O Evangelho que Sangra nas Montanhas do Líbano

Há momentos em que o Evangelho deixa de ser apenas proclamado no altar e começa a acontecer diante dos nossos olhos.

Hoje foi um desses momentos.

O trecho do Evangelho de Lucas narra aquela cena dura em que Jesus Cristo recorda que nenhum profeta é bem recebido em sua própria terra. Ele menciona a viúva estrangeira socorrida por Profeta Elias e o leproso curado por Naamã através do ministério de Profeta Eliseu.

O povo se enfurece.
Levantam-se.
Querem jogá-lo no precipício.

O Evangelho é assim: quando a verdade é dita, ela rasga o coração do mundo.

E hoje essa verdade voltou a ecoar nas montanhas do Líbano.

Recebemos a notícia do martírio do sacerdote maronita Pe. Pierre al-Rahi, morto na aldeia cristã de Qlayaa, no sul do país. Ele havia se recusado a abandonar o povo, mesmo depois das ordens do exército de Israel para que a região fosse evacuada.

Ele poderia ter partido.

Mas um pastor não abandona o rebanho.

Enquanto socorria civis feridos e administrava a unção dos enfermos numa casa atingida por artilharia, um disparo atingiu o local. Ainda havia gente ferida, gente chorando, gente esperando uma palavra de esperança. Depois veio um segundo disparo.

Ali, naquele mesmo lugar onde ele levava o consolo de Deus, o sacerdote tombou junto com outras pessoas.

Morreu como morrem os pastores verdadeiros: entre o povo.

Isso não é apenas tragédia.
Isso tem outro nome dentro da tradição cristã: testemunho.

A palavra mártir significa exatamente isso.

Testemunha.

E há algo profundamente quaresmal nisso tudo.

A Quaresma nos lembra que o caminho de Jesus Cristo não foi um caminho de conforto, mas de fidelidade. Fidelidade até o fim. Fidelidade quando o perigo cresce. Fidelidade quando fugir seria mais fácil.

Foi exatamente essa fidelidade que manteve o padre Pierre em Qlayaa.

Ele quis ficar com o povo.
Lutou pelo povo.
E morreu pelo povo.

Há uma dignidade antiga nisso, algo que lembra as histórias mais profundas do Oriente.

A terra libanesa sempre teve essa alma.

Ali convivem cristãos, muçulmanos e drusos. Ali a identidade não nasce apenas da religião, mas da própria montanha, da terra, das aldeias que resistem há séculos entre pedras e oliveiras.

Ninguém arranca um libanês de sua terra.

Ninguém.

Essa convicção parece tão antiga quanto os cedros.

Enquanto eu pensava nisso, veio à mente a voz do grande poeta do Líbano, Khalil Gibran.

É impossível não imaginar como ele falaria de um homem assim.

Talvez dissesse que há almas que não pertencem apenas a si mesmas, mas às montanhas que as viram nascer. Talvez escrevesse que o sangue de um justo derramado na terra não é derrota, mas semente.

Porque o Líbano tem essa estranha capacidade de permanecer.

Impérios passaram.
Exércitos vieram e foram.
Guerras rasgaram suas colinas.

Mas o país continua ali, como as montanhas do Levante: firme, silencioso, olhando o tempo passar.

E no meio dessas montanhas, hoje, um padre caiu.

Caiu enquanto fazia aquilo que um sacerdote faz desde os primeiros séculos da Igreja: levar Deus aos feridos.

Há algo de profundamente místico nisso.

Enquanto os homens disputam fronteiras, o Reino de Deus continua se manifestando nos gestos simples de quem socorre, de quem consola, de quem permanece.

O mundo mede vitória por território.

O Evangelho mede vitória por amor.

E um homem que se recusa a abandonar o seu povo, mesmo diante da morte, já entrou numa história que nenhuma artilharia consegue destruir.

A Quaresma nos chama exatamente a isso: olhar para a cruz sem desviar os olhos.

Porque toda cruz carregada por amor já aponta, silenciosamente, para a manhã da Ressurreição.

Hoje as montanhas do Líbano choram.

Mas também rezam.

E quando a terra reza, o céu escuta.

Por seu Irmão Carmelita Secular da Antiga Observância B