A Morte como critério da Vida: entre a Verdade, a Eternidade e o Amor

Uma reflexão à luz de Olavo de Carvalho e da espiritualidade dos santos carmelitas.
Há pensamentos que nos incomodam justamente porque nos
obrigam a olhar para aquilo de que passamos a vida inteira tentando desviar os
olhos. A morte é um deles. Não gostamos de falar sobre ela, tampouco de
permitir que sua realidade interfira em nossos projetos, ambições e pequenas
preocupações cotidianas. Preferimos viver como se o tempo nos pertencesse, como
se os dias fossem inesgotáveis e como se sempre houvesse uma oportunidade
futura para corrigir os erros, reconciliar-nos com alguém, abandonar os vícios
e começar verdadeiramente a viver.
Entretanto, a morte não pede licença para entrar em nossa
história. Ela permanece ali, silenciosa, como a única realidade que, mais cedo
ou mais tarde, todos teremos de enfrentar. E talvez seja justamente por isso
que a frase do professor Olavo de Carvalho mereça nossa atenção:
“A morte é uma das poucas certezas empíricas que temos. Uma ideia se avalia pela sua capacidade de se defrontar com a morte. Só importa aquilo que para nós é mortalmente importante, as verdades pelas quais morreríamos, e que valem mais que a vida. Noventa e nove por cento do que pensamos não têm importância nenhuma. Livrar-se da vaidade e adotar a morte como critério é um bom começo em filosofia.”
A provocação é filosófica, mas suas consequências alcançam
profundamente a vida espiritual. Afinal, o cristão não pode pensar a morte como
um acontecimento meramente biológico, tampouco como um simples encerramento da
existência. Para nós, a morte está inserida no horizonte da eternidade. É
diante dela que a vida terrena revela sua transitoriedade, que nossas escolhas
adquirem seu verdadeiro peso e que a liberdade humana se encontra diante de sua
responsabilidade última: comparecer perante Deus.
Os santos carmelitas compreenderam profundamente essa
realidade. Não fizeram da morte um assunto mórbido, nem cultivaram o desprezo
pela existência terrena. Pelo contrário, aprenderam a viver com os olhos
voltados para a eternidade, compreendendo que cada dia é uma oportunidade de
amar, reparar, purificar o coração e avançar no caminho da união com Deus.
Eis, portanto, uma questão que precisamos recuperar em
nossos dias: se sabemos que vamos morrer, por que vivemos tão frequentemente
como se a eternidade não existisse?
1. A morte: a grande mestra da sobriedade
Existe uma sabedoria antiga, profundamente enraizada na
tradição cristã, que consiste em aprender a morrer antes de chegar a hora da
morte. Não se trata de desejar a morte, desprezar a vida ou cultivar uma
tristeza permanente, mas de adquirir a consciência de que nossa passagem por
este mundo é limitada e de que não fomos criados para permanecer aqui
indefinidamente.
A Igreja sempre conservou essa consciência em sua
espiritualidade. A expressão memento mori — lembra-te de que morrerás — não
nasceu para produzir desespero, mas para despertar a alma de sua sonolência. É
uma advertência contra a soberba, a dissipação e a falsa segurança que
frequentemente nos fazem esquecer nossa condição de criaturas.
São Bento, na sua Regra, recomenda que os monges tenham
diariamente a morte diante dos olhos. Essa mesma disposição encontramos na
tradição carmelitana, na qual o recolhimento, o silêncio e a oração não são
exercícios de fuga da realidade, mas meios de ordenar a existência para Deus. O
religioso, o consagrado e também o leigo que vive sua vocação no mundo precisam
compreender que o tempo não é propriedade absoluta do homem: é um dom recebido
e uma responsabilidade diante do Criador.
Quantas vezes desperdiçamos horas preciosas em discussões
inúteis, ressentimentos alimentados, comparações, invejas e preocupações com
aquilo que não permanecerá? Quantas vezes sacrificamos a paz da consciência
para preservar uma imagem diante dos outros? A morte, quando verdadeiramente
considerada, desmonta essas construções. Ela nos recorda que não levaremos
conosco nossos títulos, nossas posições, nossos reconhecimentos ou nossas
pequenas vitórias humanas.
