Entre ídolos e silêncios: quando Roma parece esquecer Pedro
Diário de um Católico na Contrarrevolução – Parte 53
Há momentos na história da Igreja em que o coração do
católico parece atravessar uma espécie de Sexta-feira Santa prolongada. Não é a
fé que vacila — a fé permanece firme como rocha —, mas o cenário ao redor se
torna estranho, quase irreconhecível.
É o que muitos de nós sentimos quando olhamos para certos
acontecimentos recentes vindos de Roma.
Não se trata de rebeldia. Não se trata de espírito
cismático. Trata-se de algo muito mais antigo e mais católico: o amor à
Tradição.
Porque quem ama a Igreja não fecha os olhos quando vê a
poeira acumulando sobre o altar.
O episódio que ninguém esqueceu
Poucos fatos recentes simbolizam tanto essa confusão quanto
a presença de uma imagem associada à Pachamama em cerimônias ligadas ao
Sínodo da Amazônia.
A cena era quase surreal.
Uma figura indígena sendo apresentada em ritos simbólicos
nos jardins do Vaticano. Depois, a imagem aparecendo em ambientes próximos à Basílica
de São Pedro, diante do túmulo do príncipe dos apóstolos.
Para muitos católicos simples — aqueles que rezam o terço
todos os dias e aprenderam o catecismo com os avós — a sensação foi imediata: algo
está errado.
Não é preciso um doutorado em teologia para perceber que a
Igreja sempre foi extremamente cuidadosa com qualquer coisa que pudesse parecer
idolatria.
Desde os primeiros mártires que preferiram morrer a queimar
incenso diante de ídolos romanos.
A clareza que hoje parece faltar
Foi nesse contexto que vozes críticas começaram a surgir.
Entre elas, a do padre James Altman, conhecido por
falar de forma direta, sem as ambiguidades diplomáticas que hoje parecem
dominar tantos discursos eclesiásticos.
Alguns o acusaram de exagero. Outros de coragem.
Mas o ponto principal não é o tom do padre — é a pergunta
que permanece no ar:
Quando a Igreja começou a ter vergonha da clareza?
Durante dois mil anos o cristianismo teve uma postura
simples diante do paganismo: conversão, não acomodação.
O estranho paradoxo do nosso tempo
A ironia é quase trágica.
Enquanto símbolos pagãos podem aparecer em contextos
eclesiais sem grande escândalo institucional, a antiga liturgia romana — a
Missa que alimentou santos por séculos — passa a ser tratada como um problema
pastoral.
O documento Traditionis Custodes restringiu
justamente aquilo que durante gerações foi o coração visível da fé católica: a Missa
Tridentina.
A missa que moldou a civilização cristã.
O problema não é pastoral. É teológico.
Outro exemplo dessa confusão aparece na discussão provocada
pelo documento Fiducia Supplicans.
A intenção declarada é pastoral: permitir bênçãos informais
a pessoas em situações irregulares.
Mas o problema nunca foi simplesmente pastoral.
A Igreja sempre soube que gestos têm significado
teológico.
E quando essas mensagens ficam ambíguas, o povo fiel sente —
quase instintivamente — que a clareza da fé está sendo diluída.
O catolicismo nunca foi uma religião de ambiguidades.
Ele é uma religião de Credo.
O católico comum percebe
Talvez o mais curioso nessa crise seja quem realmente
percebe o problema.
Não são apenas teólogos ou comentaristas.
São os fiéis simples.
Eles não estão pedindo revoluções.
Estão pedindo continuidade.
Nada mais.
A esperança da Contrarrevolução
Mas aqui entra a parte mais interessante da história.
Toda vez que a Igreja atravessou períodos de confusão, Deus
levantou santos.
A crise ariana parecia invencível — até surgir Athanasius
de Alexandria.
A decadência moral da Igreja medieval parecia irreversível —
até aparecer Francisco de Assis.
A ruptura protestante parecia destruir a unidade cristã —
até surgir Pio V e o Concílio de Trento.
Deus escreve direito até nas linhas tortas da história.
E talvez estejamos vivendo exatamente um desses momentos.
Permanecer
O católico da Contrarrevolução sabe que sua missão não é
destruir a Igreja — é permanecer.
Mesmo quando o cenário parece estranho.
Mesmo quando Roma parece falar uma língua que nossos avós
não reconheceriam.
Porque no fim das contas, a Igreja não pertence aos
administradores do momento.
Ela pertence a Cristo.
E Cristo já prometeu algo que nenhum documento, nenhuma moda
pastoral e nenhuma crise histórica pode revogar:
“As portas do inferno não prevalecerão”.
Até lá, seguimos.
E guardando a chama da Tradição acesa — mesmo quando o vento
sopra forte.
Por um Católico consciente e atento ao cenário eclesial do Brasil e do Mundo