Uma missa latina para as câmeras, enquanto Leão XIV diz que a velha fé acabou

Diário de um Católico na Contrarrevolução — Parte 26

Roma, o palco e o véu

Há algo de terrivelmente simbólico em ver o Cardeal Burke caminhar sob as colunas de Bernini, conduzindo a Missa de sempre no coração de uma Roma que finge não mais acreditar nela. É como assistir a um velho general desfilar com o uniforme intacto diante de um império que já trocou o estandarte por slogans. O incenso sobe, as câmeras disparam, e os repórteres suspiram: “Que bonito!”. Mas a beleza, quando separada da verdade, é só maquiagem litúrgica.

Enquanto isso, a poucos metros dali, Leão XIV sorri, fala em “inclusão”, prega que “ninguém possui toda a verdade” e abençoa um jubileu de “equipes sinodais”. O contraste é tão grotesco que parece proposital: um altar voltado a Deus e outro voltado para o homem, lado a lado, como se fossem compatíveis. Roma sempre foi mestra em encenar paradoxos. Agora, aperfeiçoou a arte de canonizar a contradição.

A beleza e a negação

Permitir uma Missa Tridentina na Basílica de São Pedro, depois de anos de perseguição e restrições, foi apresentado como “sinal de reconciliação”. Mas reconciliação com o quê? Com a própria Tradição? Isso seria redundante — a Tradição nunca errou, apenas foi traída. O que se viu ali não foi reconciliação, foi contenção. Um alívio estético, um mimo concedido à resistência, cuidadosamente coreografado para caber nas manchetes.

Sim, o espetáculo foi grandioso. Os paramentos, a música, a solenidade — tudo respirava o espírito de uma Igreja que ainda sabia quem era. Mas a permissão veio cercada de limites, vigilância e desconfiança. Era uma missa para as câmeras, não para o futuro. O gesto que deveria expressar fé virou demonstração de controle. O Vaticano, ao permitir o rito, não o abraçou — apenas o exibiu como se mostra uma peça rara num museu: “Vejam, ainda temos isto; mas só para ocasiões especiais.”

Enquanto isso, o novo pontífice, Leão XIV, insiste em sua teologia do “caminhar juntos”. Fala em “ouvir todas as vozes”, mas cala a voz dos santos. Proclama “ninguém é dono da verdade”, mas age como se fosse dono da Verdade de Cristo — redefinindo-a ao sabor da sociologia e da opinião pública. É a velha astúcia modernista com verniz pastoral: sorrir enquanto desmonta o altar.

Não é coincidência que a mesma Roma que proíbe o latim nas paróquias o celebre com pompa diante das câmeras. O modernismo vive de contradições: precisa do sagrado para parecer espiritual, e precisa profaná-lo para parecer progressista. É um parasita litúrgico — alimenta-se da Tradição para poder negá-la com mais credibilidade.

Exemplos concretos – A Igreja que encena unidade

As dioceses continuam sufocando comunidades tradicionais sob o pretexto de “obedecer ao Papa”. Paróquias que por décadas floresceram com a Missa antiga agora mendigam capelas emprestadas. Seminários recusam candidatos “demasiado ligados ao rito antigo”. Padres são removidos, fiéis são dispersos. Mas, em Roma, uma vez por ano, um cardeal fiel é autorizado a celebrar, como quem diz: “Olhem, ainda somos uma só Igreja.”

É o truque do século XXI: transformar a resistência em decoração. A Missa de sempre é permitida não porque Roma a ama, mas porque precisa que pareça amável. É a mesma lógica do mundo que celebra a “diversidade” enquanto impõe o pensamento único. O que o modernismo não consegue destruir, ele absorve — e, ao abraçar, esvazia.

Leão XIV é o símbolo perfeito dessa teologia líquida. Ele fala como se a humildade consistisse em não ter certezas. Mas os santos nunca confundiram humildade com indecisão. Santo Atanásio enfrentou um império inteiro sem “caminhar junto” com o erro. Santa Catarina de Siena não “dialogou” com a corrupção — confrontou-a. E São Pio X, profeta antes do tempo, já denunciava esse espírito que hoje se chama sinodalidade: “Nada é mais perigoso que o modernismo, porque ele se disfarça de virtude.”

Conclusão: Entre o altar e o espelho

A velha fé não acabou, apesar de o Papa moderno dizer que sim. Ela apenas está sendo escondida atrás do véu da retórica. O incenso da Missa de Burke subiu alto, mas a fumaça da confusão ainda cobre Roma. A Igreja oficial caminha, como diz Leão XIV, “junto da humanidade” — mas parece ter esquecido de caminhar rumo ao Céu.

O modernismo promete comunhão, mas entrega dispersão. Fala de amor, mas dissolve a verdade. Sorri para todos, mas não se curva diante de Deus. A Missa de sempre, silenciosa e vertical, continua sendo o protesto mais eloquente contra essa confusão barulhenta. Enquanto houver um altar onde se diga Introibo ad altare Dei, haverá esperança.

A contrarrevolução não se faz com raiva, mas com fidelidade. Não com slogans, mas com o Santo Sacrifício. Cada Missa antiga é uma centelha no escuro, um lembrete de que a Igreja verdadeira não é espetáculo — é sacrifício. E mesmo que Roma tente transformar a fé em performance, ainda há quem prefira o altar ao espelho.

Porque a velha fé não acabou. Apenas espera, silenciosa, o dia em que Roma voltará a acreditar no que finge celebrar.

Por um Católico consciente e atento ao cenário eclesial do Brasil e do Mundo.