A Chaminé da Capela Sistina e a Casa Comum

Crônica: A Chaminé da Capela Sistina e a Casa Comum

Na manhã romana de quarta-feira como tantas outras — céu azul com aquela promessa de eternidade que só a Cidade Eterna consegue oferecer. Turistas se acotovelavam na Praça de São Pedro, como quem busca uma selfie com o Infinito. Mas ali, acima das cabeças ansiosas e dos celulares erguidos, erguia-se a velha chaminé da Capela Sistina: magra, discreta, quase acanhada... e ainda assim, protagonista de eventos que sacodem o mundo.

Hoje, porém, ela estava muda. Nem fumaça branca, nem preta. Apenas uma melancólica quietude, como se até o Espírito Santo tivesse tirado folga. A razão? Dizem que os Cardeais estavam em retiro espiritual. Outros sussurravam que o conclave estava suspenso porque alguém, no meio da votação, puxou um discurso sobre “ecologia integral”.

— É que agora não basta ser ortodoxo, nem piedoso... tem que reciclar o encéfalo — cochichou um sacristão mais velho, abanando o rosto com uma cópia amarelada do Catecismo de São Pio X.

Lá dentro, entre afrescos de Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni que gritavam eternidade, os senhores de púrpura discutiam como salvar a “Casa Comum”. Um cardeal alemão sugeria painéis solares no teto da Basílica. Um francês, talvez influenciado por Rousseau, queria um sínodo sinfônico com os pássaros da Amazônia. Já um brasileiro, sempre cordial, propôs beatificar São Francisco como padroeiro da energia eólica.

A chaminé, coitada, olhava tudo de cima. Aquela velha senhora de ferro que, por séculos, soprou o alento do Céu para os fiéis na Terra, agora se via reduzida a instrumento de comunicação simbólica e, quem sabe, futuramente, a condutor de dióxido de carbono “liturgicamente neutro”.

Na Praça, uma freira argentina murmurou:

— Quando sai fumaça verde?

— Quando canonizarem o aquecimento global — respondeu um seminarista, com uma ironia que faria Chesterton brindar no além.

Mas a Capela Sistina resiste. Seus mármores, suas sombras e seus santos continuam calados, lembrando que antes de nos preocuparmos com a Casa Comum, talvez devêssemos lembrar da Casa do Pai. Aquela que não passa, que não pega fogo, nem precisa de reflorestamento.

Enquanto isso, a chaminé aguarda. E nós também. Quem sabe um dia ela volte a exalar a fumaça de um mundo que, em vez de tentar salvar a Criação sem o Criador, se deixe incendiar pela Graça?

Por seu Irmão Carmelita Secular da Antiga Observância B.

Nota aos apressados, engraçadinhos e comentaristas de rede social:

Esta crônica não é panfleto político, nem manifesto ecológico, muito menos ataque pessoal a quem quer que seja. É uma meditação satírica — gênero que mistura ironia, poesia e uma boa dose de incômodo saudável — sobre os rumos (ou desvios) da Igreja no nosso tempo.

Se você se sentiu ofendido porque viu na chaminé um espelho, talvez seja hora de examinar a alma antes de abrir os dedos no teclado. A crítica aqui é mais velha que a fumaça preta: é a tensão entre o eterno e o efêmero, entre a tradição e os modismos, entre o culto a Deus e o culto ao mundo.

Se você leu como quem lê bula de remédio ou comentário de Instagram, volte e leia como se lê crônica: com o espírito aberto, o olhar afiado e o coração pronto para rir e chorar — como quem olha um vitral que só revela sua beleza quando entra luz por trás.

No fim, o texto não toma partido senão o da Capela Sistina: aquela que guarda em silêncio os ecos do Céu, esperando o dia em que a fumaça da graça volte a subir — branca, alta e livre de carbono ideológico.