Retiro do Advento 2019 com Francisco de Santa Maria (1910-1961), primeira semana

Evangelho de Jesus-Cristo segundo São Mateus (24, 37-44)

«Como foi nos dias de Noé, assim acontecerá na vinda do Filho do Homem. Nos dias que precederam o dilúvio, comia-se, bebia-se, os homens casavam e as mulheres eram dadas em casamento, até ao dia em que Noé entrou na Arca; e não deram por nada até chegar o dilúvio, que a todos arrastou. Assim será também a vinda do Filho do Homem. Então, estarão dois homens no campo: um será levado e outro deixado; duas mulheres estarão a moer no mesmo moinho: uma será levada e outra deixada. Vigiai, pois, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor. Ficai sabendo isto: Se o dono da casa soubesse a que horas da noite viria o ladrão, estaria vigilante e não deixaria arrombar a casa. Por isso, estai também preparados, porque o Filho do Homem virá na hora em que não pensais.»


1. Comentário evangélico: «Estai também preparados»

«O Filho do Homem virá na hora em que não pensais.» Pode parecer paradoxal começar um novo ciclo litúrgico com estas palavras a propósito da vinda de Jesus cujo Advento, precisamente, não vai deixar de nos falar, de nos mobilizar! No Advento trata-se de preparar a vinda ao mundo, no dia de Natal, do nosso Salvador, o Filho de Deus, o Filho de Maria. A Encarnação é uma vinda; a Parusia (a vinda de Cristo em glória no fim dos tempos) é outra! E, na realidade, há muitas outras, outras vindas do Senhor na vida de cada um… O nosso Evangelho está voltado para a Parusia, no entanto, inaugura um tempo litúrgico que nos conduz primeiramente ao Natal, à Encarnação do Salvador. Não há aqui contradição nem confusão: é simplesmente uma expressão do Mistério d’Aquele que diz três vezes no livro do Apocalipse (1,8; 21,6; 22,13): «Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim.» No nosso Evangelho que inaugura o Advento está claro que se trata da Parusia.

No versículo imediatamente precedente a este Evangelho Jesus diz: «Quanto àquele dia e àquela hora, ninguém o sabe: nem os anjos do Céu nem o Filho; só o Pai.» Essa vinda é imprevisível e, por consequência, é necessário vigiar, exercitar a nossa vigilância!

Se Jesus relaciona os dias do Natal com a vinda do Filho do Homem, é porque estes dias apresentam situações paralelas. No tempo de Noé, símbolo de um tempo turbulento em que a Humanidade andava à deriva, muitos poucos homens se preocupavam com Deus, com a sua relação com o Deus Criador. Seremos nós diferentes dos contemporâneos de Noé? Tal como nos dias de Noé, não estaremos preocupados com as realidades quotidianas básicas: comer, beber, casar-se? O que, em si, é completamente legítimo: para perseverar em vida é realmente preciso tomar tudo isto em conta, não é? Mas qual é o problema que Jesus quer apontar? O Evangelho não insiste sobre a extraordinária má conduta da geração de Noé (contrariamente ao que está dito em Gn 6); ele traz à luz ignorância das pessoas, e não deram por nada, diz Jesus. Esse é o problema: a ignorância ou a indiferença, o desinteresse para com a verdade profunda da condição humana, uma humanidade em perigo que Deus quer salvar.

Sim, o que era verdade na época de Noé e de Jesus, continua a sê-lo agora: Deus é ignorado ou incompreendido e, portanto, mal-amado! O lugar que Lhe damos é, ou ridiculamente pequeno, até ser totalmente inexistente, ou então, pior, temos d’Ele imagens falsas, pervertidas!

Quantas imagens falsas e distorcidas de Deus nós arrastamos todos, em qualquer lado, no fundo da nossa consciência, sem falar da parte inconsciente! O ateísmo moderno, a rejeição de Deus, muitas vezes refere-se a falsas imagens de Deus. Muita gente se diz ateia, rejeitando Deus, porque rejeita tal ou tal imagem de Deus. Ainda não encontraram aquele que vem e que os vai surpreender! É uma rejeição, uma recusa de uma certa imagem de Deus e também da Igreja com quem, por vezes, O confundimos. O que está errado, porque jamais a Igreja se confundiu com Deus. Embora a Igreja seja o Corpo de Cristo, ela continua a ser também humana. Os seus membros pedem ao Espírito Santo que os guie, mas não estão livres de erros e de faltas…

O livro do Gênesis (6,9) diz de Noé: «Esta é a descendência de Noé. Noé era um homem justo e perfeito, entre os homens do seu tempo, e andava sempre com Deus.»

