Quaresma: o drama silencioso da alma que se afasta de Deus — à luz da mística de São João da Cruz
Introdução
A tradição espiritual da Igreja
sempre compreendeu a Quaresma como um tempo privilegiado de retorno a Deus.
Mais do que um simples período litúrgico marcado por práticas penitenciais,
trata-se de um itinerário interior no qual o cristão é convidado a examinar o
estado de sua alma diante do Senhor. O jejum, a oração e a penitência não
possuem apenas um caráter disciplinar; eles constituem instrumentos espirituais
destinados a libertar o coração humano de tudo aquilo que o impede de amar a
Deus com pureza.
Nesse contexto, a doutrina
mística de São João da Cruz oferece uma luz particularmente profunda. O grande
mestre carmelita ensina que o afastamento de Deus não deve ser compreendido em
termos meramente exteriores. A verdadeira distância entre a alma e Deus não é
geográfica nem social, mas espiritual. Ela nasce quando o coração humano passa
a se apegar às criaturas de modo desordenado, desviando-se do amor absoluto que
deve ser dirigido ao Criador.
Nas suas obras fundamentais —
especialmente Subida do Monte Carmelo e Noite Escura — o santo descreve com
extraordinária precisão os mecanismos espirituais que conduzem a alma ao
afastamento de Deus. Para ele, o problema central da vida espiritual não está
apenas no pecado manifesto, mas nos inúmeros apegos interiores que mantêm o
coração humano preso às realidades criadas.
A pedagogia divina, segundo o
ensinamento joanino, consiste precisamente em libertar a alma dessas prisões
interiores. Deus conduz progressivamente o ser humano por um caminho de
purificação, no qual os afetos desordenados são gradualmente purificados para
que o amor divino possa ocupar plenamente o centro da vida espiritual.
Dessa forma, refletir sobre os
níveis de afastamento de Deus à luz da doutrina de São João da Cruz torna-se
particularmente oportuno neste tempo quaresmal. Trata-se de um convite a
penetrar no interior da própria consciência e a discernir quais apegos ainda
impedem a alma de caminhar livremente rumo à união com Deus.
1. O primeiro afastamento: o apego aos apetites sensíveis
O primeiro nível de afastamento
espiritual descrito por São João da Cruz encontra-se no domínio dos sentidos. A
alma humana, criada para amar o infinito, frequentemente se deixa prender pelas
realidades sensíveis e passageiras. Bens materiais, prazeres, honras e
confortos tornam-se gradualmente objetos de desejo que ocupam o coração humano.
O santo carmelita denomina esses
movimentos interiores de apetites. Em sua análise espiritual, os
apetites não são apenas desejos naturais, mas inclinações desordenadas que
desviam a alma do seu verdadeiro fim. Ele afirma de modo contundente: “Qualquer apego, por pequeno que seja, é suficiente para impedir a alma de
chegar à liberdade da união divina” (SÃO JOÃO DA CRUZ, Subida do Monte
Carmelo, I, 11).
A força desses apegos reside
justamente em sua aparente insignificância. Muitas vezes não se trata de
grandes pecados, mas de inclinações sutis que vão enfraquecendo gradualmente a
liberdade interior da pessoa. A alma, ao dividir seu amor entre Deus e as
criaturas, perde a simplicidade necessária para a plena união com o Criador.
Em uma das imagens mais
conhecidas de sua obra, o santo afirma que um pássaro permanece preso tanto por
um fio grosso quanto por um fio fino. Assim também ocorre com a alma: “Não
importa que o fio seja grosso ou fino; enquanto não se romper, o pássaro não
pode voar” (SÃO JOÃO DA CRUZ, Subida do Monte Carmelo, I, 11).
A prática quaresmal do jejum
adquire, portanto, um profundo significado espiritual. Ao limitar
voluntariamente os apetites sensíveis, o cristão inicia um processo de
libertação interior. Não se trata apenas de renunciar a determinados prazeres,
mas de restaurar a ordem do amor, colocando novamente Deus no centro da vida.
2. O segundo afastamento: os apegos espirituais
À medida que a alma avança na
vida de oração, surge um tipo de obstáculo ainda mais sutil: os apegos
espirituais. Diferentemente dos apetites sensíveis, esses apegos não estão
ligados diretamente aos prazeres materiais, mas às próprias experiências religiosas.
Uma pessoa pode dedicar-se
intensamente à oração, à leitura espiritual e às práticas devocionais e, ainda
assim, permanecer espiritualmente presa a si mesma. Isso acontece quando a alma
passa a buscar os consolos espirituais em vez do próprio Deus.
