Você está vivendo ou apenas esperando o dia em que vai morrer?

“A vida passa depressa, mas o amor vivido em Deus transforma cada instante passageiro em semente de eternidade.”

Uma crônica sobre o tempo, a brevidade da vida e aquilo que a alma não pode perder.

Há pessoas que passam a vida inteira esperando. Esperam a segunda-feira para começar, as férias para descansar, a aposentadoria para viver, o momento certo para pedir perdão, a ocasião perfeita para dizer “eu, te amo”. Esperam ter dinheiro, ter tempo, ter saúde, ter certeza. Esperam tanto que, quando finalmente resolvem olhar para a vida, descobrem que uma parte dela já passou e não voltará jamais.

A vida tem uma maneira silenciosa de nos escapar pelas mãos. Não costuma fazer alarde quando leva embora a nossa juventude, quando transforma os cabelos de nossos pais em fios brancos, quando envelhece os avós ou quando faz daquele amigo de tantas histórias apenas uma lembrança guardada no fundo da memória. O tempo não bate à porta para avisar que está indo embora. Simplesmente vai.

E nós, quase sempre distraídos, continuamos correndo.

Corremos atrás de dinheiro, de reconhecimento, de títulos, de posições e de uma aprovação alheia que, muitas vezes, nem sequer vale o preço que pagamos por ela. Queremos ser vistos, admirados, aplaudidos. Desejamos conquistar o mundo, mas, não raro, perdemos a capacidade de olhar nos olhos daqueles que estão ao nosso lado. Temos pressa para chegar a algum lugar, mas raramente paramos para perguntar a nós mesmos se estamos indo na direção certa.

Talvez seja essa uma das grandes tragédias da existência humana: passar a vida inteira tentando conquistar aquilo que não podemos levar e negligenciar justamente aquilo que dá sentido à nossa passagem por este mundo.

A canção Trem-Bala, de Ana Vilela, faz-nos pensar nessa realidade. A vida corre, nós somos passageiros e ninguém possui o bilhete de volta para os dias que já viveu. Não podemos regressar à infância para abraçar novamente nossa mãe quando ela ainda nos carregava no colo. Não podemos voltar à juventude para corrigir todas as palavras ditas com arrogância, desfazer todas as mágoas que provocamos ou recuperar as tardes que desperdiçamos longe daqueles que nos amavam.

O passado permanece como memória, mas não como território onde possamos morar novamente.

Por isso, há algo de profundamente triste em perceber quantas pessoas só descobrem o valor da presença quando experimentam a ausência. Só reconhecem o valor de uma conversa quando já não existe quem possa responder. Só compreendem a importância de um abraço quando os braços que desejavam abraçar já repousam sob a terra. Só percebem que o tempo era precioso quando já não podem comprá-lo, negociá-lo ou pedi-lo emprestado.

E, no entanto, continuamos adiando o essencial.

Adia-se o perdão por orgulho. Adia-se a reconciliação por vaidade. Adia-se a visita porque estamos ocupados demais. Adia-se a oração porque sempre existe alguma distração mais urgente. Adia-se o silêncio porque temos medo de ouvir aquilo que a própria consciência procura nos dizer.

Mas o tempo não negocia conosco.

São João da Cruz, esse grande mestre da alma, ensinou-nos, com a profundidade de sua doutrina, que a criatura não pode encontrar sua plenitude apegando-se desordenadamente às coisas passageiras. Não se trata de desprezar o mundo, de rejeitar os afetos legítimos ou de viver como se as pessoas e suas necessidades não importassem. Trata-se de amar cada coisa em seu devido lugar, sem transformar aquilo que passa em nosso deus particular.

Eis uma verdade que deveria nos fazer tremer: podemos possuir muitas coisas e, ainda assim, ser interiormente pobres. Podemos morar em casas magníficas e não encontrar paz dentro de nós mesmos. Podemos receber aplausos de multidões e sentir falta de uma única pessoa que nos conhecia de verdade. Podemos ter a agenda cheia, a conta bancária confortável e a consciência vazia de obras de caridade.

O problema nunca foi possuir alguma coisa. O problema começa quando aquilo que possuímos passa a possuir o nosso coração.

Na escola espiritual do Carmelo, aprendemos que o silêncio não é fuga da realidade, mas caminho para encontrar a verdade. Santa Teresa de Jesus, mulher de oração, coragem e profunda humanidade, compreendeu que a vida interior exige recolhimento, autoconhecimento e amizade com Deus. Em meio às preocupações, às contrariedades e às tarefas cotidianas, a alma precisa voltar à fonte, porque ninguém consegue oferecer ao mundo aquilo que nunca procura cultivar dentro de si.

