Pontes demais, chão de menos
Diário de um Católico na Contrarrevolução — Parte 56
Há algo no ar — e não é incenso.
É uma espécie de leveza estranha, quase educada demais, como
se a Igreja tivesse aprendido a andar na ponta dos pés dentro do mundo moderno,
com medo de fazer barulho. As estruturas continuam de pé, os títulos
permanecem, os eventos se multiplicam… mas a substância — essa parece, pouco a
pouco, diluir-se como sal em água demais.
E o mais curioso? Tudo isso acontece em nome de virtudes
aparentemente nobres: diálogo, inclusão, equilíbrio, paz.
Palavras belas. Mas, como sempre na história da Igreja, o
problema nunca foram as palavras. O problema é o que se faz com elas.
A nova engenharia: construir pontes… sem destino
O cenário recente é quase didático.
Na educação católica, começa-se não mais por Cristo, mas
pelos parâmetros do Estado. Fala-se de “diversidade”, “convivência”,
“pluralidade” — e só depois, talvez, se tenta encaixar o Evangelho nesse
vocabulário já pronto. O resultado? Uma catequese que já nasce traduzida… e,
portanto, enfraquecida.
Não é que a Igreja tenha deixado de ensinar o respeito. Isso
sempre esteve no coração da moral cristã. Mas há uma diferença abissal entre:
- respeitar a pessoa
- e validar a confusão
Quando essa linha se apaga, a escola deixa de formar santos
e passa a formar cidadãos agradáveis.
E convenhamos: o mundo já está cheio desses.
O diálogo que esqueceu de converter
O mesmo padrão aparece no chamado diálogo inter-religioso.
A figura de Aloysius Pieris simboliza bem essa transição
silenciosa: do missionário que anuncia, para o intelectual que conversa.
Antes, o fogo da Igreja atravessava oceanos para proclamar:
Cristo é Rei.
Agora, atravessa fronteiras para dizer:
vamos aprender uns com os outros.
Soa bonito. Mas falta algo essencial: o escândalo da
verdade.
Porque o cristianismo nunca foi apenas uma proposta entre
muitas. Ele sempre foi — goste o mundo ou não — uma afirmação absoluta.
Quando o diálogo substitui a missão, o Evangelho vira
sugestão.
E sugestão não salva ninguém.
Maria, reduzida ao aceitável
Talvez o sinal mais revelador desse tempo seja o desconforto
crescente com a linguagem tradicional da devoção.
Expressões como “Corredentora” ou “Mediadora de todas as
graças”, que alimentaram séculos de piedade, agora são tratadas com cautela —
quase como se fossem excessos a serem corrigidos.
Mas aqui a pergunta precisa ser feita, sem rodeios: Desde quando amar demais Nossa Senhora virou
problema?
A tentativa de “equilibrar” Maria revela algo mais profundo:
um certo medo daquilo que é intensamente católico — denso, hierárquico,
sobrenatural.
Porque Maria não cabe em esquemas minimalistas.
Ela é rainha, mãe, intercessora, terror dos demônios.
Reduzi-la não é esclarecer. É empobrecer.
Quando a Igreja vira anfitriã de identidades
Em certos ambientes, especialmente acadêmicos, o fenômeno se
torna ainda mais explícito.
A fé já não é apresentada como caminho de conversão, mas
como espaço de acolhimento de identidades. A linguagem muda — e com ela, muda
tudo:
- pecado vira experiência
- luta vira expressão
- cruz vira narrativa pessoal
E assim, o que antes era chamado ao arrependimento se
transforma em validação emocional.
A Igreja deixa de ser mãe que corrige… para se tornar
anfitriã que acomoda.
Mas uma casa onde ninguém é chamado a mudar… também não é um
lar de santidade.
A paz sentimental e o esquecimento da verdade
Até mesmo quando se fala de guerra, percebe-se essa mudança
de tom.
A tradição católica sempre foi rigorosa: nunca glorificou a
guerra, mas também nunca caiu em ingenuidade. Ela distinguia, analisava,
julgava com precisão.
Hoje, porém, cresce uma linguagem mais… cinematográfica.
Mais emocional. Menos teológica.
Fala-se contra a guerra como quem protesta contra o clima —
sem distinguir meios, causas, responsabilidades.
Mas a moral católica não funciona por slogans.
Ela exige discernimento. E discernimento exige coragem de
pensar — não apenas de sentir.
O que resta quando tudo permanece… menos o espírito?
E aqui chegamos ao ponto mais inquietante.
Nada foi formalmente demolido:
- as escolas continuam
- os centros teológicos continuam
- as universidades continuam
- o próprio papado continua
Mas algo mudou por dentro.
É como uma catedral onde ainda ecoam cânticos… mas já não se
tem certeza do que está sendo crido.
Contrarrevolução: menos barulho, mais fidelidade
Diante disso, a tentação é dupla:
- ou cair no desespero
- ou se acomodar na confusão
Mas a resposta autêntica sempre foi outra.
A Igreja já atravessou épocas piores. Já viu heresias mais
claras, crises mais violentas, traições mais escancaradas.
Seguindo Aquele que não construiu pontes para agradar
multidões, mas abriu um caminho estreito que poucos quiseram trilhar — Jesus
Cristo.
Conclusão: pontes são boas… se levam ao Céu
Pontes não são o problema.
E fidelidade, quase sempre, parece antiquada aos olhos do
mundo.
Mas é exatamente isso que salva.
No fim, restará apenas o que sempre sustentou tudo:
- a verdade não negociada
- a fé transmitida sem cortes
- o sacrifício oferecido como sempre foi
E ali, silenciosa e imutável, a Missa que moldou santos por
séculos continuará sendo o coração que ainda pulsa — mesmo quando todo o resto
parece hesitar.
Por um Católico consciente e atento ao cenário eclesial do Brasil e do Mundo.