Levaremos, porém, a responsabilidade moral de nossas
escolhas e compareceremos diante daquele que conhece até mesmo aquilo que
escondemos de nós próprios.
É nesse sentido que a morte se torna uma mestra da
sobriedade. Ela nos ensina a não atribuir valor eterno às coisas passageiras e
a não sacrificar o que é eterno por aquilo que inevitavelmente desaparecerá.
2. São João da Cruz: morrer para o que não conduz a Deus
Se existe um santo que compreendeu a necessidade de despojar
a alma de tudo aquilo que a impede de alcançar sua finalidade sobrenatural,
esse santo é São João da Cruz.
Sua doutrina da noite escura e do desapego não pode ser
compreendida como simples renúncia psicológica ou desprezo pelas realidades
criadas. Trata-se de uma purificação do amor. A alma precisa aprender a não
transformar os bens temporais em seus fins últimos, nem fazer das criaturas
obstáculos à sua entrega ao Criador.
No conhecido poema Nada te turbe, cuja tradição textual é
atribuída a Santa Teresa de Jesus, encontramos uma síntese admirável dessa
disposição:
«Sólo Dios basta.»
Tudo passa. Deus permanece.
A frase de Olavo nos provoca a perguntar quais verdades
consideramos tão importantes que estaríamos dispostos a morrer por elas. São
João da Cruz nos conduz a uma pergunta ainda mais exigente: quais coisas
estamos dispostos a abandonar para não perder Deus?
Porque não basta declarar que amamos a verdade. É necessário
aceitar as consequências de viver segundo ela. Não basta professar a fé quando
isso nos proporciona conforto, reconhecimento ou segurança. A fidelidade cristã
precisa permanecer também quando exige renúncia, silêncio, incompreensão e
sacrifício.
O Doutor Místico ensina que a união com Deus exige o
despojamento das afeições desordenadas. E isso toca diretamente nossa relação
com a morte: quem passa a vida inteira agarrado àquilo que é passageiro
dificilmente aprenderá a entregar-se inteiramente Àquele que é eterno.
A morte física chegará uma única vez; mas, espiritualmente,
somos chamados a morrer todos os dias para o orgulho, para a vaidade, para o
egoísmo e para as falsas seguranças que nos afastam da vontade divina.
É uma morte que não destrói a pessoa, mas a purifica. Não
elimina o amor, mas o liberta de suas deformações. Não empobrece a existência,
mas a orienta para sua verdadeira plenitude.
3. Santa Teresa de Jesus: a vida não pode ser desperdiçada
Santa Teresa de Jesus conhecia muito bem a fragilidade
humana. Sua experiência espiritual não nasceu de uma existência abstrata,
distante das dificuldades, das contradições e das distrações do mundo. Ela
conhecia as resistências da própria natureza, as dificuldades da oração e as
inúmeras maneiras pelas quais uma alma pode adiar sua entrega a Deus.
No Livro da Vida e no Castelo Interior, encontramos uma
mulher que compreendeu progressivamente a necessidade de ordenar toda a
existência para a amizade com Cristo.
A vida espiritual, para Teresa, não consiste em acumular
conhecimentos religiosos, multiplicar devoções exteriores ou construir uma
imagem de santidade diante dos outros. Consiste em crescer na amizade com Deus,
permitindo que a graça transforme a inteligência, a vontade e os afetos.
Quando olhamos para a morte a partir dessa perspectiva,
percebemos que a pergunta fundamental não é quantas coisas realizamos, mas o
que nos tornamos diante de Deus.
Podemos passar décadas falando sobre oração sem aprender a
permanecer verdadeiramente diante do Senhor. Podemos conhecer os escritos dos
santos sem permitir que sua doutrina corrija nossas atitudes. Podemos defender
a tradição, discutir a liturgia, conhecer a teologia e, ainda assim, conservar
um coração incapaz de perdoar.
Eis uma das maiores contradições da vida religiosa: conhecer
os caminhos da perfeição cristã e permanecer voluntariamente distante daquilo
que eles exigem.
Santa Teresa não nos permitiria confundir conhecimento com
transformação. O Castelo Interior é um itinerário de conversão, no qual a alma
é chamada a abandonar a superficialidade e avançar em direção à união com seu
Senhor.
A morte, nesse contexto, não deve encontrar-nos apenas com
uma bagagem de conhecimentos, mas com uma existência progressivamente
configurada a Cristo.
