Um Bispo chega, a Igreja se reconhece

Foto: PASCOM Diocesana da Campanha

Há homilias que apenas acompanham um rito. Outras, raras, revelam uma eclesiologia, uma espiritualidade e um programa de vida pastoral. A homilia de Dom Walter Jorge, na Missa de Posse como 8º bispo da Diocese da Campanha, pertence claramente a este segundo grupo. Ela não foi um discurso de chegada, mas um ato de pertença; não um texto de ocasião, mas uma confissão pública de fé e de amor à Igreja.

Desde as primeiras palavras, o centro é explicitado sem ambiguidades: Deus revelado em Jesus Cristo, vivo, atuante, presente no meio do seu povo. Não um Deus do passado, nem um Deus reduzido a ideias ou livros, mas o Deus que sela continuamente sua aliança na Eucaristia. Esta afirmação não é decorativa; ela estabelece o critério de tudo o que vem depois. A Igreja só tem sentido enquanto corpo reunido em torno deste mistério. Fora disso, perde-se.

A leitura bíblica proposta estrutura uma visão clássica e exigente do ministério episcopal. O pastor, à imagem do Pastor supremo, é chamado a reunir, curar, buscar e sustentar. Não apenas a administrar o rebanho já organizado, mas a enfrentar a dispersão, as trevas e as feridas do tempo. O coração de pastor, repetido com insistência, aparece como a forma concreta do sacerdócio ministerial. Quando esse coração se perde, advertiu Dom Walter, surgem a tristeza, a melancolia e a esterilidade espiritual. Trata-se de uma leitura profundamente espiritual, mas também realista, do desgaste que ameaça o ministério quando ele se desconecta do amor primeiro.

A eclesiologia que emerge é nitidamente conciliar, sem rupturas artificiais. Igreja Povo de Deus, sim; mas também Igreja estruturada, sacramental, enraizada na sucessão apostólica. A sinodalidade, apresentada como caminho necessário para o século XXI, não aparece como substituição da autoridade, mas como forma evangélica de exercê-la: escuta paciente, discernimento comum, obediência ao Espírito. Trata-se de uma visão madura, que evita tanto o clericalismo quanto a diluição da identidade católica.

A homilia ganha densidade particular quando aborda os desafios do tempo presente. Inteligência artificial, autoritarismos, desigualdades sociais não são citados como slogans, mas como sinais de um mundo que avança tecnicamente enquanto retrocede humanamente. A resposta proposta não é fuga nem acomodação, mas uma Igreja capaz de iluminar, fermentar e salgar a história. Aqui, a missão não é opcional: ela define a própria identidade eclesial.

Ao falar de riqueza, partilha e pobreza, Dom Walter assume com clareza a tradição da Doutrina Social da Igreja. A capacidade de gerar bens é reconhecida como dom, mas um dom que gera responsabilidade diante de Deus e dos irmãos. A naturalização da miséria e das periferias é denunciada como pecado contra o Deus Pai de todos. Não se trata de discurso ideológico, mas de fidelidade ao Evangelho que pede contas do uso dos talentos recebidos.

Outro elemento decisivo é a valorização da história de santidade da Diocese da Campanha. Nhá Chica, Padre Victor, Madre Teresa Margarida e Dom Othon não são lembrados como memória afetiva, mas como prova de que o Reino de Deus já germinou abundantemente nesta terra. Um bispo que reconhece a santidade que o precede se coloca corretamente como servidor de uma obra maior que ele.

Talvez o ponto mais revelador da homilia seja a confissão humilde de Dom Walter sobre os próprios limites. Inspirado em Santa Teresinha, ele se apresenta não como águia, mas como alguém que aprende olhando para o voo alto. Ao pedir para ser cercado por pessoas que o desinstalem, que o empurrem para os pobres e para mais perto de Cristo, o novo bispo revela uma compreensão profundamente evangélica do governo pastoral: ninguém conduz a Igreja sozinho.

A Diocese da Campanha acolhe, assim, não apenas um novo bispo, mas um pastor que chega consciente do peso da missão e apaixonado pela Igreja que ama desde a juventude. Em tempos de superficialidade e polarizações, essa homilia soa como palavra densa, enraizada, capaz de gerar comunhão e esperança.

Que tudo se faça por Jesus e pelo Evangelho. Eis o critério. O resto é acessório.

Por seu Irmão Carmelita Secular da Antiga Observância, B.