Apresentação do Ofício Parvo da Bem-Aventurada Virgem Maria

Foto: Capa do Ofício Parvo de Nossa Senhora segundo o breviário romano, Santa Sé, Rio Grande da Serra, SP, editora Realeza, 2024. ISBN: 978-65-89613-92-3

Ao longo dos séculos, o Ofício Divino foi ganhando, ao lado de sua forma principal, uma série de modelos mais simples, mas que cumpriam a mesma função: organizar o dia com orações de louvor, súplica e arrependimento dirigidas a Deus por meio dos Salmos, e constituir uma verdadeira forma de oração litúrgica.

Dentre esses modelos, o de maior destaque — sem sombra de dúvida — é o Ofício Parvo da Bem-Aventurada Virgem Maria, repetidamente louvado e aprovado por santos e papas. No Brasil, contudo, a preguiça mental e o analfabetismo religioso fizeram com que ele só ganhasse alguma difusão na primeira metade do século XX. Depois disso, especialmente no período pós-Concílio Vaticano II (que, vale destacar, reafirmou o valor litúrgico dessa forma do Ofício Divino), ele foi praticamente abandonado.

Simplesmente deixaram de publicar edições das Horas de Nossa Senhora. E, com o advento da internet, passaram a circular por aí versões baseadas na Liturgia das Horas do rito paulino sob o nome de “Ofício Parvo” — o que é uma espécie de deturpação, pra dizer o mínimo.

Mas isso agora vai mudar.

Para os católicos ligados ao rito romano tradicional, isso deve ser motivo de grande alegria. O Ofício Parvo da Bem-Aventurada Virgem Maria é profundamente enraizado no Breviário Romano e permaneceu intocado pelas “reformas” litúrgicas pós-conciliares. É, portanto, um verdadeiro tesouro da espiritualidade católica, que precisa ser redescoberto, amado e rezado por todos os fiéis que desejam honrar Maria e mergulhar na liturgia da Igreja.

O Ofício Parvo da Bem-Aventurada Virgem Maria

(Adaptado do texto de Theo Keller, publicado na edição do Ofício Parvo da Baronius Press)

O Ofício Parvo da Bem-Aventurada Virgem Maria é um dos brevi parva, ou seja, um pequeno breviário. Em termos mais diretos: trata-se de uma versão reduzida do Ofício Divino, extraída do Comum de Nossa Senhora no Breviário Romano. Ele contém as Matinas, Laudes, Prima, Terça, Sexta, Noa, Vésperas e Completas, organizadas de modo a atender às necessidades devocionais e litúrgicas de muitos leigos, bem como de numerosas comunidades religiosas engajadas no apostolado ativo.

Alguns desses pequenos breviários são relativamente recentes, frutos do movimento litúrgico das primeiras décadas do século XX. Já o Ofício Parvo da Bem-Aventurada Virgem Maria, embora não seja o mais antigo, tem a honra de ser o mais popular entre eles.

Esse ofício foi, por séculos, a oração diária de centenas — talvez milhares — de comunidades religiosas, a maioria envolvida em apostolados ativos, mas também de algumas contemplativas, como as Irmãs da Visitação, para quem o Ofício Parvo era a principal forma de oração litúrgica. Geração após geração, também milhares de leigos, isoladamente ou ligados a comunidades religiosas — como terciários, oblatos ou membros de ordens de cavalaria — rezavam com fidelidade as Horas de Maria.

O Ofício Parvo atravessa todos os séculos, desde os manuscritos medievais conhecidos como Livros de Horas até as edições impressas no tempo da “Reforma”, além de inúmeras edições privadas ao longo da história.

Os fatos sobre a origem e o desenvolvimento primitivo das Horas de Nossa Senhora são difíceis de rastrear. Há muitas lendas, mas os dados concretos que chegaram até nós estão bastante distantes das fontes originais para nos oferecerem um panorama completo.

O que sabemos é que São Bento de Aniane, reformador monástico do século X, iniciou em seu mosteiro um processo que adicionava ofícios devocionais ao Ofício Divino. Com o tempo, o Ofício Parvo foi adotado ali e em outros mosteiros e abadias, e rapidamente passou a ser celebrado em quase todas as catedrais e igrejas do Ocidente cristão. Eventualmente, tornou-se parte obrigatória do Ofício Divino — embora seja difícil precisar em que ponto da Idade Média isso se deu. Uma lenda atribui ao Papa Urbano II, no Concílio de Clermont (1095), a ordem para que os clérigos rezassem as Horas Marianas. No entanto, os registros sugerem que essa obrigatoriedade só se consolidou mais tarde.

Naquela época de notável devoção à Virgem Santíssima, o Ofício Parvo era de grande importância. Na catedral de Notre-Dame de Paris, ele não era opcional. Os leigos não costumavam assistir ao Ofício Divino completo, mas compareciam ao Ofício Parvo. Os cônegos que o cantavam, junto aos fiéis que os acompanhavam, tinham nas Horas de Maria uma oração íntima, familiar e reconfortante.