Talvez devêssemos perguntar com mais frequência: se hoje
fosse meu último dia, estaria satisfeito com a maneira como tenho amado? Teria
reconciliado meu coração com aqueles que me ofenderam? Teria procurado reparar
minhas faltas? Teria dado a Deus o lugar que lhe pertence?
Não são perguntas destinadas a alimentar escrúpulos, mas a
despertar uma consciência cristã mais responsável.
4. Santa Teresinha: morrer de amor, viver no amor
Em Santa Teresinha do Menino Jesus encontramos uma das
expressões mais delicadas e, ao mesmo tempo, mais exigentes da espiritualidade
carmelitana.
Sua pequena via não é uma espiritualidade de mediocridade,
mas de confiança radical na misericórdia de Deus. Teresinha compreendeu que a
santidade não depende exclusivamente de grandes realizações exteriores, mas da
entrega amorosa da própria vontade nas pequenas circunstâncias da vida.
Ela não precisava de acontecimentos extraordinários para
demonstrar sua fidelidade. O cotidiano do Carmelo, com suas contrariedades,
limitações humanas, enfermidades e pequenas humilhações, tornou-se o lugar
concreto de sua oferta.
Aqui encontramos uma resposta muito importante à provocação
de Olavo de Carvalho. Se tantas coisas que ocupam nossos pensamentos não
possuem importância definitiva, o que realmente merece nossa atenção?
Para Teresinha, a resposta está no amor.
Não um amor sentimental, condicionado pelas emoções ou pela
reciprocidade humana, mas a caridade sobrenatural, que encontra sua fonte em
Deus e se manifesta na paciência, no sacrifício, na generosidade e na
fidelidade.
Sua conhecida afirmação, «No coração da Igreja, minha Mãe,
eu serei o amor», revela uma compreensão profundamente cristã da existência. A
vida encontra sua grandeza quando se torna uma oferta de amor.
E isso também transforma nossa compreensão da morte. Não
precisamos esperar o último instante para oferecer a Deus nossa existência.
Cada ato de caridade, cada renúncia silenciosa, cada sofrimento suportado com
fé e cada gesto de misericórdia podem tornar-se uma preparação para o encontro
definitivo com Ele.
Teresinha não nos ensina a procurar o sofrimento por si
mesmo, mas a não desperdiçar aquele que inevitavelmente atravessa nossa
condição humana. A cruz, acolhida em união com Cristo, pode tornar-se caminho
de santificação.
A morte, portanto, não deve ser o primeiro momento de nossa
entrega. Deve encontrar-nos já aprendendo a amar.
5. A morte cristã não é o fim: é o encontro com a eternidade
É necessário, contudo, estabelecer uma distinção
fundamental. Para o pensamento católico, a morte não constitui apenas um
instrumento filosófico para avaliar a importância das ideias. Ela possui um
significado teológico muito mais profundo.
A morte entrou na história humana como consequência do
pecado, conforme ensina a Sagrada Escritura. Entretanto, Cristo, por sua Paixão
e Ressurreição, venceu o poder da morte e abriu para nós o caminho da vida
eterna.
São Paulo escreve:
«Porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro.» (Fl 1,21)
Essa afirmação não é uma exaltação da morte em si mesma. É a
expressão de uma esperança que ultrapassa os limites da existência terrena. O
cristão não considera a morte uma libertação simplesmente porque deseja
abandonar este mundo, mas porque espera encontrar-se definitivamente com
Cristo.
A doutrina católica ensina que, imediatamente depois da
morte, ocorre o juízo particular, no qual a vida de cada pessoa é colocada
diante da verdade de Deus. A alma recebe sua retribuição eterna, seja mediante
a entrada imediata na bem-aventurança celeste, seja após a necessária
purificação, seja pela condenação eterna. A esperança cristã aguarda também a
ressurreição dos corpos e o juízo final, quando Cristo se manifestará em sua
glória.
Essa realidade deveria modificar profundamente nossa maneira
de viver.
O purgatório, por exemplo, recorda-nos que a santidade não é
uma questão de aparência religiosa. A alma que morre na graça de Deus, mas
ainda necessita de purificação, passa por essa purificação antes de entrar na
plenitude da visão beatífica. É por isso que a Igreja conserva a oração pelos
falecidos, oferece sufrágios e celebra a Santa Missa pelas almas dos fiéis
defuntos.
