Meditação da Antífona do Ó: Ó Sol nascente – 21 de dezembro
O Oriens splendor lucis æternæ, et sol justitiæ Veni et
illumina sedentes in tenebris et umbra mortis”.
Ó Sol nascente justiceiro, resplendor da Luz eterna (Hab
3,4): Ó vinde e iluminai os que jazem nas trevas e, na sombra do pecado e da
morte, estão sentados (Lc 1,78)
E o Menino chora
O Menino chora na estreiteza do estábulo. Por que choras,
Menino bom? Estará aqui presente algum grande pecador que trema quando Deus lhe
disser: – “Onde estás?”? Que grande mal tê-lo ofendido muito,
lembrar-se de vinte anos de grandes ofensas! Que resposta darás quando Deus te
interpelar?
Assim como tu tremes, tremiam os irmãos de José quando este
lhes disse: Eu sou José, vosso irmão, que vós vendestes (Gn 45,4).
E eles pensaram: “Infelizes de nós! Ele agora é Rei. Há de querer
matar-nos, tem motivos e pode fazê-lo”. Tremiam. É o pecador que treme por
ter ofendido a Deus. Ofendestes a Deus e por isso tendes razão em tremer.
Convido os que estão no erro, os que tem a consciência pesada e os grandes
pecadores a ir até à manjedoura ver o Menino chorar.
Por que choras, Senhor? Os irmãos daquele José não ousavam
aproximar-se dele, até que o viram chorar: Eu sou vosso irmão, aproximai-vos,
não tenhais medo. José levanta a voz, chora e, não contente com isso, conforme
a Sagrada Escritura, beijou em seguida cada um dos seus irmãos,
chorando com todos eles (Gn 45,15), e os irmãos pediram-lhe perdão.
Estou chorando por ti
– Não tenhais receio (Gn 45,5) – dizia-lhes ele
– , “vendeste-me por maldade, mas, se eu não tivesse vindo para cá,
todos morreriam de fome. Deus tira dos males o bem”.
Menino, por que chorais? – “Para que os pecadores
compreendam que, embora tenham pecado, devem aproximar-se de Mim sem temor, se
se arrependerem de ter-Me ofendido”. O Menino chora de ternura e de amor.
Bendito Menino! Quem Vos colocou nessa manjedoura senão o amor que tendes por
mim? Fomos maus e ingratos, como contra o nosso irmão José. Vendemo-lo. Um
disse: – “Prefiro cometer uma maldade a ficar com Cristo”. Outro
disse: – “Prefiro um prazer da carne a Ele”. Vendemos nosso
irmão, traímo-lo.
E José, o santo, convida-nos a aproximar-nos da manjedoura e
a ouvir esse choro causado por cada um de nós. Se olhásseis para esse Menino
com os olhos limpos, se adentrásseis na sua alma, encontraríeis uma inscrição
que vos diria:“Estou chorando por ti”, pois desde a concepção Ele
teve conhecimento divino e conhecia todos os nossos pecados e chorava por eles.
E se está chorando pelos nossos pecados, que pecador não sentirá confiança, se
quiser corrigir-se? Há algo no mundo que inspire mais confiança do que ver
Cristo numa manjedoura, chorando pelos nossos pecados.
Por que chorais? Que fazeis, Senhor? – “Começo a
fazer penitência pelo que tu fizeste”. Pois bem, que fará um cristão
que olhe com olhos de fé para cristo que chora pelos seus pecados? Ai de mim,
porque tarde Vos conheci, Senhor! Ai de mim por tantos anos perdidos sem Vos
conhecer! Quem se deixará dominar pela tibieza ao ver Deus humanado chorar?
Se, estando o sol no céu, não o suportamos durante o
verão, que aconteceria se ele descesse à terra?
Se, estando outrora lá em cima, o Sol abrasava, o que
não será agora que desceu e se colocou numa manjedoura, e passa frio…e, quanto
mais frio passa, mais eu me aqueço; e quando mais incômodos sofre, mais eu
descanso; e quanto mais Te vejo padecer por mim, Senhor, mais acredito que me
amas!… Dou-Vos graças por terdes nascido. Dou-Vos graças por terdes preferido
uma manjedoura!
Fonte:
O presente texto foi extraído do livro, O Mistério do Natal
– São João de Ávila, Editora Quadrante, São Paulo, 1998