Quantas vezes, porém, vivemos do lado de fora de nós mesmos! Sabemos das notícias, acompanhamos as discussões, conhecemos os escândalos, comentamos a vida alheia e julgamos as escolhas dos outros. Temos opiniões sobre quase tudo, mas pouco tempo para examinar a própria consciência. Somos capazes de identificar os defeitos de uma sociedade inteira, mas resistimos a reconhecer a impaciência que cultivamos em casa, a dureza com que tratamos os familiares e a indiferença com que atravessamos o sofrimento de quem precisa de nós.

Talvez precisemos menos de discursos sobre a mudança do mundo e mais de conversões silenciosas dentro de nossa própria casa.

Porque a santidade, tantas vezes, começa em coisas pequenas: ouvir sem interromper, responder sem ferir, servir sem exigir reconhecimento, pedir perdão sem apresentar desculpas e permanecer fiel quando ninguém está olhando.

Santa Teresinha do Menino Jesus descobriu no pequeno caminho uma verdade capaz de transformar a existência: a santidade não depende necessariamente de feitos extraordinários aos olhos humanos, mas do amor com que realizamos as coisas ordinárias. Uma tarefa simples, um sofrimento suportado com paciência, um gesto de bondade escondido, uma obrigação cumprida com fidelidade — tudo pode adquirir valor diante de Deus quando nasce de um coração que ama.

E isso muda completamente nossa maneira de compreender a vida.

Não precisamos esperar por uma ocasião grandiosa para começar a viver com sentido. Não precisamos alcançar uma posição de destaque para fazer o bem. Não precisamos ser conhecidos por milhares de pessoas para tornar a existência de alguém menos pesada.

Às vezes, o maior acontecimento de um dia é uma mãe que encontra tempo para escutar o filho. É um pai que, apesar do cansaço, pergunta como foi o dia da família. É um filho que se senta ao lado dos pais idosos sem olhar continuamente para o relógio. É alguém que, podendo humilhar, escolhe compreender; podendo abandonar, escolhe permanecer; podendo retribuir uma ofensa, decide não alimentar o mal.

São gestos que talvez jamais apareçam nas manchetes, mas que podem mudar o destino de um coração.

E como precisamos aprender a reconhecer o valor dessas coisas enquanto ainda as temos!

Há quem daria tudo por mais cinco minutos de conversa com a mãe que partiu. Há quem desejasse ouvir novamente a voz do pai que já não pode responder. Há quem trocasse as conquistas de uma vida inteira pela oportunidade de sentar-se mais uma vez à mesa com a família reunida, sem ressentimentos, sem distrações e sem aquela pressa absurda de terminar logo o encontro.

Nós, entretanto, muitas vezes temos a mesa, temos as pessoas, temos a possibilidade do abraço — e escolhemos a indiferença.

Não se trata de viver sob a angústia permanente da morte. O cristão não foi chamado a cultivar o desespero, mas a esperança. Recordar que a vida é breve não significa desprezar os dias; significa aprender a recebê-los como um dom. A consciência da morte, quando iluminada pela fé, não destrói o sentido da existência: purifica-o.

O Carmelo conhece bem essa sabedoria. Santa Teresa de Jesus, em sua célebre exclamação sobre a transitoriedade das coisas, recorda-nos que tudo passa, enquanto Deus permanece. Essa certeza não nos autoriza a fugir de nossas responsabilidades terrenas. Ao contrário, ensina-nos a cumpri-las com liberdade interior, sem fazer das coisas passageiras o fundamento último de nossa felicidade.

Se tudo passa, não devemos amar menos. Devemos amar melhor.

Se o tempo é limitado, não devemos desperdiçá-lo com ressentimentos intermináveis. Devemos procurar a reconciliação, sempre que ela for possível e justa.

Se nossa existência é um dom, não devemos tratá-la como mercadoria descartável, nem a nossa nem a do próximo. Devemos cuidar da vida, honrar nossos deveres, proteger os mais vulneráveis e reconhecer a dignidade de cada pessoa.

E, se fomos criados para Deus, não podemos reduzir toda a nossa história a comer, trabalhar, consumir, competir e morrer. Existe uma eternidade para a qual caminhamos, e a vida presente é o tempo precioso em que podemos aprender a amar, crescer na virtude e responder à graça divina.

É aqui que a reflexão se torna ainda mais séria.

Não temos o direito de desperdiçar a vida como se ela fosse uma experiência descartável, porque não somos seus autores absolutos, mas seus administradores diante de Deus.

Recebemos talentos, relações, oportunidades e responsabilidades. Recebemos a possibilidade de fazer o bem e a liberdade de escolher entre o egoísmo e a caridade. Não decidimos todas as circunstâncias que nos acontecem, mas somos chamados a responder a elas com responsabilidade moral, dentro das nossas possibilidades.

