Antes do Nome, a Casa


Sempre achei curioso como a palavra “cristão” virou, com o tempo, quase um selo genérico. Tipo embalagem de supermercado: igual por fora, cheio de variações por dentro. Hoje, basta alguém citar um versículo no Instagram pra ganhar o crachá. Só que isso, no fundo, revela um vazio — um buraco deixado por séculos de fragmentação, personalismo e uma espiritualidade que troca de roupa mais rápido do que troca de oração.

É por isso que, antes de me chamar de cristão, me chamo de católico. Não por arrogância, não por pose, mas porque católico diz algo que cristão, sozinho, deixou de dizer. A palavra se desgastou, perdeu borda, perdeu cheiro, perdeu raiz. Já o catolicismo… ah, esse carrega poeira de chão antigo, eco de catedrais, suor de monges, sangue de mártires, lágrimas de conversos. Carrega história, credo e continuidade. E, num mundo onde tudo parece versão beta, é quase escandaloso preferir o definitivo.

A verdade é que o cristianismo se pulverizou. Cada denominação com sua ênfase, seu estilo, seu manual de instruções. Algumas silenciosas, outras vibrantes; algumas centradas na experiência, outras no texto; algumas sóbrias como inverno europeu, outras elétricas como estádio em final de campeonato. Não é que a diversidade seja problema — a história cristã sempre foi uma tapeçaria rica. Mas, em algum momento, o fio central se perdeu. E sem o fio, o tecido vira retalho.

Aí entra a Igreja, teimosa como sempre, sustentando a estrutura que muita gente acha ultrapassada justamente porque ela não muda a cada temporada. Enquanto o resto do mundo religioso flutua em opinião pessoal, Roma segura o cajado e diz: “Aqui, o que é professado em Lagos é professado em Lisboa, e o que é rezado em Los Angeles é rezado em Lima”. É quase poético que algo tão antigo seja, ao mesmo tempo, tão moderno em sua resistência: manter um ritmo quando todos vivem em aceleração; manter um credo quando todos preferem slogans; manter sacramentos quando todos preferem “experiências”.

Ser católico antes de cristão é, no fundo, confiar que fé não é invenção individual, mas recebimento. Não é playlist pessoal, é sinfonia herdada. Não é insight solitário, é comunhão que atravessa séculos. É escolher a casa inteira em vez de morar só no quintal. É abraçar a universalidade quando o mundo inteiro corre para o particular.

E aqui mora o ponto que talvez machuque, mas cura: quem se ancora na Igreja não está preso ao passado — está enraizado. Raiz não é prisão; é direção. É ela que permite enxergar adiante sem ser levado pelo vento da última opinião viral.

No fim, dizer “católico antes de cristão” é afirmar: “Eu quero a fé inteira, não o rascunho.”

É optar pela clareza onde reina confusão.

É preferir a casa que atravessou impérios à tenda improvisada no calor do momento.

É segurar o fio antigo que ainda tece o mundo — e que, se abandonado, deixa tudo desmanchar.

Por seu Irmão Carmelita Secular da Antiga Observância, B.