
Tem hora que a história vira a esquina sem pedir licença. A
gente olha e pensa: “pera, isso aí não parece certo”. Pois é. O novo
regulamento da Cúria chegou anunciando que o latim — a língua que costura a
Tradição da Igreja desde os Padres e os Concílios — agora é só mais uma opção,
não mais a casa onde nossas palavras moram.
É tipo trocar o coração por um smartwatch: até pode
funcionar, mas e o pulso da eternidade, quem garante?
Não dá pra negar: o mundo é global, corre apressado, e quer
tudo prático. Mas a Igreja nunca viveu do “prático”. Ela viveu do perene.
Do que resiste ao tempo. Do que não se dobra ao marketing linguístico do
momento.
O latim não é um enfeite
de museu.
É sacrário de sentido.
É muralha contra as modas.
É ponte entre séculos.
Ele guarda o Evangelho de
ser devorado por slogans.
Ele une o camponês medieval ao universitário do século XXI.
Ele nos lembra que a fé não nasceu ontem — e que não está à venda amanhã.
Quando a Cúria abre mão
dessa prioridade, algo dentro de mim grita:
será que a gente tá trocando os alicerces por drywall?
Claro, vão dizer: “É só burocracia interna, relaxa.”
Mas a burocracia também
educa.
O que a gente baixa para os bastidores, cedo ou tarde some do palco.
Se o latim deixa de ser
exigência,
logo deixa de ser conhecido.
Se deixa de ser conhecido,
deixa de ser usado.
Se deixa de ser usado,
deixa de ser amado.
E se deixa de ser amado…
morre.
E junto com ele, morre
aquele sopro universal que fazia qualquer altar — do Japão ao Chile — falar a
mesma língua com o Céu.
Sigo crendo, porém: a
Tradição não se rende tão fácil.
Ela não precisa estar em regulamento pra existir.
Ela precisa estar no peito.
Na coragem de continuar rezando, cantando e vivendo aquilo que atravessou
impérios, guerras e apostasias.
Se querem modernizar
tudo… beleza.
Mas que não nos peçam pra esquecer quem somos.
Afinal, a Igreja não é startup.
É Corpo Místico.
É Esposa do Verbo.
E o Verbo falou em latim na boca dos santos.
Se o centro hesita, que
as periferias resistam.
Se a Cúria se “ajusta”, que o Carmelo reze.
Se os gabinetes trocam o idioma, que os corações mantenham a chama.
Porque enquanto houver um
católico que diga “Et cum spiritu tuo” com alma, Roma não perderá sua língua — nem sua memória.
Por seu Irmão Carmelita
Secular da Antiga Observância, B.