São João da Cruz adverte que
muitas pessoas se apegam às emoções religiosas, às lágrimas na oração ou às
experiências interiores que produzem sensação de fervor. Contudo, tais
experiências não constituem o verdadeiro centro da vida espiritual. O santo escreve:
“Muitos procuram mais os gostos espirituais do que a pureza do amor de Deus”
(SÃO JOÃO DA CRUZ, Subida do Monte Carmelo, II, 7).
Esse tipo de apego revela um amor
ainda imperfeito. A alma ama aquilo que recebe de Deus, mas não necessariamente
o próprio Deus em si. Quando as consolações desaparecem, a pessoa sente-se
desanimada e pensa que Deus a abandonou.
É nesse momento que se manifesta
a pedagogia divina descrita na obra Noite Escura. Deus conduz a alma à chamada noite
dos sentidos, na qual as consolações espirituais são retiradas. A oração se
torna árida e os sentimentos religiosos desaparecem.
Contudo, essa aridez não
significa ausência de Deus. Pelo contrário, trata-se de uma purificação
necessária para que a alma aprenda a amar a Deus de forma mais pura. O próprio
santo explica: “Deus priva a alma do gosto sensível para conduzi-la a um
amor mais puro e mais espiritual” (SÃO JOÃO DA CRUZ, Noite Escura,
I, 9).
Assim, a noite espiritual
torna-se um instrumento pedagógico divino, destinado a libertar a alma do apego
às experiências espirituais e conduzi-la à fé pura.
3. O afastamento mais profundo: a vontade própria
O nível mais profundo de
afastamento espiritual encontra-se na vontade humana. Enquanto os apetites
sensíveis e espirituais pertencem ao campo dos desejos e das emoções, a vontade
representa o centro da liberdade da pessoa.
Segundo São João da Cruz, a união
perfeita com Deus só se torna possível quando a vontade humana se conforma
plenamente com a vontade divina. Enquanto a pessoa insiste em manter seus
próprios projetos e preferências como medida última de suas escolhas, permanece
espiritualmente distante de Deus.
O santo expressa essa verdade de
maneira radical ao afirmar: “Para vir a possuir tudo, não queiras possuir
coisa alguma” (SÃO JOÃO DA CRUZ, Subida do Monte Carmelo, I, 13).
Essa frase resume o coração da
espiritualidade carmelita. O caminho da união com Deus passa necessariamente
pelo desapego interior e pela renúncia à autossuficiência espiritual. A alma
precisa aprender a abandonar sua própria vontade para aderir plenamente à
vontade divina.
Nesse processo, Deus conduz a
pessoa àquilo que João da Cruz chama de noite do espírito. Trata-se de
uma purificação muito mais profunda do que a noite dos sentidos. Nela, a alma
experimenta uma profunda obscuridade interior que atinge inclusive sua
inteligência e sua capacidade de compreender os caminhos de Deus.
O objetivo dessa purificação é
libertar a pessoa do orgulho espiritual e da confiança excessiva em si mesma.
Somente quando a alma reconhece sua total dependência de Deus é que pode
abrir-se plenamente à ação transformadora da graça.
Conclusão
A doutrina espiritual de São João
da Cruz revela que o afastamento de Deus não ocorre de maneira abrupta. Ele se
desenvolve progressivamente por meio de apegos que se instalam no interior do
coração humano.
Os apetites sensíveis, os apegos
espirituais e a resistência da vontade própria constituem diferentes níveis
desse afastamento. Cada um deles representa um obstáculo ao amor puro que deve
unir a alma ao seu Criador.
Contudo, a mesma doutrina revela
também o caminho da esperança. Deus não abandona a alma que se afastou; pelo
contrário, Ele a conduz por um processo de purificação que visa restaurar a
liberdade interior e preparar a união com o amor divino.
Neste tempo quaresmal, a Igreja
convida cada fiel a entrar nesse itinerário espiritual. Examinar os próprios
apegos, aceitar as purificações interiores e buscar a conformidade com a
vontade de Deus são passos essenciais no caminho da conversão.
Assim, a Quaresma torna-se uma
verdadeira peregrinação interior: um retorno progressivo da alma àquele que é
sua origem e seu fim último — o próprio Deus.
Referências Bibliográficas
CRUZ, João da. Subida do Monte
Carmelo. Petrópolis: Vozes, 2002.
CRUZ, João da. Noite Escura.
Petrópolis: Vozes, 2002.
CRUZ, João da. Cântico
Espiritual. Petrópolis: Vozes, 2002.
CRUZ, João da. Chama Viva de
Amor. Petrópolis: Vozes, 2002.
MARÍN, Antonio Royo. Teologia da
Perfeição Cristã. São Paulo: Ecclesiæ, 2015.
TANQUEREY, Adolphe. Compêndio de Teologia Ascética e Mística. São Paulo: Herder, 1962.