«Querida»: A palavra que é síntese e alma da exortação de Francisco sobre a Amazônia


E no fim só há uma palavra a surpreender. A libertar o campo dos estratagemas, das especulações ideológicas, dos “diktat” das agências, do silêncio: «Querida». Colocou-a em destaque uma mulher, uma das que falam em sussurro porque trazem com elas o verdadeiro poder, que é o do serviço vivido, uma simples missionária, a Ir. Augusta de Oliveira, que esta quarta-feira foi chamada a apresentar no Vaticano a nova exortação apostólica pós-sinodal do Papa Francisco sobre a Amazônia. «“Querida” tem um significa grande e especial, que não se traduz. Expressa amor, ternura, conhecimento, compromisso, cuidado, proteção, paixão, afeto em abundância. Praticamente é a síntese e a alma da exortação.

E não é só a rota para um percurso através da Amazônia, mas também o itinerário sobre o qual o papa está a puxar o carro de toda a Igreja há sete anos [daqui a um mês, 13 de março]. Para indicar que esta é a estrada, levou-nos à Amazônia, dado que esta terra «é também “nossa”», considerando que é vital para nós, é uma parte para o todo da humanidade e diz respeito à Igreja universal pelas suas problemáticas. Por isso, papa o papa, representa uma “totalidade” e um “lugar teológico” que obriga a Igreja a não se esquecer de o ser como tal, não só na Amazônia.

Francisco apontou-o desde o início. Era o verão de 2013 quando, durante a Jornada Mundial da Juventude do Rio de Janeiro, sublinhava aos bispos brasileiros que a Amazônia é o «teste decisivo» para a Igreja»: «Há um (…) ponto sobre o qual gostava de deter-me e que considero relevante para o caminho atual e futuro não só da Igreja no Brasil», disse, convidando todos a «refletir» sobre «o forte apelo ao respeito e à salvaguarda de toda a criação que Deus confiou ao homem, não para que a explorasse rudemente, mas para que tornasse ela um jardim». E prosseguiu: «Mas eu gostava de acrescentar que deveria ser mais incentivada e relançada a obra da Igreja. Fazem falta formadores qualificados, especialmente formadores e professores de teologia, para consolidar os resultados alcançados no campo da formação de um clero autóctone, inclusive para se ter sacerdotes adaptados às condições locais e consolidar por assim dizer o «rosto amazônico» da Igreja. Nisto lhes peço, por favor, para serem corajosos, para terem parresia!».

«O Papa Francisco testemunha um olhar que supera as diatribes dialéticas que acabaram por representar o sínodo quase como um referendo sobre a possibilidade de ordenar sacerdotes homens casados»

A mesma direção que conclui a exortação, filha da encíclica “Laudato si’”, condu-lo hoje a afirmar, com mais urgência, a consciência eclesial que «neste momento histórico, a Amazônia desafia-nos a superar perspectivas limitadas, soluções pragmáticas que permanecem enclausuradas em aspetos parciais das grandes questões, para buscar caminhos mais amplos e ousados de inculturação».

Caminhos que no «sonho eclesial» de uma Igreja fiel à sua missão não podem ser as escapatórias simplistas, as estratégias de marketing, os dogmatismos e os escamoteares para fugir ao envolvimento com a complexidade do real, para não sujar as mãos; estas podem ser as prerrogativas de uma instituição empreendedora, não as opções de uma Igreja missionária, não o caminho de um renovado impulso fruto da graça, isto é, do deixar espaço à ação de Deus, para uma verdadeira renovação eclesial que possa suscitar o crescimento de uma vida nova e de uma fé incarnada. Na Amazônia como em qualquer lugar.

O sínodo não nasceu para um sim ou um não aos padres casados. «O Papa Francisco – como observa uma nota do dicastério do Vaticano para a comunicação – testemunha um olhar que supera as diatribes dialéticas que acabaram por representar o sínodo quase como um referendo sobre a possibilidade de ordenar sacerdotes homens casados». Na exortação o papa escreve que «podemos contemplar a Amazônia, e não apenas analisá-la», «podemos amá-la, e não apenas usá-la»; «mais ainda, podemos sentir-nos intimamente unidos a ela, e não só defendê-la: e então a Amazônia tornar-se-á nossa como uma mãe».

Este é o olhar que pode brotar apenas da coragem do amor, encerrada na palavra “querida”. Que é também o da esperança para o maior trabalho de Deus, aceitado com coragem e generosidade», e com o qual estamos na imensa complexidade das nossas “amazônias”. Porque tudo isto vale não só para a Amazônia, mas para todos nós.

Stefania Falasca
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: streetflash/Bigstock.com
Publicado em 13.02.2020