Quando a alma precisava sair do mundo para ouvir a voz de Deus

Uma crônica sobre a saudade, o silêncio e a escuta no Carmelo Secular

Houve um tempo em que, para ouvir a voz de alguém, era preciso sair de casa, caminhar até a esquina, procurar um orelhão, colocar uma ficha ou um cartão telefônico e esperar. Às vezes, havia fila. Às vezes, o cartão acabava antes que a conversa terminasse. E, outras vezes, bastava ouvir um simples “alô” para que a distância parecesse desaparecer por alguns instantes.

Era um tempo diferente. As vozes não chegavam a todo momento, as mensagens não disputavam nossa atenção e o silêncio entre uma ligação e outra fazia parte da vida. Para conversar, era preciso querer. Para ouvir, era preciso esperar. E, para manter certos vínculos, era necessário cultivar a paciência.

Recordo essas coisas e não consigo deixar de pensar na vida espiritual. Porque, guardadas as devidas proporções, também houve um tempo — e talvez ainda haja, para aqueles que desejam viver com profundidade — em que a alma precisava retirar-se do ruído do mundo para escutar a voz de Deus.

O problema é que, enquanto os orelhões desapareceram das ruas, o barulho do mundo entrou em nossas casas, em nossos bolsos e, pouco a pouco, até mesmo em nossos corações.

Vivemos cercados de notificações, mensagens, vídeos, notícias e conversas intermináveis. Estamos sempre conectados a alguém, mas nem sempre estamos verdadeiramente presentes. Falamos muito, respondemos depressa, acompanhamos a vida de tantas pessoas, mas, quando chega a hora de recolhermo-nos e permanecer a sós com Deus, parece que já não sabemos o que fazer com o silêncio.

É justamente aqui que a espiritualidade carmelitana tem algo muito importante a nos ensinar.

O Carmelo não nasceu para competir com o barulho do mundo, mas para nos ensinar a encontrar Deus no recolhimento, na oração e na intimidade com Ele. A tradição carmelitana, alimentada pelo espírito profético de Elias e amadurecida na experiência contemplativa de tantos santos, recorda-nos que a vida espiritual exige disponibilidade interior. Não basta falar de Deus; é necessário aprender a estar com Deus.

E isso me faz pensar em Santa Teresa de Jesus, nossa Madre Teresa, que compreendeu profundamente a importância da oração como trato de amizade com Aquele que sabemos que nos ama. A oração, para ela, não era uma simples obrigação a cumprir, nem uma fórmula repetida mecanicamente. Era encontro, presença, amizade e entrega.

Ora, ninguém cultiva uma amizade verdadeira sem dedicar tempo ao amigo.

Se, antigamente, economizávamos as unidades do cartão telefônico para prolongar uma conversa querida, por que hoje temos tanta dificuldade em reservar alguns minutos para estar diante do Santíssimo Sacramento, meditar a Palavra de Deus ou recolher o coração na oração silenciosa? Se éramos capazes de caminhar até um orelhão para ouvir a voz de alguém que amávamos, por que tantas vezes consideramos cansativo o pequeno esforço de nos colocarmos diante do Senhor?

Não será porque nos acostumamos a querer tudo imediatamente, inclusive as consolações espirituais?

Deus não é uma notificação que aparece na tela, nem a oração é uma ligação que fazemos apenas quando precisamos de alguma coisa. A vida contemplativa exige fidelidade, mesmo quando não sentimos nada de extraordinário. Há dias em que a oração parece doce; em outros, parece árida. Há momentos em que o coração arde, e outros em que tudo parece silencioso. Mas o Carmelo nos ensina que não devemos medir a presença de Deus apenas pelo que sentimos.

O silêncio não significa necessariamente ausência. Às vezes, é precisamente nele que Deus nos ensina a amar sem exigir recompensas.

E aqui desejo falar particularmente aos meus irmãos e irmãs da Ordem Terceira do Carmo, nós que abraçamos a vocação carmelitana vivendo no século, em nossas casas, famílias, trabalhos e responsabilidades cotidianas.

Ser carmelita secular não significa viver fisicamente dentro de um convento, afastado de todas as preocupações humanas. Significa levar para dentro da vida ordinária o espírito de oração, recolhimento, fraternidade e busca de Deus que caracteriza o Carmelo. É fazer da própria casa um lugar de encontro com o Senhor; é aprender a guardar um espaço interior onde as preocupações do dia não tenham a última palavra.

