O Escapulário de Nossa Senhora do Carmo: uma explicação Jurídica e Espiritual

O Escapulário de Nossa Senhora do Carmo é um dos sacramentais mais conhecidos e mais antigos da Igreja Católica. Para compreendê-lo corretamente, é preciso deixar de lado muitas ideias equivocadas que surgiram ao longo do tempo. Trata-se de um sacramental da Igreja, isto é, de um sinal sagrado reconhecido pela Igreja que ajuda os fiéis a viverem mais intensamente a graça recebida nos sacramentos.

História

Originalmente, o escapulário fazia parte do hábito dos religiosos carmelitas que tem origem dos eremitas se estabeleceram no Monte Carmelo, inspirados pelo exemplo de Elias e pela busca de uma vida de oração e contemplação. Eles dedicaram um oratório a Maria, chamando-a de “Nossa Senhora do Monte Carmelo”. Com o passar do tempo, ela passou a ser venerada como a padroeira da Ordem do Carmo, que nasceu oficialmente no século XII a partir dessa comunidade de eremitas.

O hábito é tradicionalmente marrom, cor da terra, símbolo de humildade, simplicidade, pobreza e espírito de penitência. Isso recorda que o religioso é chamado a viver com humildade, pobreza e desprendimento dos bens materiais, reconhecendo que “és pó e ao pó voltarás” (Gn 3,19). Escapulário era uma peça de tecido usada sobre os ombros, representando o seguimento de Cristo e a pertença à Ordem do Carmo.

De acordo com a tradição, devoção ao escapulário tem sua origem da aparição da Virgem Maria a São Simão Stock, prior-geral da Ordem do Carmo, por volta de 1251 em um momento de angústia para a Ordem Carmelita devido às suas mudanças geográficas e adaptações culturais ao se estabelecer na Europa. Naquela a aparição, Maria do Carmo entregou um escapulário, e transmitiu as palavras de conforto aos carmelitas: “Meu filho muito querido, recebe este Escapulário de tua Ordem, como sinal peculiar de minha fraternidade, como privilégio para ti e para todos os Carmelitas; quem morrer vestido com ele, não padecerá do fogo eterno. Eis um sinal de salvação, de assistência nos perigos, eis uma aliança de paz e de eterna amizade.” (Costa I. M.F., p. 22).

Com o tempo, o significado espiritual do escapulário se expandiu para além da vida monástica, e sua adoção entre os leigos o transformou em um sinal universal de consagração a Maria do Monte Carmelo. Assim, a Igreja permitiu que também os fiéis leigos recebessem uma versão menor, composta por dois pequenos pedaços de tecido unidos por cordões, usados sobre o peito e as costas. O que caracteriza o verdadeiro Escapulário do Carmo é o fato de ser confeccionado em lã e formado por dois pedaços de tecido unidos por cordões. Por essa razão, não corresponde ao Escapulário tradicional um objeto confeccionado em plástico, couro, tecido sintético ou qualquer outro material que substitua a lã. A disciplina tradicional da Igreja para os pequenos escapulários sempre exigiu que fossem feitos de tecido de lã.

Entre todos os escapulários reconhecidos pela Igreja — como os dos Servitas, Trinitários, Mercedários, Beneditinos, Franciscanos, Passionistas e outros —, o Escapulário do Carmo possui uma característica própria que o distingue dos demais. Além de ser o mais antigo, o mais difundido e aquele que serviu de modelo para os outros escapulários. Na prática da Igreja e da Ordem do Carmo, recomenda-se sempre o uso do Escapulário marrom, por ser a forma tradicional e por carregar um profundo significado espiritual. O uso de outra cor faria com que o Escapulário de Nossa Senhora do Carmo perdesse parte de seu valor histórico e de sua identidade própria.

O Escapulário que traz imagens de Nossa Senhora ou do Sagrado Coração de Jesus constitui apenas uma piedosa ornamentação. Na realidade, isso não é obrigatório. O Escapulário tradicional pode ser completamente simples, sem qualquer figura. Se houver imagens, tradicionalmente são utilizadas apenas essas duas; o uso de outras imagens pode causar confusão com outros escapulários. Por isso, para saber que o escapulário é de Nossa Senhora do Carmo, ele deve trazer somente essas imagens ou não trazer imagem alguma.