Após o Concílio de Trento, em 1568, São Pio V reformou a liturgia e incluiu o Ofício da Bem-Aventurada Virgem Maria em toda edição impressa do Breviário Romano. Contudo, retirou a obrigatoriedade de sua recitação pelos clérigos — permitindo, no entanto, que continuasse a ser rezado por devoção. Algumas ordens religiosas, no entanto, mantiveram essa obrigatoriedade por algum tempo.

São Pio V também autorizou a continuidade do uso de formas próprias do Ofício Parvo por ordens que comprovassem tradição litúrgica de mais de 200 anos — como os cartuxos, dominicanos e carmelitas.

Durante quatro séculos, essa versão tridentina do Ofício Parvo foi a mais conhecida dos fiéis. E foi essa mesma versão que São Pio X, em 1911, reformou com pequenos ajustes como parte da reorganização do Breviário Romano.

Em 1953, Augustin Bea (mais tarde cardeal) elaborou, a pedido das Irmãs Franciscanas da Suíça, uma versão das Horas Marianas mais desenvolvida, com novos tempos litúrgicos, orações, leituras e festas de santos. Essa versão foi aprovada por Pio XII, que permitiu sua adoção por qualquer comunidade interessada.

Pouco depois, em 1955, a Congregação para os Religiosos, em Roma, encomendou aos monges beneditinos da Abadia de En Calcat, na França, a elaboração de uma versão do Ofício que trouxesse mais variedade. Assim, em 1958, foi lançada uma edição bilíngue (latim/francês) com as seguintes particularidades:

a. Uso completo do Saltério;
b. Leituras próprias nas Matinas para cada dia do ano;
c. Desenvolvimento do ciclo temporal;
d. Inclusão de festas que ressaltam o papel de Maria na economia da salvação, bem como festas do calendário universal.

Apesar dessas inovações, o Breviário Romano continuou a apresentar o Ofício Parvo na forma aprovada por São Pio X. Algumas modificações mínimas foram feitas pelos pontífices seguintes — como a supressão da “Ave Maria” dita em voz baixa antes do Ofício e a retirada das comemorações dos santos após a coleta final —, mas sempre em sintonia com as mudanças aplicadas ao Ofício Divino.

A modificação mais notável do século XX talvez tenha sido a inclusão, em algumas edições, do Saltério de Pio XII.

Por volta de 1960, a Igreja oferecia aos fiéis três versões das Horas Marianas:

a. A tradicional, simples, presente no Breviário Romano;
b. A versão do Cardeal Bea, com seis tempos litúrgicos;
c. O Ofício da Bem-Aventurada Virgem Maria, da Abadia de En Calcat.

Contudo, com a avalanche de mudanças litúrgicas da década seguinte, essas versões foram abandonadas, e até mesmo a forma tradicional caiu em desuso. A maioria dos religiosos passou a rezar a Liturgia das Horas do rito paulino. Porém, entre muitos leigos, o Ofício Parvo da Bem-Aventurada Virgem Maria na sua forma tradicional continua sendo uma devoção viva. E não apenas nas comunidades ligadas à Ecclesia Dei — seu apelo espiritual toca também católicos de outros contextos.

Por fim, por que tamanha atração pelo Ofício Parvo?

Antes de tudo, ele é uma forma de devoção mariana. Aqueles que veneram Maria como Mãe de Deus e Medianeira de Todas as Graças encontram nele um modo simples, direto e profundamente litúrgico de expressar essa devoção — como o Rosário, só que com o peso e a solenidade do ofício eclesiástico.

Além disso, sua repetição diária gera familiaridade. E a familiaridade nos leva à confiança. Com o passar do tempo, quem reza as Horas Marianas adquire um entendimento mais profundo dos salmos, leituras, hinos e orações. Quem canta o Ofício ainda experimenta uma poderosa aproximação com o canto gregoriano, tendo ali uma excelente iniciação nesse tesouro da Igreja.

Não é exagero afirmar que, no século XIII, quando os cônegos de Notre-Dame cantavam o Ofício Parvo, o povo se sentia confortado. Era com ele que os leigos mais se identificavam. O conteúdo era repetido dia após dia — e isso não o tornava cansativo, mas familiar, reconfortante, acessível. O Ofício Parvo não exige grandes variações ou mudanças diárias na compreensão. Ele é constante, e, por isso mesmo, fácil de rezar e amar.

No fim das contas, o Ofício Parvo é um feliz casamento entre intensa devoção mariana e amor à liturgia tradicional da Igreja. Foi, durante séculos, fonte de oração comum e pessoal para milhares de católicos — e continuará sendo, com certeza, no tempo vindouro.

Continua...