Podemos não ter uma cela monástica, mas precisamos cultivar o recolhimento. Podemos não viver atrás dos muros de um mosteiro, mas somos chamados a construir, dentro de nós, um espaço de silêncio. Podemos caminhar pelas ruas movimentadas, trabalhar, cuidar da família e utilizar os recursos modernos, sem permitir que a agitação exterior destrua nossa intimidade com Deus.

O desafio do carmelita secular não é simplesmente desligar o telefone. É não deixar que o coração viva permanentemente distraído.

São João da Cruz, nosso pai espiritual, conduz-nos ainda mais fundo nesse mistério. Seu ensinamento sobre o desapego e a purificação interior recorda-nos que a alma precisa libertar-se daquilo que a dispersa para avançar no caminho da união com Deus. Não se trata de desprezar as criaturas ou fugir das responsabilidades, mas de ordenar os afetos, purificar as intenções e não permitir que coisa alguma ocupe o lugar devido ao Senhor.

Talvez precisemos, espiritualmente, reaprender a esperar.

Esperar sem desespero. Rezar sem exigir respostas imediatas. Permanecer diante de Deus sem transformar cada momento de oração numa lista de pedidos. Abrir o coração, escutar a Palavra e aceitar que nem sempre compreenderemos os caminhos da Providência.

No fundo, a oração também é uma forma de saudade: saudade de Deus, fome de eternidade, desejo daquele encontro pleno para o qual fomos criados. Uma saudade que não nos paralisa, mas nos põe a caminho.

Elias, o profeta que inspira a família carmelitana, permanece como uma referência dessa busca. Seu zelo pelo Senhor recorda-nos que a vida espiritual não pode ser reduzida a aparências, discursos ou práticas exteriores sem profundidade. É preciso buscar o Deus vivo, servi-Lo com fidelidade e deixar que sua presença transforme nossa existência.

Por isso, quando me lembro daqueles antigos orelhões, dos cartões telefônicos guardados em álbuns e das vozes que esperávamos ansiosamente ouvir, encontro nessa memória uma pequena lição espiritual: aquilo que verdadeiramente amamos merece nosso tempo, nossa atenção e nossa perseverança.

Talvez os orelhões já não façam parte de nossa rotina. Talvez os cartões telefônicos tenham se tornado peças de coleção. Mas a necessidade de escutar uma voz querida continua presente no coração humano.

E, para nós, carmelitas, há uma voz que jamais devemos deixar de procurar: a voz do Senhor, que nos chama à intimidade, à conversão e à santidade.

Não precisamos voltar ao passado para recuperar a beleza da espera. Precisamos apenas resgatar algumas de suas virtudes: a paciência, a simplicidade, a atenção e a capacidade de permanecer.

Quem sabe esteja na hora de guardarmos um pouco o telefone, silenciarmos as notificações, fecharmos a porta por alguns instantes e nos colocarmos diante de Deus. Sem pressa. Sem ruído desnecessário. Sem a preocupação de produzir alguma coisa. Apenas estar ali, como quem espera a voz de alguém muito amado.

E, se por acaso a oração parecer silenciosa, não nos apressemos em abandonar o encontro. Perseveremos. O amor verdadeiro não depende de ouvir palavras a todo instante; manifesta-se também na fidelidade de quem permanece.

Afinal, de que adianta estarmos conectados com o mundo inteiro se nos esquecermos de cultivar nossa comunhão com Deus?

Os orelhões desapareceram das esquinas, mas a alma continua precisando de silêncio para ouvir a voz do Amado. E o Carmelo continua nos ensinando que, para encontrar Deus, muitas vezes é preciso afastar-se um pouco de tudo aquilo que nos impede de estar com Ele.

Que Nossa Senhora do Carmo, Mãe e Senhora da família carmelitana, nos ensine a guardar no coração a Palavra de seu Filho, a cultivar o recolhimento e a perseverar na oração, mesmo quando o mundo inteiro parecer ocupado demais para escutar.

E que, no meio de tantas vozes passageiras, jamais percamos a capacidade de reconhecer aquela única voz que dá sentido à nossa existência: a voz de Jesus Cristo, nosso Senhor, nosso Mestre e nosso Amado.

Porque, no fim das contas, a maior saudade da alma não é de um tempo que passou, mas da plenitude de um amor que ainda esperamos contemplar face a face.

E essa ligação, meus irmãos, não precisa de ficha, cartão telefônico ou orelhão. Precisa de um coração disposto a amar, de uma alma perseverante na oração e de uma vida inteira orientada para Deus.

Por seu Irmão Carmelita Secular da Antiga Observância, B.