Cristãos na Terra Santa diminuem e futuro da presença cristã preocupa

Cristãos na Terra Santa: presença diminui e futuro preocupa

A situação dos cristãos na Terra Santa voltou ao centro das atenções após um forte testemunho do abade beneditino Nikodemus Schnabel. Em discurso dirigido à Aid to the Church in Need, o religioso descreveu uma realidade dura: a presença cristã na terra onde nasceu o cristianismo está diminuindo rapidamente.

Segundo ele, muitos ainda imaginam a Terra Santa como um “coração vibrante” da fé cristã. Porém, a realidade atual é outra. Hoje, todos os cristãos juntos representam menos de 2% da população da região.

“Se você pensa que este é um Eldorado do cristianismo, a realidade é diferente”, afirmou o abade.

Uma Igreja pequena, mas espiritualmente gigantesca

Apesar dos números reduzidos, a importância espiritual da Igreja na região permanece imensa. É ali que estão lugares centrais da fé cristã:

  • Jerusalém
  • Belém
  • Nazaré


O paradoxo é evidente: justamente os lugares ligados à Encarnação, à Paixão e à Ressurreição de Cristo correm o risco de perder sua população cristã originária.

Segundo Schnabel, mesmo em regiões extremamente secularizadas da Europa, como a República Tcheca ou partes da antiga Alemanha Oriental, a proporção de cristãos ainda é maior do que em partes da Terra Santa.

Jerusalém: diversidade e fragilidade

O abade destacou que a realidade cristã em Jerusalém é marcada por enorme diversidade. Existem atualmente 13 Igrejas históricas:

  • seis católicas;
  • sete não católicas.


Essa pluralidade litúrgica e histórica revela uma riqueza espiritual impressionante. Entretanto, por trás da beleza das tradições, existe uma comunidade cada vez menor e mais vulnerável.

A conferência episcopal regional — que inclui Israel, Palestina, Jordânia e Chipre — possui 24 membros, refletindo a complexidade religiosa local. Mesmo assim, a presença cristã continua diminuindo.

Os grupos que sustentam a presença cristã

De acordo com o abade, a Igreja Latina na região é sustentada principalmente por três grupos.

1. Cristãos palestinos de língua árabe

São comunidades presentes há séculos. Incluem:

  • cidadãos israelenses;
  • residentes de Jerusalém;
  • cristãos da Cisjordânia;
  • a pequena comunidade cristã de Gaza.


Em relação à Faixa de Gaza, Schnabel descreveu uma situação particularmente dramática, marcada pela guerra, pelo bloqueio e também pela pressão do Hamas.

2. Católicos de língua hebraica

Trata-se de uma comunidade pequena, porém em crescimento.

3. Migrantes e solicitantes de asilo

Este é hoje o maior grupo católico da região, ultrapassando 100 mil pessoas. Muitos vivem em situação precária, enfrentando exploração trabalhista e insegurança social.

Crise econômica acelera o êxodo

Um dos pontos mais preocupantes apresentados pelo abade é a crise econômica.

Segundo ele, cerca de 60% dos cristãos árabes dependem do turismo religioso para sobreviver. Contudo, desde 2019, sucessivas crises devastaram o setor:

  • pandemia;
  • conflitos armados;
  • redução das peregrinações;
  • instabilidade política.


O resultado é um êxodo crescente.

“As pessoas vão embora porque não veem futuro”, afirmou.


Moradia e geração de empregos aparecem hoje como prioridades absolutas para impedir o desaparecimento gradual dessas comunidades.

Uma Igreja em meio ao conflito

Em meio à polarização política, o abade resumiu a posição da Igreja local de forma direta:

“Não somos nem pró-Israel nem pró-Palestina, mas pró-humano.”


A frase reflete a delicada missão dos cristãos na região: permanecer próximos de todos os povos em meio à guerra e às divisões.

Schnabel também recordou episódios ocorridos após os ataques de 7 de outubro de 2023, mencionando cuidadores católicos que morreram ao se recusarem a abandonar idosos confiados aos seus cuidados.

Cresce a hostilidade contra cristãos

O religioso ainda alertou para o aumento de ataques contra cristãos promovidos por grupos extremistas. Entre os casos relatados estão:

  • cusparadas;
  • vandalismo;
  • pichações;
  • incêndios criminosos.


Ele criticou setores ultranacionalistas e lamentou a normalização desse comportamento em alguns ambientes políticos.

Ao mesmo tempo, fez questão de afirmar que muitos judeus israelenses também condenam esses abusos e defendem a presença cristã na região.

O risco de transformar os Lugares Santos em museus

O alerta final do abade é talvez o mais forte.

Sem cristãos vivendo em cidades como Jerusalém, Belém e Nazaré, os Lugares Santos podem acabar reduzidos a monumentos históricos e turísticos, sem vida comunitária real.

E então resta a pergunta inevitável:

O que será da Terra Santa sem os cristãos?

Como lembrou Schnabel:

“Não há Anunciação sem Nazaré, não há Natal sem Belém, não há Páscoa sem Jerusalém.” 

Por Ir. Alan Lucas de Lima, OTC
Carmelita Secular da Antiga Observância