Não abandonamos nossos mortos ao esquecimento. Continuamos
unidos a eles pela comunhão dos santos.
E aqui a devoção carmelitana a Nossa Senhora do Carmo
adquire uma dimensão particularmente significativa. O escapulário não é um
amuleto, nem uma garantia automática de salvação. É um sinal de pertença a
Maria, de consagração a Cristo e de compromisso com uma vida cristã autêntica,
alimentada pela oração e pela fidelidade ao Evangelho.
A devoção à Virgem do Carmo, portanto, não deve ser reduzida
à expectativa de uma proteção na hora da morte. Ela precisa manifestar-se numa
existência vivida sob sua maternal orientação, seguindo os passos de seu Filho.
A verdadeira preparação para morrer cristãmente começa na
maneira como aprendemos a viver cristãmente.
6. A vaidade humana diante do tribunal da eternidade
Voltemos à provocação inicial: noventa e nove por cento do
que pensamos não têm importância nenhuma.
Talvez a porcentagem seja uma hipérbole, mas a advertência
merece ser considerada.
Vivemos numa época em que a atenção humana se tornou uma
mercadoria disputada. Somos constantemente convocados a reagir, comentar,
responder, opinar, discordar e demonstrar nossa presença. As pessoas parecem
sentir necessidade de manifestar uma opinião sobre praticamente tudo, como se o
silêncio fosse uma forma de inexistência.
Até mesmo a vida religiosa pode ser contaminada por essa
mentalidade. Há quem transforme a defesa da fé numa competição de argumentos, a
piedade numa exibição pública e o conhecimento teológico numa forma de
superioridade pessoal.
Mas de que adianta vencer todas as discussões e perder a
caridade? De que adianta conhecer os erros dos outros e permanecer cego diante
dos próprios pecados? De que adianta defender a verdade com palavras e
contradizê-la com o comportamento?
São João da Cruz nos oferece uma advertência que deveria
acompanhar todo aquele que deseja progredir na vida espiritual:
«No entardecer desta vida, seremos julgados no amor.»
A sentença, em sua formulação tradicional, exprime
admiravelmente a doutrina joanina. O amor não é um sentimento secundário
acrescentado à vida cristã: é o princípio que deve ordenar nossas ações e
conduzir-nos à união com Deus.
Diante da eternidade, nossa vaidade perderá sua sustentação.
Aquilo que fizemos para receber aplausos não terá o mesmo valor daquilo que
realizamos por amor. As disputas que alimentamos, as ofensas que recusamos
perdoar e as oportunidades de fazer o bem que desperdiçamos aparecerão sob uma
luz inteiramente diferente.
A morte nos retirará das circunstâncias em que construímos
nossas justificativas. Diante de Deus, não haverá necessidade de representar um
personagem.
Estaremos diante da Verdade.
E talvez uma das maiores penitências de nossa existência
seja precisamente esta: aprender a abandonar a necessidade de parecer alguma
coisa aos olhos dos homens para nos preocuparmos, antes de tudo, com aquilo que
somos diante de Deus.
7. Preparar-se para a morte é aprender a viver bem
Existe uma espiritualidade que precisamos recuperar: a
espiritualidade da boa morte. Não como uma preocupação mórbida, mas como uma
disposição permanente de quem deseja terminar sua peregrinação terrena em
amizade com Deus.
Os antigos mestres espirituais compreendiam que uma boa
morte não se improvisa. Ela é, ordinariamente, o fruto de uma vida de
conversão, oração, penitência, caridade e perseverança.
Por isso, o cristão precisa aprender a viver reconciliado
com Deus e com o próximo. Precisa cultivar uma consciência reta, recorrer
frequentemente ao sacramento da Penitência, alimentar-se da Eucaristia,
exercitar a caridade e não adiar indefinidamente sua conversão.
Também precisa aprender a morrer para o próprio orgulho. Há
pessoas que temem a morte física, mas não demonstram qualquer resistência em
deixar morrer a própria consciência moral. Têm medo de perder os bens, mas não
de perder a graça. Preocupam-se com a saúde do corpo, mas negligenciam a saúde
da alma.
