Quando Deus cala as palavras e acende o fogo
E então Deus chega.
Não o Deus das definições frias, mas o Deus vivo, abrasador, silencioso, terrível em ternura. O Deus que atravessa a alma como fogo atravessa o ferro, sem destruir sua forma, mas mudando sua natureza. Foi esse abismo que São João da Cruz contemplou ao escrever o prólogo do Cântico Espiritual. E convenhamos: o velho carmelita não escreve como professor apenas. Ele escreve como quem voltou de um incêndio divino.
Vivemos numa época que idolatra explicações. Tudo precisa ser reduzido a esquemas, cortes rápidos, frases mastigáveis, espiritualidade instantânea para consumo rápido. Mas João da Cruz vem como um trovão no claustro e nos lembra de algo que o mundo moderno desaprendeu: Deus é maior que a linguagem. Muito maior.
O santo afirma que as palavras místicas “parecem dislates”. Claro que parecem. O homem acostumado apenas ao raciocínio seco sempre estranhará a linguagem do amor divino. O mesmo ocorre no Cântico dos Cânticos: para quem olha apenas com olhos carnais, tudo parece exagero poético. Mas para quem já sofreu a ausência de Deus na noite escura… ah, meu irmão… cada verso vira sangue, lágrima e vinho espiritual.
Existe um drama silencioso dentro da Igreja contemporânea: muita informação religiosa e pouca combustão interior. Muito comentário sobre Deus e pouca experiência de Deus. Muita teologia acadêmica que sabe dissecar conceitos, mas já não sabe ajoelhar-se em silêncio diante do Mistério. João da Cruz não despreza a teologia escolástica — seria injusto dizer isso — mas ele coloca cada coisa em seu devido lugar. Há verdades que se entendem pela inteligência; outras só se compreendem quando a alma arde.
E aqui está o ponto mais desconcertante do prólogo: a sabedoria mística não precisa ser plenamente entendida para produzir amor. Isso é revolucionário. Num mundo obcecado por controle racional, São João recorda que a alma pode amar antes de compreender. A fé não é posse; é entrega. Não é dominar Deus intelectualmente, mas consentir em ser possuído por Ele.
Porque entrar profundamente na vida interior é morrer para a tirania do ego. E ninguém morre facilmente. O homem contemporâneo quer um Cristo que explique tudo, organize tudo, responda tudo em dez passos objetivos. Mas o Cristo de João da Cruz frequentemente responde com noite, silêncio e sede. Não porque seja cruel. Mas porque deseja purificar o amor.
O místico carmelita compreendeu algo terrível e belo: Deus muitas vezes se esconde justamente para ser procurado mais profundamente. A ausência aparente de Deus não é abandono; pode ser pedagogia divina. A noite escura não é o túmulo da fé — é o ventre onde nasce o amor puro.
E aqui está a ferida mais profunda: poucos querem realmente Deus. Muitos querem consolações, respostas, segurança emocional, experiências religiosas agradáveis. Deus, porém, deseja dar-Se inteiro. E isso custa tudo.
Por isso as palavras do santo parecem excessivas. Porque o amor divino é excessivo. O amor de Deus não cabe em linguagem domesticada. Ele rompe margens. Desorganiza certezas. Faz o intelecto ajoelhar-se. O verdadeiro encontro com Deus nunca deixa o homem intacto.
Talvez seja exatamente isso que falta ao nosso tempo: santos queimados pelo Absoluto. Homens e mulheres capazes de falar não apenas “sobre” Deus, mas “a partir” de Deus. Pessoas cuja alma carregue aquele peso de eternidade que transforma até o silêncio em pregação.
São João da Cruz nos olha hoje como um velho profeta do deserto e parece sussurrar:
“Você conhece conceitos sobre Deus… mas já permitiu que Deus ferisse seu coração?”
Essa pergunta vale mais que mil tratados.
Por seu Irmão Carmelita Secular da Antiga Observância, B.