Talvez você esteja atravessando um período difícil. Talvez carregue uma decepção que ninguém conhece, uma saudade que não passa, uma preocupação que lhe rouba o sono ou uma ferida que ainda não encontrou cicatrização. Nem toda dor se resolve com uma frase bonita, e nem todo sofrimento desaparece quando decidimos olhar o lado bom das coisas.

Há cruzes que precisam ser carregadas com tempo, auxílio, oração e companhia. Há situações em que estabelecer limites é necessário. Há reconciliações que dependem de mudanças concretas, e há perdas que precisamos aprender a entregar a Deus sem deixar de sentir sua ausência.

Mas mesmo nesses dias, quando a alma parece caminhar por um vale escuro, a vida continua possuindo valor. Não porque tudo esteja bem, mas porque a dignidade humana não depende da ausência de sofrimento. E porque a esperança cristã não é a promessa de uma existência sem cruzes: é a confiança de que a cruz não terá a última palavra.

Pense nisso por um instante.

Quantas coisas você considera indispensáveis hoje e que, daqui a alguns anos, talvez nem se lembre de ter desejado? Quantas discussões estão consumindo sua paz sem produzir fruto algum? Quantas pessoas precisam de sua presença enquanto você oferece apenas desculpas? Quantas vezes você prometeu a si mesmo que mudaria, mas continuou adiando a conversão para uma segunda-feira que nunca chegou?

Não espere que a doença lhe ensine o valor da saúde. Não espere que a solidão lhe revele a importância da amizade. Não espere que a morte lhe explique o valor da presença. Não espere perder a paz para descobrir que o orgulho custava caro demais.

E não espere envelhecer para começar a viver com sabedoria.

O tempo seguirá seu curso. O trem continuará avançando. Nossos rostos mudarão, nossas forças diminuirão e muitas das coisas que hoje parecem tão importantes acabarão ficando para trás. Um dia, também nós seremos lembrados por aqueles que vierem depois de nós. E talvez o que permaneça não seja o cargo que ocupamos, a quantidade de bens que acumulamos ou o número de pessoas que conheciam nosso nome.

Talvez permaneça a lembrança de que fomos bons. De que soubemos amar. De que estivemos presentes. De que não tivemos vergonha de pedir perdão. De que, mesmo com nossas limitações, procuramos viver diante de Deus com um coração sincero.

No fim, a grande pergunta não será apenas quantos anos vivemos, mas o que fizemos com os anos que recebemos.

Por isso, antes de correr novamente, pare um pouco.

Olhe para sua casa. Olhe para as pessoas que caminham ao seu lado. Reconheça os dons que ainda estão presentes em sua vida. Faça aquela ligação. Visite quem está sozinho. Retome a oração abandonada. Repare, se possível, o mal que causou. Cuide do corpo, da alma, da família e das responsabilidades que Deus colocou em suas mãos.

E, sobretudo, não confunda viver com simplesmente permanecer ocupado.

Uma vida pode estar cheia de compromissos e vazia de sentido. Pode durar muitas décadas sem jamais aprender a amar verdadeiramente. Pode alcançar o reconhecimento do mundo e perder a intimidade com Deus.

Que não seja essa a nossa história.

Que, quando chegar a hora de entregar nossa existência ao Senhor, não precisemos fingir que fomos perfeitos, mas possamos reconhecer, com humildade, que tentamos amar, que procuramos recomeçar, que lutamos contra nossos defeitos e que não passamos por este mundo inteiramente indiferentes à dor dos outros.

Porque o trem da vida não espera que estejamos prontos para partir. E justamente por isso cada dia merece ser recebido com gratidão, cada pessoa merece ser tratada com dignidade e cada oportunidade de fazer o bem merece ser levada a sério.

A vida é breve demais para ser desperdiçada com o que não edifica, preciosa demais para ser vivida superficialmente e sagrada demais para ser separada de Deus.

Não sabemos quantas estações ainda teremos pela frente. Não conhecemos a duração de nossa viagem. Mas, enquanto estivermos aqui, ainda poderemos amar, servir, perdoar, rezar e recomeçar.

Que não cheguemos ao fim descobrindo que passamos a existência inteira esperando pelo momento de viver.

Que a graça de Deus nos ensine a habitar o presente sem esquecer a eternidade, a amar as pessoas sem transformá-las em posse e a caminhar por este mundo com os pés na terra, o coração purificado e a alma voltada para o Céu.

Afinal, o tempo passa. As coisas passam. Nós também passaremos.

Mas o amor vivido em Deus não é uma perda de tempo. É a semente da eternidade plantada nos dias passageiros da nossa existência.

Ana Vilela - Trem-Bala
Por seu Irmão Carmelita Secular da Antiga Observância, B