Não se trata de desprezar os cuidados com a vida terrena. O
corpo é criação de Deus e merece respeito. Entretanto, seria uma contradição
cuidar tão zelosamente daquilo que um dia necessariamente morrerá e
negligenciar a alma, destinada à eternidade.
Santa Teresa de Jesus, em sua conhecida poesia, expressou
essa tensão entre a condição passageira da existência e o desejo da união
definitiva com Deus:
«Vivo sem viver em mim,
e tão alta vida espero,
que morro porque não morro.»
Não devemos interpretar essas palavras como desprezo pela
vida, mas como expressão do anseio de uma alma que descobriu em Deus sua
verdadeira pátria.
A morte, para quem ama a Deus, não deixa de ser um
acontecimento sério, doloroso e cercado de mistério. Contudo, já não possui a
última palavra. A última palavra pertence a Cristo Ressuscitado.
É essa esperança que nos permite viver sem desespero, sofrer
sem perder a fé e envelhecer sem considerar a existência um fracasso.
Considerações finais: o que realmente merece nossa vida?
Retornemos, finalmente, à frase de Olavo de Carvalho.
Há nela uma provocação que merece ser conservada: precisamos
avaliar nossas ideias, nossas convicções e nossas preocupações à luz da morte.
Precisamos descobrir o que realmente importa e abandonar a vaidade de atribuir
importância eterna àquilo que não passa de circunstância.
Mas o cristianismo nos permite dar um passo além.
Não basta perguntar quais verdades merecem nossa morte.
Precisamos perguntar qual Verdade merece nossa vida inteira.
E a resposta não é uma abstração filosófica. É Jesus Cristo.
Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida. Por Ele os mártires
entregaram suas vidas; por Ele os santos abandonaram suas seguranças; por Ele
os contemplativos procuraram o silêncio; por Ele os religiosos abraçaram os
conselhos evangélicos; por Ele os leigos aprenderam a santificar suas famílias,
seu trabalho e suas responsabilidades cotidianas.
Os santos carmelitas compreenderam que a vida não encontra
sua plenitude na acumulação de experiências, conhecimentos ou conquistas, mas
na transformação interior que conduz à união com Deus.
São João da Cruz ensina o desapego. Santa Teresa de Jesus
ensina a amizade com Cristo. Santa Teresinha ensina o amor nas pequenas coisas.
E todos, cada qual segundo sua experiência e doutrina, apontam para a mesma
realidade: não fomos criados para as coisas passageiras, mas para Deus.
Talvez seja necessário recuperar o costume de fazer, ao
término de cada dia, um pequeno exame de consciência, não apenas sobre aquilo
que fizemos de errado, mas também sobre o tempo que desperdiçamos, o amor que
deixamos de oferecer e as oportunidades de santificação que não soubemos
aproveitar.
Afinal, um dia nossas atividades serão interrompidas, nossas
preocupações perderão sua urgência, nossos projetos chegarão ao fim e as
palavras que hoje pronunciamos deixarão de encontrar resposta neste mundo.
Restará a verdade de nossa existência diante de Deus.
E quando chegar a nossa última hora, não será o número de
nossas discussões, a quantidade de nossos escritos, o reconhecimento de nossos
méritos ou a extensão de nossos conhecimentos que deverá ocupar o centro de
nossa consciência. Será a fidelidade com que procuramos amar a Deus e ao
próximo.
Que Nossa Senhora do Carmo, nossa Mãe, Irmã e Padroeira, nos
ensine a viver sob seu manto, com os olhos voltados para Cristo e o coração
desapegado das coisas que passam. Que São José, Padroeiro da boa morte, nos
alcance a graça de uma vida reta e de uma morte santa.
E que, quando chegar o entardecer de nossa peregrinação,
possamos apresentar-nos diante do Senhor não como aqueles que apenas falaram
sobre a verdade, mas como aqueles que procuraram vivê-la.
Porque, no fim das contas, a questão não será simplesmente
quanto tempo vivemos, mas quanto amor colocamos na vida que nos foi concedida.
A morte nos ensina que o tempo é breve. A fé nos recorda que
a eternidade é real. E o Carmelo nos ensina que o caminho para Deus começa
aqui, no silêncio de uma alma que decidiu não desperdiçar sua existência.
Só Deus basta.