O que é a vida interior?

Décima Primeira Verdade
Se Deus exigir assim de mim a aplicação da minha atividade à
minha santificação, como às obras, antes de mais nada hei de arraigar em minha
alma esta convicção firme: Jesus deve ser e quer ser a vida dessas obras.
Meus esforços por si nada são, absolutamente nada: “Sine
me Níhil potestis fácere”. Somente serão úteis e abençoados por Deus,
quando eu, por meio de uma verdadeira vida interior, os trouxer constantemente
unidos à ação vivificadora de Jesus. Então se tornarão onipotentes: “Omnia
possum in eo qui me confortat”.
Se promanassem de uma capacidade orgulhosa, da confiança nos
meus talentos, do desejo de bons êxitos, seriam rejeitados por Deus, porquanto
não seria acaso sacrílega loucura da minha parte querer arrebatar a Deus, para
com ela me adornar, uma porção de sua glória?
Longe de gerar em mim a pusilanimidade, essa convicção será
minha força. E como ela me fará sentir a necessidade da oração para obter essa
humildade, tesouro para minha alma, segurança do auxílio de Deus e penhor de
bom êxito para minhas obras!
Compenetrado da importância deste princípio, hei de fazer
durante os meus retiros sério exame de consciência para reconhecer se, minha
convicção da nulidade da minha ação quando desacompanhada e da sua força quando
unida à ação de Jesus, não está abalada, - se excluo implacavelmente qualquer
complacência ou vaidade, qualquer contemplação do meu "eu" em minha
vida de apóstolo, - se me mantenho numa desconfiança absoluta de mim mesmo, - e
se peço a Deus que vivifique minhas obras e me preserve do orgulho, primeiro e
principal obstáculo a seu concurso.
Este credo da vida interior, tornado a base da existência
para a alma, assegura-lhe, já neste mundo, a participação da felicidade
celeste.
Vida interior, vida dos predestinados.
Corresponde ao fim que Deus se propôs ao criar-nos.
Corresponde ao fim da Encarnação: “Filium suum unigénitum
misit Deus in mundum ut vivamus per eum”.
Estado bem aventurado: “Finis humanae creaturae est
adhaerere Deo: in hoc enim felicitas ejus consistit”.
Ao contrário das alegrias do mundo, se exteriormente existem
nele espinhos, dentro subsistem as rosas. Como se deve lamentar essa pobre
gente do mundo! dizia o Santo Cura D’Ars.
Pesa-lhes sobre os ombros um manto de espinhos; não podem
fazer um movimento sem se picarem; ao passo que os verdadeiros cristãos têm um
manto forrado de arminho. “Crucem vident, unctionem non vident”.
Estado celeste! A alma torna-se um céu vivo.
Como santa Margarida Maria, ela canta:
Eu possuo constantemente
E acompanha os passos meus
O Deus do meu coração
E o coração do meu Deus.
É o começo da bem aventurança: “Inchoatio quaedam
beatitúdinis”. A graça é o céu em germe.
Por Dom Chautard
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Espiritualidade