A difusão da imagem do Sagrado Coração de Jesus no Escapulário está ligada ao decreto do Santo Ofício, aprovado durante o pontificado de São Pio X, em 16 de dezembro de 1910. Ao autorizar que o escapulário de tecido pudesse ser substituído por uma medalha, o decreto determinou que ela trouxesse, de um lado, a imagem do Sagrado Coração de Jesus e, do outro, a imagem da Bem-aventurada Virgem Maria. Essa disposição contribuiu para consolidar, também nos escapulários de tecido, o uso tradicional dessas duas imagens. Assim, quem recebe o Escapulário manifesta o desejo de viver como discípulo de Cristo sob a proteção materna da Virgem Maria, inspirando-se na espiritualidade do Carmelo.

Efeitos jurídicos

Ao receber o Escapulário, o fiel assume alguns compromissos espirituais. O rito oficial para a imposição do escapulário aprovado pela Santa Sé em 1996 estabelece: “A imposição comporta a agregação à família carmelita” (Prot. 1089/96/L). Essa agregação não transforma a pessoa em religiosa nem lhe concede os direitos e deveres próprios dos membros da Ordem. Ela continua sendo um fiel leigo ou clérigo, conforme sua condição. Isso significa que, quando uma pessoa recebe validamente o Escapulário do Carmo, ela passa a participar espiritualmente da grande família carmelita, sem necessário ser frade, freira ou membro da Ordem Terceira. Ela passa a participar espiritualmente da tradição do Carmelo, de sua espiritualidade, de suas orações e dos bens espirituais ligados à família carmelitana. Trata-se de uma verdadeira comunhão espiritual oficialmente reconhecida pela Igreja.

Compromete-se a viver unido a Cristo, imitar as virtudes da Virgem Maria, renovar diariamente a graça do Batismo, cultivar a oração, viver a castidade conforme o próprio estado de vida, crescer na caridade e servir a Igreja. O próprio rito de imposição ensina que o Escapulário é sinal do amor materno de Maria, sinal de comunhão com a Ordem Carmelita, sinal da oração contínua e sinal de que o cristão deseja revestir-se cada vez mais de Cristo.

O rito oficial também determina como deve ser o Escapulário utilizado na primeira imposição. Deve ser o Escapulário tradicional, composto por dois pequenos pedaços de tecido de lã, unidos por cordões, usados sobre os ombros, ficando uma parte sobre o peito e outra sobre as costas. Somente depois dessa primeira imposição é permitido substituí-lo por uma medalha apropriada. Após a primeira imposição, entretanto, o fiel pode substituir o Escapulário por uma medalha apropriada, ou outro modelo.

Quem pode fazer a imposição?

O rito da imposição estabelece: “Têm a faculdade de benzer o Escapulário os sacerdotes e os diáconos; além disso, outras pessoas autorizadas podem também fazer a sua imposição”. Ele distingue claramente duas ações diferentes: abençoar o Escapulário e fazer a imposição. Para abençoar o Escapulário possuem faculdade todos os sacerdotes e diáconos, sem necessidade de pertencerem à família carmelitana. Já a imposição possui um significado maior, pois é por meio dela que o fiel é agregado à família carmelitana. Logicamente que quem vive ou está incorporado à espiritualidade do Carmo, ou quem recebeu autoridade para agir em seu nome, possa agregar outras pessoas a essa família espiritual. Não faz sentido que alguém que não pertence a essa família nem foi autorizado a agir em seu nome possa agregar outras pessoas a ela. Assim, para fazer a imposição é necessária uma autorização que é concedida pelo Bispo, superior competente da Ordem ou da família carmelita correspondente às pessoas designadas para esse ministério. Consequentemente, nem todo sacerdote ou diácono possui automaticamente a faculdade de fazer a imposição, embora todos possam benzer o escapulário. Do mesmo modo, os leigos não podem fazer a imposição do Escapulário sem a devida autorização, mesmo que ele pertence ao terceiro ordem do Carmo.