Assim, a presença de Deus no mundo é reconhecida por alguns e não por outros. No entanto, o Senhor vem e vem para todos. Ele faz-Se presente a todos mas é com cada um de nós o fazer-se presente a Ele e tornar efetivo esse encontro. Para haver um encontro são necessários dois, pelo menos!

Homem ou mulher, ninguém escapa a isso e é no meio das ocupações da vida quotidiana – nos campos, ou o moinho, os exemplos remetem naturalmente para o mundo rural de Jesus – que se faz a escolha decisiva, um será tomado e outro será deixado. Quando deixamos de estar ignorantes sobre isto, conseguimos, de fato, escutar o apelo de Jesus à vigilância.

«Vigiai, pois, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor.» Vigiar não significa: aumentar seguranças, barricar-se dentro de casa, tentar prevenir as agressões e os perigos através de dispositivos de alarme engenhosos. Compreendamos o espírito da parábola do ladrão. Vigiar significa: estar lá para enfrentar os acontecimentos. É uma espera ativa e um empenhamento no caminho da vida, o caminho da salvação.

Tudo o que acontece na vida e que contém uma ameaça ou um limite: a doença, a morte de um ser querido, o fracasso ou a angústia ou até, simplesmente, toda a atividade da vida quotidiana, são ocasiões para exercermos vigilância! Estaremos nós vigilantes e numa atitude de oração ou estaremos antes como os contemporâneos de Noé e os nossos, preocupados unicamente com os interesses pessoais, de costas voltadas para os outros, escondendo de nós mesmos a verdade da nossa condição e do nosso destino?

Que este novo Advento que começa seja um tempo em que, segundo a palavra de Isaías, nos decidamos a caminhar à luz do Senhor!


2. Meditação: A vigilância de Maria à escuta do seu Filho

Texto de Francisco de Santa Maria 
(Visage de la Vierge, Éditions du Carmel, 2001, p. 3-5)


Antes de mais é ao Evangelho que devemos ir se quisermos conhecer a Virgem. Santa Teresa do Menino Jesus recorda isso com muita força nos Novíssima Verba [Últimas Palavras]. Ela contrapõe a vida «real» de Maria tal como o Evangelho a deixa «entrever» à sua «suposta» vida tal como demasiadas vezes é descrita na obras piedosas.

Mas como, diremos nós, como conhecer uma alma – sobretudo essa alma – a partir de uns poucos fatos e de algumas palavras? Esta objeção teria considerável importância se se tratasse de um texto puramente humano. Nesse caso, ninguém aceitaria ressuscitar uma personagem a partir de tão poucos dados.

Mas as passagens do Evangelho que dizem respeito à Virgem têm como autor o Espírito Santo, nosso hóspede íntimo. Ele sabe comentá-las todas conosco, faz-nos ver nelas «horizontes infinitos», segundo a expressão de Teresinha. Então, as poucas confidências arrancadas ao silêncio da Virgem pelos evangelistas, tornam-se pesadas de significados profundos.

De resto, o Evangelho está todo lá para nos ajudar a interpretá-las melhor. Quando Cristo, nos Seus sermões e nas Suas parábolas, descreve o comportamento do cristão, Ele desenha diante de nós a face d’Aquela que foi a filha da luz por excelência. Além disso, os Seus atos e os Seus gestos completam o esclarecimento sobre a fisionomia de Maria. Ver Jesus é, de certa forma, ver Sua Mãe. Não foi ela que Lhe deu as feições humanas, ao mesmo tempo que Ele a modelava à Sua imagem de Deus? Nesta troca admirável é consumada a semelhança destes dois seres. Transformada no seu Filho, Maria não tem mais nada de si própria que essa transparência, esta limpidez que permite à alma de Jesus refletir-Se nela com todas as Suas perfeições e imprimir-Se nela de forma viva. Observando a vida e a oração de Jesus aprendemos a conhecer melhor a Sua Mãe.

Uma certa fisionomia da Virgem se desprende então do Evangelho. Algumas personagens e alguns textos do Antigo Testamento, interpretados simbolicamente pela liturgia ou pela tradição, acrescentam alguns traços a este desenho. Parece que assim já sabemos o suficiente para «entrever» a vida real de Maria. (…)

Mas o fato de ela ser sublime não pode levar-nos a esquecer que a Virgem continua muito próxima de nós. Não satisfeita de nos ter engendrado para a vida divina, ela continua a formar-nos, com a ajuda do Espírito Santo. E quer-nos unir mais estreitamente a si para prosseguir, através de nós, a sua missão terrestre.

