A Graça Batismal, o futuro incerto do mundo e o conforto dos cristãos
O Frei Maria Eugênio do Menino Jesus, OCD[1],
lá pelos fins dos anos 1950 e inícios dos 1960, como autêntico místico católico
parece ter profetizado, com assombrosa precisão, os tempos em que agora
vivemos.
O que consola é constatar que a solução para os males de
sempre permanece, igualmente, a mesma de sempre. O texto a seguir representa
parte do conteúdo do livro “Ao Sopro do Espírito” (Paulus, 2010), na verdade
uma compilação de conferências organizadas pelo Pe. Carlos Niqueux.
Riquezas espirituais
É uma linguagem espiritual, unicamente espiritual, que eu
quereria ter convosco. Entretanto, começando, não posso me impedir de sublinhar
que vivemos num mundo inquieto, agitado. Qual é a causa dessa agitação, dessa
inquietação? Vocês a conhecem, como eu, talvez melhor do que eu.
Um mundo inquieto e agitado
Povos jovens se erguem e afirmam suas aspirações a uma vida
pessoal independente, talvez a um poder dominante. Além disso, no mundo
instalam-se também atualmente ideologias poderosas, que parecem querer destruir
nossa velha civilização cristã. Essas ideologias não ocultam que têm uma nova
concepção da civilização e mesmo do homem; seduzem com promessas enganadoras
não somente indivíduos, mas até massas inteiras, ávidas por felicidade. Se
vemos nos países aspirações puramente humanas, é muito possível que nas
ideologias haja mais do que isso, ou seja, verdadeira ação do espírito do mal
que gostaria de atingir os valores espirituais e a Igreja que os possui.
Diante das ameaças, ficamos inquietos, e talvez nossa
inquietação seja legítima. Qual será o futuro? O que seremos nós, o que será de
nosso país, da Europa, do mundo, em quinze anos, em vinte anos? É bem difícil
prever. Temos a impressão de que viveremos acontecimentos jamais vistos.
As lições da história
Entretanto, se quisermos considerar melhor e a história e
suas lições, nos convencemos facilmente de que a história do mundo e dos povos
é feita de reviravoltas parecidas. Se considerarmos a história da China ou da
Índia, que parecem apresentar-nos as mais antigas civilizações, datadas
provavelmente de sete ou oito mil anos antes de Nosso Senhor, vemos aí a
civilização atual como o resultado de reviravoltas de que seus povos foram
vítimas no correr dos milhares de anos: invasões, ondas de povos, oligarquias
que se estabeleceram.
Vemos no Oriente Médio impérios que se destruíram
sucessivamente: os medos, os persas, os gregos, com Alexandre, e os romanos. Graças
à ordem que estes parecem estabelecer no mundo, Jesus pode dar sua mensagem. A
Encarnação tem efeitos mundiais, como dirá São Paulo (conf. Ef 1,9; Cl
1,15-20); trata-se do mundo conhecido.
Roma, convertida para o Cristianismo, tornando-se campeã da
civilização cristã, também sofre assaltos dos bárbaros. E esses bárbaros são
ganhos, sucessivamente, pelo Cristianismo. Cuida-se das chagas durante certo
tempo; empreendem-se pesquisas novas sobre Deus... Uma filosofia, uma teologia,
uma arte se estabelecem no século XIII, e tudo parece entrar na ordem, até que
esta ordem seja agitada de novo por outras perturbações.
Que lição se pode tirar destes acontecimentos?
Supremacia da inteligência
Há vários fatos que decorrem como que normalmente: em
primeiro lugar, certa supremacia da inteligência. Em todos esses choques
Em todos esses choques, esses transtornos, essas lutas de
civilizações, de impérios e de culturas, é habitualmente a inteligência mais
afinada que acaba dominando. É vencida durante certo tempo, como a cultura
grega pelo Império Romano, mas acaba voltando e afirmando seu poder. Nas lutas
entre homens, a inteligência vai dominar a superioridade da inteligência vai
assegurar a supremacia.