Essa autorização não necessariamente ser formal ou escrita; pode ser presumida, pois a sua finalidade é evitar que alguém realize a imposição por iniciativa própria, sem vínculo com a espiritualidade e a tradição carmelitanas que essa sacramental expressa. Trata-se de um verdadeiro ato litúrgico da Igreja, pelo qual o fiel passa a participar espiritualmente da tradição, da espiritualidade e dos bens espirituais do Carmelo. Por isso, a imposição não consiste simplesmente em colocar um objeto religioso sobre a pessoa. Do ponto de vista jurídico e espiritual, o principal efeito da imposição é justamente essa agregação oficial à família carmelitana e sua espiritualidade.

Por esse motivo, a imposição é realizada uma única vez. A pessoa continua agregada à família carmelita, mesmo que não usa mais o escapulário. Quando o Escapulário se desgasta ou precisa ser substituído, basta colocar outro Escapulário, sem necessidade de nova imposição. Após a primeira imposição, qualquer pessoa pode colocar o novo Escapulário no pescoço, sem necessidade de autorização, pois esse ato não constitui uma nova imposição. Isso significa que o fiel possa pedir a um sacerdote ou diácono, que coloque o novo Escapulário em seu pescoço. Nesse caso, para evitar repetir o rito oficial de imposição, pode utilizar outra forma de oração, sem realizar uma nova imposição. O mesmo princípio vale quando o Escapulário tradicional é substituído pela medalha, desde que a primeira imposição tenha sido realizada corretamente.

Apenas em situações excepcionais — por exemplo, quando existe dúvida séria sobre a validade da primeira imposição ou em algum caso previsto pela autoridade competente — poderá haver uma nova imposição. Fora dessas situações, a Igreja considera suficiente a primeira imposição.

O uso do Escapulário também não obriga a pessoa a mantê-lo continuamente sobre o corpo em todas as circunstâncias. Ele pode ser retirado para o banho, uma cirurgia, atividades esportivas ou outras necessidades legítimas. O importante é que seja usado habitualmente como sinal da consagração a Nossa Senhora e do compromisso de viver a espiritualidade cristã. Por isso, usar bem o Escapulário significa muito mais do que simplesmente trazê-lo pendurado no pescoço. Significa procurar viver como verdadeiro discípulo de Cristo sob a proteção maternal da Virgem Maria. Quem usa o Escapulário procura participar frequentemente da Santa Missa, confessar-se regularmente, rezar todos os dias, meditar a Palavra de Deus, praticar a caridade, viver a castidade conforme seu estado de vida, imitar as virtudes de Nossa Senhora e permanecer fiel a Cristo até o fim da vida.

Também é importante compreender que o Escapulário não salva automaticamente. Ele não é um amuleto, um objeto de superstição nem um talismã que garante automaticamente a salvação. A Igreja ensina claramente que nenhum sacramental substitui a fé, os sacramentos, a conversão ou a vida cristã. O Escapulário prepara o fiel para acolher melhor a graça de Deus e o incentiva a corresponder a essa graça com uma vida santa. Portanto, quem usa o Escapulário vivendo conscientemente em pecado grave, sem oração e sem desejo de conversão, não recebe automaticamente graças especiais atribuídas a ele. O Escapulário é um compromisso de viver unido a Cristo seguindo o exemplo de Nossa Senhora.

Assim, o Escapulário deixa de ser apenas um objeto religioso e torna-se um sinal permanente de uma vida cristã vivida em comunhão com Jesus Cristo, sob a proteção materna da Virgem do Carmo e em união espiritual com toda a família carmelita. Que a Bem-aventurada Virgem do Monte Carmelo interceda por todos nós.

As referências:

  1. Rito de bênção e imposição do Escapulário de Nossa Senhora do Carmo. Aprovado pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, por meio do Prot. 1089/96/L, e confirmado em 16 de julho de 1996, na sede da Congregação.
  2. Catholic Encyclopedia (1913).
  3. Catechesis and Ritual for the Scapular of Our Lady of Mount Carmel. Preparado em 2001 sob a direção dos Provinciais Norte-Americanos das Ordens Carmelitas.
  4. A Virgem do Carmo e o Escapulário. Inácio Maria Ferreira Cota. Recife, 1950.

Por Frei Kardiaman Caverius Simbolon O.Carm
Escritor do livro: É mais fácil entrar no céu do que no inferno