Meditação

No texto que acabou de ler não está explicitamente em questão o tema central do Evangelho do primeiro domingo do Advento: a vigilância, a disponibilidade, a escuta da palavra de Deus. Francisco de Santa Maria faz-nos aqui uma introdução ao seu livrinho de meditação sobre a Virgem Maria. A sua primeira afirmação é central : « Antes de mais é ao Evangelho que devemos ir se quisermos conhecer a Virgem». Eis que fica claro: ir ao Evangelho para conhecer Maria, ir ao Evangelho para conhecer Jesus, ir ao Evangelho para conhecer Deus e a Sua vontade.

O conhecimento do Evangelho não é ele, em si mesmo, precisamente a resposta ao apelo à vigilância que Jesus faz no Evangelho deste dia? Ler o Evangelho e toda a Escritura, meditá-los, «trabalhá-los», sempre com a ajuda do Espírito Santo, não é isso que Jesus pede no Evangelho? E o que Maria vivia?

Sem cair no erro, segundo Teresinha, da «suposta» vida de Maria, ousemos dizer que Maria vivia em vigilância espiritual, pronta, sem dúvida, a responder às moções do Espírito Santo com Quem ela tinha «uma relação especial». Pronta, sobretudo, a responder a Jesus, seu Filho, com Quem ela se parecia e que Se parecia com ela também, como diz, de outra forma, Francisco de Santa Maria.

Retenhamos, enfim, deste texto, que Maria, cuja de vida de graça é luminosa, continua a estar próxima de nós. Maria, neste início do Advento, diz-nos, com o Evangelho, como nos faz bem vigiar, orar, meditar e estar disponíveis para a vinda do Filho do Homem.

Conselho espiritual

Neste Advento verifico o tempo que posso consagrar à oração e à meditação da palavra de Deus, de forma a alimentar-me o suficiente, sem excesso nem carência, da doçura de Maria, tendo em vista o essencial: o alegre encontro com Deus, na espera da vinda do Seu Filho.

Fr. Robert Arcas, OCD
(convento de Paris)

Oração em cada dia da semana – Semana 1

Segunda-feira, 2 de dezembro: ousar ter confiança

«Maria, dois mil anos depois continua a inclinar-se do alto sobre todas as misérias da terra para nos consolar e para nos curar.» Visage de la Vierge, p. 14
«Senhor, eu creio! Aumenta a minha pouca fé!» Mc 9, 2
Como eco à fé do centurião faço um ato de fé, de confiança, de abandono à infinita ternura de Deus.

Terça-feira, 3 de dezembro: abrir-se à ação da graça

«A Virgem apreciará a nossa oração apresentando-a ela mesma a Deus… Ela nos ensinará a orar como ela própria rezava ao Pai, com muito silêncio.» Visage de la Vierge, p. 51
«E Deus viu que isto era bom.» Gn 1,10
Dou graças pelo que foi bom e belo neste meu dia.

Quarta-feira, 4 de dezembro: abrir a Fonte

«Todo o esforço humano deve consistir em se dispor a receber, sempre a receber essas natividades que vêm do Alto e nos transformam, de luz em luz.» Conseils pour la vie intérieure, p. 27
«A minha alma tem sede de ti, todo o meu ser anela por ti, como terra árida, exausta e sem água.» Ps 62, 2
Na oração deixo que venha ao de cima a profunda espera que me habita.

Quinta-feira, 5 de dezembro: apoiar-me sobre a rocha

«Maria nutriu-se da Escritura em profundidade.» Visage de la Vierge, p. 12
«Tu és o meu rochedo e a minha fortaleza!» Ps 30, 4
Questiono-me: sobre que rocha construí a minha vida?
Que Palavra de Deus que é, na minha vida, o sólido fundamento?

Sexta-feira, 6 de dezembro: invocar o Seu auxílio


«Ela será, até ao fim ‘aquela que crê’, até aos pés da cruz.» Visage de la Vierge, p. 20
«Na verdade, Ele tomou sobre Si as nossas doenças, carregou as nossas dores.» Is 53, 4
De todo o meu coração clamo ao Senhor o medo, a angústia, o sofrimento que me habitam,
com simplicidade e confiança.

Sábado, 7 de dezembro: decidir sob o Seu olhar

«A Virgem pensa mais em ‘deixar que se faça’ através dela - sem deixar que se misture nem que seja um pouco de si mesma - do que em ‘fazer’» Visage de la Vierge, p. 24
«A lei do Senhor é perfeita, reconforta o espírito; as ordens do Senhor são firmes, dão sabedoria ao homem simples.» Ps 18B, 8
Decido habituar-me a orar antes de tomar qualquer decisão importante.