Quando o abraço pastoral perde a memória do altar

Notas de Resistência em Tempos de Sinodalidade Fluida – Parte 6

Há dias em que não é o escândalo que cansa. É a névoa.

O escândalo, ao menos, tem a honestidade do choque. A névoa, não. A névoa entra pelas frestas, cobre os contornos, dissolve as formas e, no fim, convence os homens de que talvez nunca tenha existido um horizonte.

Nestes dias, observo a Igreja — não de fora, como fazem os cronistas do colapso, mas de dentro, como quem permanece sentado no último banco depois da Missa e olha o sacrário antes de apagar as luzes. E confesso: há momentos em que o coração se sente atravessado por uma estranha fadiga. Não por falta de fé. Por excesso de ruído.

A palavra do tempo parece ser “acompanhar”. Palavra legítima. Bela até. O Bom Pastor acompanha. Cristo caminha com os discípulos de Emaús. A Igreja sempre acompanhou.

Mas acompanhar para onde?

Essa pergunta, tão simples, tornou-se quase deselegante.

Há uma forma contemporânea de pastoral que parece ter descoberto um método novo: aproximar-se indefinidamente sem jamais chegar ao momento da conversão; acolher sem exigir; escutar sem ensinar; incluir sem ordenar; adaptar sem transformar.

Não se nega a doutrina — seria demasiado antigo fazer isso. Apenas se fala dela como quem comenta um documento de arquivo: com respeito cerimonial e irrelevância prática.

E então surgem liturgias que querem ser encontros, encontros que querem ser sinais, sinais que querem ser processos, processos que querem ser experiências. No meio disso tudo, às vezes alguém procura Deus.

Não se trata de rejeitar toda linguagem pastoral nova. A Igreja nunca foi museu. O problema começa quando o zelo missionário troca de roupa e regressa vestido de gestor de sensibilidades.

A história eclesiástica ensina uma coisa curiosa: as grandes crises raramente começaram pela negação frontal. Quase sempre começaram pela mudança de acento.

Primeiro altera-se o vocabulário. Depois altera-se o centro de gravidade. Por fim, altera-se a percepção do real.

Foi assim em muitas controvérsias antigas. Não porque o erro fosse mais inteligente — geralmente não era —, mas porque se apresentava como atualização, refinamento, amadurecimento.

São Pio X percebeu isso cedo demais para o gosto do seu século. Chamou o modernismo de síntese de erros não por excesso retórico, mas porque viu que ali não estava uma heresia isolada, e sim um método: submeter o eterno ao critério do mutável.

Hoje o método regressa com roupas mais suaves.

Já não diz: “isto é falso”.

Diz: “isto talvez precise ser reinterpretado”.

Já não diz: “abandone a tradição”.

Diz: “releia a tradição”.

Já não diz: “o mundo converta-se”.

Diz: “a Igreja deve aprender”.

Curiosamente, o mundo continua ensinando com extraordinária confiança.

Enquanto isso, o sagrado perde densidade.

Os altares tornam-se discretos para não constranger. O silêncio litúrgico parece inconveniente. A transcendência precisa justificar sua presença. O mistério é tratado como se fosse um problema de comunicação.

Há paróquias onde se explica tudo e se adora pouco.

Há documentos que falam muito da escuta e pouco do juízo.

Há celebrações em que todos parecem convidados — exceto o temor de Deus.

E não deixa de haver certa ironia histórica nisso tudo.

Durante séculos disseram que a Igreja precisava abandonar solenidades, símbolos, rigor e distinções para finalmente ser compreendida pelo homem moderno.

O homem moderno abandonou as igrejas.

Talvez porque o mundo já ofereça versões mais eficientes de tudo aquilo que a Igreja tentou imitar.

Quem procura terapia vai à terapia.

Quem procura ativismo vai ao ativismo.

Quem procura espetáculo encontra espetáculo.

Mas quem procura o Santo dos Santos precisa encontrar algo que não exista em nenhum outro lugar.

Os santos entenderam isso.

Não reformaram a Igreja diluindo-a.

Reformaram-na aprofundando-a.

Não reduziram o Evangelho para caber no século.

Aumentaram a santidade para que o século percebesse sua própria estreiteza.

Nenhum deles começou dizendo: “precisamos parecer mais normais”.

Começaram ajoelhando.

E é curioso como o joelho continua sendo um argumento teológico subestimado.

Apesar de tudo, não escrevo estas linhas como quem anuncia ruínas.

A Igreja já atravessou imperadores, cismas, cortes decadentes, racionalismos e revoluções. Sobreviveu porque não pertence aos administradores do momento.

Pertence a Cristo.

Isso não elimina o dever de resistir.

Resistir não é romper.

Resistir não é desprezar.

Resistir não é fabricar pequenas fortalezas de ressentimento.

Resistir é permanecer católico quando ser católico deixa de parecer eficiente.

É guardar a forma recebida.

É conservar o senso do altar.

É continuar rezando o Credo sem notas explicativas.

É amar a Igreja sem romantizá-la.

É recordar que a Esposa de Cristo pode atravessar noites sem deixar de ser esposa.

No fim do dia, fechei os jornais, desliguei os comentários e permaneci alguns minutos diante do sacrário.

Nenhuma sinodalidade líquida atravessa portas fechadas de bronze.

Ali tudo permanece.

A lâmpada acesa.

O silêncio.

O Rei.

E talvez seja exatamente daí que recomeça toda resistência.

Por um Vaticanista residente em Roma.