Entre a Cruz esvaziada e os portões fechados
Diário de um Católico na Contrarrevolução – Parte 58
Há dias em que não são necessários grandes tratados para
entender o rumo das coisas. Basta observar os sinais. Pequenos gestos, símbolos
aparentemente inofensivos, decisões administrativas… tudo fala. E quando se
juntam, contam uma história — não em gritos, mas em sussurros persistentes.
A semana que passou foi assim. Cinco acontecimentos
distintos, cinco manchetes dispersas. Mas, vistas à luz da fé recebida — não
inventada, não adaptada, mas transmitida — revelam um padrão inquietante: uma
tentativa contínua de preservar a glória da Ressurreição enquanto se dilui o
escândalo da Cruz.
E sem Cruz, não há Cristianismo. Há outra coisa. Mais leve.
Mais aceitável. E perigosamente mais vazia.
I. A Cruz sem pregos: quando o símbolo começa a falar errado
Apresentaram ao mundo uma nova férula. E junto com ela, uma
explicação cuidadosamente construída: Cristo não mais preso, mas glorificado.
Não mais sofrendo, mas elevando-se.
Bonito? Talvez.
Católico? Eis a pergunta.
Porque Nosso Senhor não foi glorificado na Cruz. Ele
foi imolado nela.
A Ressurreição não apaga a Paixão. Ela a confirma.
Quando se retira o sofrimento visível, quando se suaviza o
drama do Calvário, não se está apenas fazendo uma escolha estética — está-se
ensinando uma teologia. E uma teologia perigosa: a de um Cristo que vence sem
sofrer, que redime sem sangrar, que salva sem exigir.
A advertência ecoa, firme, como um sino antigo: afastar-se
da representação do Cristo sofredor é afastar-se do coração do sacrifício.
No fundo, é uma tentativa sutil de tornar a Cruz...
apresentável.
E a Cruz nunca foi feita para ser confortável.
II. Ouro para uns, portas fechadas para outros
Enquanto isso, em outro canto da mesma Igreja, monta-se um
sistema elegante de proximidade: grandes doadores, grandes acessos. Encontros
privados. Lugares reservados. Relações cuidadosamente mediadas pelo valor da
contribuição.
Nada de novo sob o sol? Talvez.
Mas há algo de profundamente dissonante quando isso acontece
ao mesmo tempo em que peregrinos — católicos, penitentes, rezando — são
barrados na porta de um santuário mariano.
Aqui a ironia não pede licença, ela se impõe:
- Quem financia, entra.
- Quem reza, espera.
- Quem insiste na tradição, fica do lado de fora.
Fala-se tanto em Igreja de portas abertas… mas parece que
algumas chaves continuam seletivas.
E isso revela mais do que uma falha pastoral. Revela uma
mentalidade.
Uma Igreja que acolhe o mundo com entusiasmo, mas hesita
diante daqueles que ainda se ajoelham com convicção, começa a inverter sua
própria missão.
III. O “alívio” que custou caro
Dez anos depois, finalmente alguém disse em voz alta: houve
mudança.
Chamaram de “avanço decisivo”. Falaram em “suspiro de
alívio”.
E aqui está o ponto: não foi um mal-entendido. Não foi uma
leitura equivocada. Foi intenção.
Quando se permite, ainda que em “certos casos”, aquilo que
antes era claramente vedado, não se trata apenas de pastoral. Trata-se de
prática que reconfigura a doutrina vivida.
Durante anos, repetiu-se: “nada mudou”.
Agora, admite-se: mudou — e foi bom.
Mas bom para quem?
A linguagem ajuda a esconder, mas não a apagar a realidade.
“Discernimento”, “casos concretos”, “vida real”… palavras suaves para decisões
duras.
No fim, a pergunta permanece, incômoda como sempre:
Se tudo pode ser relativizado na prática, o que ainda
permanece absoluto?
IV. Uma Igreja cada vez mais horizontal
As novas nomeações seguem o mesmo ritmo do mundo: migração,
clima, desenvolvimento, estruturas sociais.
Tudo isso pode ser legítimo. Tudo isso pode ser necessário.
Mas há uma diferença entre iluminar o mundo com a fé e
substituir a fé pelas pautas do mundo.
Quando a linguagem da Igreja começa a se confundir com a de
organismos internacionais, algo se deslocou.
Pouco a pouco:
- o pecado desaparece do vocabulário,
- a conversão vira opção,
- o juízo se torna constrangimento,
- e a salvação das almas… um tema secundário.
Não é uma negação explícita. É mais sutil.
É um soterramento.
A verticalidade — Deus, graça, eternidade — vai sendo
coberta pela horizontalidade — sociedade, estrutura, processo.
E o resultado? Uma Igreja eficiente, organizada… e
espiritualmente anêmica.
V. O padrão que não pode ser ignorado
Isolados, esses fatos podem ser explicados. Justificados.
Amenizados.
Juntos, eles falam.
Não é coincidência. É direção.
Uma direção que mantém a linguagem cristã, mas ajusta seu
conteúdo. Que conserva os símbolos, mas altera seu significado. Que fala de
misericórdia, mas evita o arrependimento.
Uma tentativa de chegar à Páscoa sem passar pelo Calvário.
Conclusão: a fidelidade que resiste
Mas aqui está o ponto que não pode ser esquecido:
A Igreja não nasceu da popularidade. Nasceu do Sangue.
O católico consciente não precisa de teorias conspiratórias.
Precisa de memória.
A resposta não está em abandonar. Nem em se calar.
Está em permanecer — firmemente, serenamente, teimosamente —
onde a Igreja sempre esteve:
Aos pés da Cruz.
Mesmo quando tentam escondê-la.
Por um Católico consciente e atento ao cenário eclesial do Brasil e do Mundo.