Novena a São João da Cruz: 2º dia


“Tudo por mim e nada por você. Tudo por você e nada por mim”.
(Provérbios de Luz e Amor, 100-111)


“Na verdade, julgo como perda todas as coisas, em comparação com este bem supremo: o conhecimento de Jesus Cristo, meu Senhor. Por ele tudo desprezei e tenho em conta de esterco, a fim de ganhar Cristo e estar com ele. Não com minha justiça, que vem da Lei, mas com a justiça que se obtém pela fé em Cristo, a justiça que vem de Deus pela fé. Anseio pelo conhecimento de Cristo e do poder de sua Ressurreição, pela participação em seus sofrimentos, tornando-me semelhante a ele na morte, com a esperança de conseguir a ressurreição dentre os mortos. Não pretendo dizer que já alcancei (esta meta) e que cheguei à perfeição. Não. Mas eu me empenho em conquistá-la, uma vez que também eu fui conquistado por Jesus Cristo. Consciente de não tê-la ainda conquistado, só procuro isto: prescindindo do passado e atirando-me ao que resta para a frente, persigo o alvo, rumo ao prêmio celeste, ao qual Deus nos chama, em Jesus Cristo. Nós, mais aperfeiçoados que somos, ponhamos nisso o nosso afeto; e se tendes outro sentir, sobre isto Deus vos há de esclarecer. Contudo, seja qual for o grau a que chegamos, o que importa é prosseguir decididamente”. (Filipenses 3, 8-16)

Meditação

“Nada para mim”. O nada – que absolutamente, nu, absolutamente nada – de São João da Cruz pode parecer tão gritante, mesmo fora de colocar a um leitor novato da Igreja Místico Doutor. Nada pra mim? Como isso pode ser?

Para descompactar esses absolutos, é útil ter um ponto de referência. São Paulo pode nos ajudar a entender o propósito de lutar por tanta nudez, vazio, posse de nada a ponto de não ser nada.
Nos versículos que precederam nossa leitura das Escrituras, São Paulo lista todas as razões pelas quais ele se vangloriava de seu “hebraico”. Ele até se chama “hebreu de hebreus”. Essa é uma afirmação bastante ousada. No entanto, apesar de todas as suas razões para se orgulhar de sua linhagem hebraica e farisaica, ele diz que “nada pode acontecer que supere a vantagem suprema de conhecer a Cristo Jesus”. (Filipenses 3, 8). Há esse qualificador absoluto novamente: nada.

Mas São Paulo não para por aí, ele vai além: “Para ele, aceitei a perda de tudo e vejo tudo como lixo”. São Paulo está pegando suas luvas de trabalho virtuais, sua vassoura virtual, pá de lixo, sacos de lixo e fazer um inventário de sua vida como alguém que avaliaria sua casa e propriedade com um avaliador de seguros após um incêndio ou desastre natural, entendendo que tudo o que possuímos é uma perda total, pronto para ser transportada com o lixo.

Ah! Mas há uma razão para se alegrar – limpar o lixo e criar espaço total e absoluto para Cristo: “se eu puder ter Cristo e receber um lugar n’Ele”.

Esse contraste de auto esvaziamento a ser preenchido com algo maior em São João da Cruz e São Paulo Apóstolo nos lembra o auto esvaziamento na vida de Cristo:

Quem, embora estivesse na forma de Deus, não considerava a igualdade com Deus algo a ser apreendido. Em vez disso, ele se esvaziou, assumindo a forma de escravo, vindo à semelhança humana; e tendo aparência humana, humilhou-se, tornando-se obediente à morte, até a morte na Cruz. Por causa disso, Deus o exaltou grandemente e concedeu a ele o nome que está acima de todo nome. (Filipenses 2, 6-9)

E, ao olharmos para as palavras de São Paulo, é interessante olhar mais para seus contrastes de tudo ou nada. Sabemos o que ele considera nada, uma pilha de lixo. Com o que ele procura substituí-lo? Vamos procurar no seu texto a palavra simples, tudo. “Tudo o que quero é conhecer a Cristo e o poder de sua ressurreição e compartilhar seus sofrimentos, reproduzindo o padrão de sua morte. Tudo o que posso dizer é que esqueço o passado e luto pelo que ainda está por vir” (Fl 3, 10, 13). Sim, nada para mim deixa tudo para você. Isso é, essencialmente, o que São João da Cruz disse, no forte contraste de tudo e nada de seu ditado, todo para ti e nada para mim.

Se o nada de São João da Cruz e as imagens de São Paulo ainda nos deixam imaginando como alcançar aspirações tão nobres e sagradas, é o grande discípulo de São Paulo, Santa Elisabete da Trindade, que pode mostrar a nós o caminho. Em seu retiro Heaven in Faith (Primeiro Dia, segunda oração), ela escreve:

Não devemos, por assim dizer, parar na superfície, mas entrar cada vez mais fundo no Ser divino através da lembrança. “Eu ainda estou correndo”, exclamou São Paulo (Fl 3,12); assim devemos descer diariamente este caminho do abismo que é Deus; vamos descer esta ladeira com confiança totalmente amorosa. “O profundo chama ao profundo” (Sl 42,8). É nas profundezas que o impacto divino ocorre, onde o abismo do nosso nada encontra o abismo da misericórdia, a imensidão de todo Deus. Lá encontraremos forças para morrer para nós mesmos e, perdendo todo o vestígio de si, seremos transformados em amor…. “Bem-aventurados os que morrem no Senhor”! (Ap 14,13)

Oração de Novena

Ó São João da Cruz
Vós que foste dotado por nosso Senhor com o espírito de abnegação
e um amor da Cruz.
Obtenha para nós a graça de seguir seu exemplo
para que possamos chegar à visão eterna da glória de Deus.
Ó Santa Cruz redentora de Cristo
a estrada da vida é escura e longa.
Ensina-nos sempre a resignar-nos à santa vontade de Deus
em todas as circunstâncias de nossas vidas
e nos conceda um favor especial
que agora pedimos a Vós:
(mencione seu pedido)
Acima de tudo, obtenha para nós a graça da perseverança final,
uma morte santa e feliz e uma vida eterna com Vós
e todos os Santos no Céu.
Amém.

Todas as referências das Escrituras nesta novena são encontradas no site Bíblia Católica Online, com exceção dos textos da edição de 1968 da Bíblia de Jerusalém pelo Reader’s Edition.

A oração da novena foi composta de fontes aprovadas pelo professor Michael Ogunu, membro da Ordem Secular dos Carmelitas Descalços na Nigéria.


Of the Trinity, E 2014, Elisabete’s Complete Works of the Trinity, Volume 1: General Introduction Major Spiritual Writings, translated from French by Kane, A, ICS Publications, Washington DC.