O poder do Espírito
Há outra coisa. A expansão do cristianismo nos coloca diante
de outras forças: são forças espirituais. Jesus veio, e antes de morrer, de
sofrer sua suprema derrota no Calvário, Ele afirma: “Eu venci o mundo. Vós
tereis de lutar. Sereis vencidos. Sereis mortos. Mas, tende confiança: Eu venci
o mundo” (Jo 16,33). Supremacia da inteligência, supremacia das forças
espirituais... Sim, a Igreja a que pertencemos não sucumbirá sob os golpes, ela
subsistirá a todos os transtornos, revoluções, transformações, maremotos,
venham de onde vierem, causados por qualquer força da inteligência humana ou
por qualquer força do inferno. É a conclusão que devemos tirar.
O inventário de nossas forças espirituais
Nessa inquietação em que vivemos, diante dessas ameaças, sem
dúvida eficazes até certo ponto, o que fazer?
Nosso grande dever, especialmente para nós, cristãos, é
fazer o inventário de nossas forças espirituais e colocar nossa esperança nas
forças espirituais. Não somente sob o ponto de vista sobrenatural para nós, mas
também as esperanças para a sociedade. É preciso que essa inquietação e
agitação nos conduzam a um aprofundamento, a uma estima bem maior pelas forças
espirituais que nos foram dadas. Elas nos levam para o espiritual, para Deus: é
aí que está a suprema esperança, para cada um de nós, para a nossa salvação
individual e para a salvação também da humanidade, em toda medida com que ela
pode ser salva.
[1] Henri Grialou nasceu dia 2
de dezembro de 1894 num modesto lar de Aveyron (França) e ainda criança desejou
ser sacerdote. Depois da Primeira Guerra Mundial, momento em que sentiu a
poderosa proteção de Santa Teresinha do Menino Jesus, recomeçou os estudos no
seminário, dando aí testemunho de uma profunda vida espiritual. A descoberta
dos escritos de São João da Cruz revelou-lhe sua vocação ao Carmelo, entrou
assim para esta Ordem no dia 24 de fevereiro de 1922, logo após a sua ordenação
sacerdotal. Onde adotou o nome de Frei Maria-Eugênio do Menino Jesus.
Marcado pelo absoluto de Deus e pela graça marial do
Carmelo, o Frei Maria-Eugênio serviu com devoção e empenho a Igreja e a sua
Ordem, desempenhando cargos de grande responsabilidade na França e em Roma.
Dedicou-se plenamente à difusão do espírito e da
doutrina do Carmelo, desejando que estes fossem vividos na vida cotidiana, numa
harmoniosa união de ação e contemplação.
A transmissão do ensinamento dos mestres do Carmelo –
Santa Teresa d’Ávila, São João da Cruz e Santa Teresinha – foi iluminada pela
sua própria experiência de contemplativo e apóstolo, e culminou na redação do
livro Quero ver a Deus.
Em 1932, com a colaboração de Marie Pila, fundou o
Instituto Nossa Senhora da Vida na cidade de Venasque, França, junto a um
antigo santuário mariano, do mesmo nome. Este instituto secular, de leigos(as)
consagrados e sacerdotes, coloca em prática o ideal do Frei Maria-Eugênio de
uma vida onde a ação e a contemplação são bem unidas, de tal modo que a
contemplação estimula a ação e a ação estimula a contemplação, para assim dar
testemunho do Deus vivo ao mundo.
Como sacerdote e diretor espiritual, ele conduziu
incansavelmente no caminho da confiança e do amor, certo de que a misericórdia
divina se derrama sempre e abundantemente!
Toda a vida do Frei Maria-Eugênio foi marcada por uma
poderosa influência do Espírito Santo e da Virgem Maria. Respondendo à
fidelidade do seu amor, a Virgem Maria veio buscá-lo no dia 27 de março de
1967, numa segunda-feira de Páscoa, dia em que ele fazia questão de celebrar a
alegria pascal de Maria, Mãe da Vida.
MENINO JESUS, Fr. Maria-Eugênio do, OCD. Ao Sopro do Espírito. São Paulo: Paulus, 2010, pp. 55-56.
