício, não da performance.
Por isso a Missa Tridentina incomoda tanto. Ela lembra, sem
pedir desculpa, que Cristo é o centro da história e que os homens da Igreja —
papas, bispos, teólogos da moda — são personagens secundários. O texto em
inglês diz com precisão: a alegria não é otimismo, é lealdade. Lealdade a Quem
reina mesmo quando Seus representantes falham.
Gaudete manda repetir: Rejoice… again I say, rejoice.
Não é sugestão psicológica. É ordem espiritual. Uma ordem que escapa ao
controle dos engenheiros pastorais, porque está ancorada no Senhor, não nos
resultados. O modernismo precisa de fiéis ansiosos, dependentes, sempre à
espera da próxima diretriz. A liturgia tradicional forma homens moderados no
sentido clássico: senhores de si, não manipuláveis, com o coração fixo no que é
eterno.
Exemplos concretos – O deserto como lugar de liberdade
Hoje, quem permanece fiel à Tradição conhece bem o deserto.
Missas canceladas “por prudência”, comunidades vigiadas “por unidade”, padres
tratados como problema administrativo. Tudo com linguagem suave, burocrática,
quase caridosa. Crueldade em papel timbrado.
E, do outro lado, o silêncio constrangedor de setores que
deveriam defender a fé recebida. Uma parte do chamado “tradicionalismo
organizado” prefere não ver, não falar, não arriscar. Acesso pesa mais que
verdade. Mas Gaudete não depende deles.
O Evangelho do dia, é cirúrgico:
João Batista no deserto. Interrogado, pressionado, convidado a se definir
segundo categorias aceitáveis. Ele recusa todas. Não quer título, não quer
lugar, não quer reconhecimento. “Sou voz que clama no deserto.” Liberdade pura.
A Tradição hoje vive isso: fora dos centros de aprovação, mas exatamente por
isso mais clara, mais audível, mais perigosa para quem tenta domesticar a fé.
E a frase que dói: “Há entre vós alguém que não
conheceis.” Cristo pode estar presente e ignorado por estruturas inteiras.
Isso não é novidade histórica. Santo Atanásio sabia. São João da Cruz também. A
Igreja já atravessou cativeiros piores — e sempre saiu porque não depende da
boa vontade dos seus carcereiros.
Conclusão: Esperança sem anestesia
Gaudete não nega a noite. Mede a noite. E declara: ela
passa. O modernismo, com toda sua autoconfiança acadêmica e seu desprezo pela
herança, também passará. Já passou outras vezes, com outros nomes.
Regozijar-se hoje é um ato de fidelidade adulta. É dizer,
com calma e sem histeria, que a Missa de sempre continua sendo fonte de vida,
que o Magistério perene não caducou, que os santos não ficaram ultrapassados. É
alegria sem ingenuidade, esperança sem maquiagem.
O paramento róseo não anuncia que vencemos. Anuncia que o
Juiz está próximo. E isso é péssima notícia para os inimigos da Tradição — mas
excelente para quem permaneceu fiel.
Regozijai-vos. Não porque tudo está bem, mas porque tudo
está nas mãos certas.
Por um Católico consciente e atento ao cenário eclesial
do Brasil e do Mundo.