Dois anos de um sim que aprendeu a permanecer

Foto: Ordem Terceira do Carmo, Fraternidade Santa Teresinha, ano 2024.

Crônica para os dois anos dos votos perpétuos na Ordem Terceira do Carmo

O passado dia 15 de junho, não será apenas uma data. Será daquelas marcas discretas que o calendário registra, mas que a alma reconhece antes mesmo que o relógio anuncie. Dois anos dos votos perpétuos de obediência, castidade e pobreza vividos segundo o estado de vida na Venerável Ordem Terceira do Carmo.

Dois anos. Parece pouco para quem mede o tempo em séculos; parece muito para quem sabe o peso de dizer “para sempre”.

Há votos que são pronunciados em voz alta diante da comunidade. Mas há votos que só começam a ser compreendidos depois, quando o altar já foi desmontado, as fotografias guardadas e resta apenas a rotina — esse terreno sagrado onde Deus costuma trabalhar sem fazer barulho.

Talvez seja esse um dos segredos do Carmelo.

Porque o Carmelo nunca prometeu grandes espetáculos. Nunca foi escola do extraordinário aparente. Desde a montanha do profeta Elias até as celas silenciosas de tantos santos carmelitas, existe um fio que atravessa os séculos: procurar Deus onde Ele costuma se esconder — no cotidiano, na fidelidade, no silêncio que amadurece.

E olhando para trás, a história não começou naquele dia dos votos.

Começou muito antes.

Começou num jovem que entrou para a vida religiosa com coração inteiro e disposição de partir. Começou entre hábitos, formação, missão, vida comunitária. Passou pelos caminhos da família agostiniana, pela terra amazônica, pelas águas e estradas da Diocese de Cametá, pelas comunidades simples onde o Evangelho costuma aparecer sem maquiagem.

Houve serviço. Houve formação. Houve governo. Houve entrega.

E houve também aquilo que toda vocação verdadeira conhece em algum momento: o mistério do recomeço.

Porque às vezes pensamos que discernir é escolher entre permanecer ou abandonar. Mas Deus raramente trabalha nesses termos. Muitas vezes, Ele não encerra uma vocação; Ele a transfigura.

Quando veio o desligamento da vida religiosa consagrada, talvez aos olhos externos parecesse um fechamento. Mas Deus, que escreve reto até em linhas que parecem curvas, já preparava outro capítulo.

A Eucaristia permaneceu.

A Liturgia permaneceu.

A Escritura permaneceu.

A busca de Deus permaneceu.

E quando o essencial permanece, nada está perdido.

Foi então que o Carmelo apareceu não como ruptura, mas como casa.

Não como substituição do passado, mas como sua maturação.

Como se o Senhor dissesse, com delicadeza carmelitana: “O caminho que te trouxe até aqui não estava errado; apenas ainda não havia terminado.”

E ali surgiu um novo chamamento vocacional secular.

Que palavra bonita: secular.

Porque lembra que a santidade não acontece fora do mundo, mas dentro dele.

O Carmelita Secular não abandona o século: atravessa-o com o coração voltado para Deus.

Professar pobreza sem fugir das responsabilidades.

Professar castidade como liberdade de amar ordenadamente.

Professar obediência sem renunciar à inteligência nem à maturidade.

Tudo isso no concreto dos dias.

Não entre paredes de clausura, mas no escritório, na rua, no estudo, nos projetos, no blog, nos podcasts, nas conversas comuns, nas buscas humanas, inclusive na abertura ao matrimônio.

Talvez esteja aí uma das maiores belezas do vosso caminho: descobrir que os votos não diminuíram a condição leiga; deram-lhe profundidade.

Porque o Batismo já continha tudo em semente.

Os votos vieram como resposta mais consciente ao dom primeiro.

No fim das contas, toda vocação cristã começa na mesma água.

E o Carmelo apenas ensinou um modo particular de beber dela.

Dois anos depois, talvez a pergunta não seja: “Fui fiel aos votos?”

Talvez a pergunta carmelita seja mais silenciosa:

Tenho permitido que os votos me tornem mais disponível para Deus?

Porque votos perpétuos não são um monumento erguido ao passado.

São uma porta aberta para o futuro.

E o curioso é que Deus continua chamando mesmo depois do “sim”.

Aliás, especialmente depois dele.

Então amanhã não parece dia de comemorar uma chegada.

Parece dia de acender novamente a pequena chama no alto do Monte Carmelo e repetir, com menos entusiasmo juvenil talvez, mas com mais verdade:

Eis-me aqui. Ainda aqui.

Dois anos.

Ainda em caminho.

Ainda aprendiz do silêncio.

Ainda filho da Igreja.

Ainda carmelita.

Ainda diante daquele Deus que continua falando “muitas vezes e de diversos modos” — e que, às vezes, escolhe dizer tudo através da perseverança humilde de um religioso secular.

Que Nossa Mãe e Irmã, a Senhora do Carmo continue me ensinando o passo manso e firme dos que caminham sem pressa, porque sabem para Quem caminham.

Ir. Alan Lucas de Lima, OTC
Carmelita Secular da Antiga Observância