Quando o mundo grita, Deus sussurra

Quando o sol se põe sobre as preocupações deste mundo, nasce a luz da eternidade.

A paz do coração segundo São João da Cruz

Há épocas em que o mundo parece ter desaprendido o silêncio.

As notícias chegam sem descanso. As preocupações se acumulam. As incertezas se multiplicam. O coração humano, tão facilmente abalado, é arrastado por uma correnteza de informações, medos e expectativas. Vivemos cercados por vozes que gritam urgência, catástrofe, conflito e ansiedade. E, no entanto, atravessando os séculos com a serenidade de quem contemplou o Eterno, São João da Cruz nos dirige uma palavra simples, mas revolucionária:

"Procure conservar o coração em paz; não se deixe inquietar por nenhum acontecimento deste mundo; lembre-se de que tudo há de passar."

Não se trata de uma fuga da realidade. Não é uma espiritualidade de alienação nem de indiferença. Pelo contrário. É o olhar de alguém que viu a realidade em sua profundidade mais verdadeira.

O santo carmelita conheceu perseguições, incompreensões, enfermidades e a solidão do cárcere. Falava da paz não porque a vida lhe tivesse sido fácil, mas porque havia descoberto um segredo: a alma que repousa em Deus encontra um centro que nenhuma tempestade consegue destruir.

O drama do homem moderno não é apenas o excesso de problemas. É ter perdido o centro. Corremos atrás de mil preocupações porque esquecemos o Único necessário. Queremos controlar o futuro, prever os acontecimentos, garantir seguranças absolutas. Mas o futuro pertence a Deus, e a segurança perfeita não existe neste mundo.

São João da Cruz nos convida a um desapego mais profundo do que o simples abandono dos bens materiais. Ele fala do desapego das inquietações, das angústias que alimentamos, dos medos que cultivamos e das falsas seguranças que construímos. Quantas vezes sofremos não pelo que está acontecendo, mas pelo que imaginamos que poderá acontecer?

O santo nos recorda que tudo passa.

Passam os sucessos e os fracassos.

Passam as glórias e os esquecimentos.

Passam as dores e as consolações.

Passam os impérios, as ideologias, as crises e as guerras.

Passa a própria vida.

Somente Deus permanece.

É justamente aqui que nasce a verdadeira paz. Não aquela paz frágil que depende das circunstâncias favoráveis, mas a paz sólida de quem sabe que sua vida está nas mãos do Senhor. A paz dos santos não era a ausência de cruzes. Era a certeza da presença de Deus no meio delas.

O Carmelo sempre compreendeu essa verdade. O silêncio exterior e interior não é um fim em si mesmo. É o espaço onde a alma aprende a escutar Aquele que fala sem fazer ruído. Enquanto o mundo grita, Deus continua sussurrando.

Mas para ouvir esse sussurro é preciso aquietar o coração.

A inquietação constante é uma forma sutil de confiar mais em nossas próprias forças do que na providência divina. O homem inquieto acredita, ainda que inconscientemente, que tudo depende dele. Já a alma contemplativa sabe que trabalha, luta, sofre e persevera, mas reconhece que acima de tudo existe uma Sabedoria que conduz a história.

Talvez a grande enfermidade espiritual do nosso tempo seja a incapacidade de permanecer em paz. Estamos conectados a tudo e desligados do essencial. Conhecemos os acontecimentos do mundo inteiro, mas muitas vezes ignoramos o estado da própria alma.

São João da Cruz nos convida a retornar ao interior. Não para nos fecharmos ao mundo, mas para encontrarmos Deus no lugar mais secreto do coração. Ali, onde as manchetes não chegam. Ali, onde os mercados não influenciam. Ali, onde os medos perdem força. Ali, onde a alma descobre que foi criada para a eternidade.

Quando compreendemos isso, as preocupações não desaparecem magicamente. Mas deixam de ocupar o trono que pertence somente a Deus.

O santo parece nos dizer hoje:

"Não entregues tua paz às circunstâncias. Não entregues tua alma às notícias. Não entregues teu coração aos temores. Tudo passa. Deus não passa."

E talvez seja exatamente essa a mensagem de que mais precisamos em nossos dias: aprender novamente a viver com os olhos na eternidade e os pés na terra; trabalhar sem ansiedade, sofrer sem desespero, esperar sem medo.

Porque no final, quando tudo o que é passageiro tiver desaparecido, restará apenas Aquele que sempre esteve presente.

O Deus silencioso.

O Deus fiel.

O Deus que permanece.

Por seu irmão carmelita secular da Antiga Observância, B.